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Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Mato Grosso do Sul

'Justiceiros' espalham morte pela fronteira e deixam recados: 'Não teremos dó'

Nesta semana, um casal de namorados foi assassinado com mais de 30 tiros, e o corpo de um jovem foi encontrado sem as mãos com 'avisos'

Postado em 30 de Julho de 2021 - G1

Local onde o corpo do jovem foi encontrado na quarta-feira (28) — Foto: Gilberto Diaz/Reprodução Local onde o corpo do jovem foi encontrado na quarta-feira (28) — Foto: Gilberto Diaz/Reprodução

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Colocar bilhetes com "avisos" tem sido prática do grupo criminoso autointitulado "justiceiros da fronteira", que comete execuções na linha internacional entre Brasil e Paraguai. Nesta semana, após o assassinato de um casal de namorados paraguaios, os criminosos colocaram cartazes em postes das cidades fronteiriças de Pedro Juan Caballero (que fica no Paraguai) e a brasileira Ponta Porã (MS): "Dizem que quem avisa, amigo é", afirma o recado.

Os namorados Mateo e Anabel foram executados com mais de 30 tiros. Segundo a polícia do país, os avisos encontrados após o crime passaram a fazer parte das investigações sobre os crimes.

Junto aos corpos de Mateo e Anabel, a polícia também encontrou outro recado: "Favor não roubar" (relembre o caso aqui).

O corpo de um adolescente também foi encontrado sem mãos com um bilhete nesta semana: "Os justiceiros estão de volta".

No aviso, os "justiceiros" ameaçam de morte pessoas que "roubam [...], traficantes [...] e aqueles envolvidos neste contexto social", segundo as investigações dos crimes. É comum também o grupo fazer ameaças: "as coisas vão ficar ruim para vocês".

"Começaremos a agir fortemente nesta cidade para eliminar estas pragas deste convívio social. Não teremos dó nem piedade, e para quem acha que isso aqui é uma brincadeira, procure saber", diz um trecho de uma carta assinada pelo grupo.

Segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), 51 execuções já foram registradas na região em Mato Grosso do Sul, próximo a linha internacional com o Paraguai. O serviço de segurança do país vizinho não informou sobre os dados correspondentes ao país.

O delegado Clemir Vieira, que comanda a Polícia Civil em Ponta Porã, disse que a maioria dos casos de execução na linha de fronteira acontecem do lado paraguaio e, por este motivo, as investigações ficam restritas ao país vizinho. "Estamos em alerta, não ficamos alheios, mas formalmente não investigamos os casos recentes", explicou.

Na opinião de Vieira, "coincidentemente, a maioria [dos executados] tem antecedência em crimes contra o patrimônio". Ele acredita que as investigações da polícia paraguaia devem encaminhar para elucidação de quem ou quais pessoas fazem parte dos "Justiceiros da Fronteira", que assinaram os crimes recentes.

"Eles se denominam dessa forma. Não deixa de ser uma organização criminosa que faz justiça com as próprias mãos", disse.

O delegado também afirmou que nenhum caso assinado pelo grupo "Justiceiros da Fronteira" aconteceu recentemente em Ponta Porã, mas não descarta que no passado tenham ocorrido execuções semelhantes na cidade brasileira.

"Às vezes pode ser apenas um homem, ainda estamos em investigação e não temos nenhuma informação da polícia paraguaia. Conosco não temos nenhuma informação sobre a investigação", frisou.

O que dizem as polícias

Uma fonte do G1, relacionada a segurança pública em Mato Grosso do Sul, que não será identificada, disse que os avisos deixados nos postes das cidades "pode ser apenas uma brincadeira". Além, de frisar que a maior parte das execuções acontecem do lado vizinho.

Por conta dos crimes acontecerem no Paraguaia, a fonte disse que não há a inserção da polícia brasileira durante as investigações dos crimes, "que geralmente estão relacionados ao roubo e tráfico de drogas".

Já um dos investigadores da polícia paraguaia, que pediu para ter a identidade preservada, pontou que as apurações das execuções estão em curso. Ainda ressaltou que os avisos colados em postes e bilhetes encontrados sobre o corpo de Mateo, e do adolescente, de 17 anos, foram submetidos à perícia.

A fonte, ainda pontuou ao G1 que as investigações ainda correm em sigilo no Paraguai.

Crimes na fronteira

Mateo Martínez Armoa, de 21 anos, e Anabel Centurion Mancuelo, de 22, foram executados com mais de 35 tiros em uma choperia na cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, vizinha da brasileira Ponta Porã (MS). Horas antes do crime, os paraguaios Mateo e Anabel trocaram declarações de amor nas redes sociais (leia os posts aqui).

Mateo, executado com mais de 35 tiros em uma choperia na cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, vizinha da brasileira Ponta Porã (MS), era fugitivo da polícia paraguaia desde 2018 por roubo grave. A informação consta no boletim da ocorrência que o serviço de segurança do país vizinho registrou sobre a morte dele e, ao qual, o G1 teve acesso. O delegado responsável pela Polícia Civil da cidade do lado brasileiro, Clemir Vieira, também reafirmou o conteúdo.

O corpo de um adolescente de 17 anos, foi encontrado na manhã de quarta-feira (28) na cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, vizinha a Ponta Porã (MS). Um bilhete parecido com o que foi encontrado após a execução do casal na noite de segunda-feira (26) foi encontrado junto ao corpo da vítima.

Em maio deste ano, um homem não identificado foi executado com tiros de fuzil entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. Imagens de câmeras de segurança que circularam na internet na época mostram a ação do pistoleiro.

Também em maio deste ano, três homens foram mortos a tiros e os suspeitos pelos assassinatos colocaram cartazes de alerta sobre os corpos com as palavras "não roubem". O crime aconteceu na cidade paraguaia de Yby Yaú, no departamento de Concepción, próximo a linha internacional de Pedro Juan Caballero, com Ponta Porã, no sul de Mato Grosso do Sul.


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