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Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Todas as pedras do caminho

Para quem anda com bolsos cheios de pedras metafóricas, atirando-as ao chão, ameaçando o caminho, inventando verdades e espalhando dúvidas.

Postado em 29 de Julho de 2021 - Theresa Hilcar

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Há algumas décadas venho carregando uma enorme variedade de Helenas. Que ao contrário das homônimas nas novelas de Manoel Carlos, não são assim tão inocentes. Tampouco lembram a personagem da mitologia grega: Helena de Troia, filha do deus Zeus e da mortal Leda, conhecida por ser a mulher mais bela do mundo.  

As Helenas que carrego nas costas são um pesadelo. A primeira foi uma colega de sala – Helena – que tinha o péssimo hábito de me ameaçar com pedras nas mãos. Não sei qual o motivo pelo qual ela tinha ganas de arremessa-las contra mim, na verdade nunca soube. 

Lembro apenas daquela menina baixinha, quase franzina, de cabelos escuros e olhos amedrontadores que se postava na saída com suas armas – que às vezes era um tijolo. Ela vinha atrás de mim ameaçando a atitude verbalmente e às vezes, para me assustar, as jogava no chão. O barulho na pedra caindo ao meu lado me fazia tremer de medo. E não tinha sequer coragem de olhar para trás como se o simples fato de me virar desencadeasse toda a agressão.

Depois de um tempo, na tentativa de colocar um fim naquela angústia, resolvi tomar uma atitude. Não, eu não enfrentei a briga, preferi reclamar com o diretor da escola e com o pai dela, farmacêutico antigo e boa praça. Ambos me tranquilizaram assegurando que ela, a Helena, não tinha intenção de machucar, apenas ameaçar.

Aquele gesto rotineiro me assustava sobremaneira. Embora ganhasse dela em centímetros, aquilo me diminuía. Mais ainda por não saber o motivo de tamanha injustiça. O que podia eu ter feito para magoar a coleguinha? Talvez pedido um lápis emprestado e esquecido de devolver? Quem sabe passado a sua frente na fila da merenda? Ou seria ciúmes do menino da quarta série, por quem arrastava as asinhas? Nunca descobri.

Só sei que tempos depois ela parou com as pedras. E respirei aliviada. Mal sabia que outras Helenas surgiriam ao longo da vida.  Talvez seja alguma espécie de carma encontrar as mesmas pessoas em peles diferentes e épocas distintas. Mas sempre com a mesma gana de atirar pedras.

Ao longo dos anos as Helenas continuaram indo e vindo.  No início algumas chegam com segredos, silêncios e flores. E te instigam. Outras vêm sorrateiras e sorridentes. Essas atiçam a curiosidade. A maioria alega boas intenções. E eu como boa pata caio direto na lagoa. E me machuco.

As feridas vão se acumulando, deixando cicatrizes, lembrando a natural vulnerabilidade e derrubando a autoestima.  O intuito é enfraquecer o suposto adversário. Deixar o alvo impotente a tal ponto que ele desista. Seja lá do que for. Pode ser um trabalho, um pedaço de pão, um amor, um projeto ou apenas atenção. As Helenas querem o que já tem. E não admitem que outros tenham.

Por isto andam com bolsos cheios de pedras metafóricas, atirando-as ao chão, ameaçando o caminho, inventando verdades e espalhando dúvidas. As Helenas, que podem ser Marias, Anas ou Júlias, estão em toda parte, nos lugares mais improváveis. Por isto, como na música, é preciso estar sempre atento e forte. Na dúvida, melhor sair de campo. Já basta enfrentar nossas próprias lutas.


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