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Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Ou o Brasil acaba com os homens-saúvas ou os homens-saúvas acabam com o Brasil

A Mãe Terra irá nos eliminar se não interrompermos este processo ‘incivilizado’ de viver, que as sociedades capitalistas inventaram

Postado em 29 de Julho de 2021 - Emerson Merhy

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O Cerrado foi destruído e no lugar está se produzindo pastos e plantações de soja. A Amazônia está sendo destruída e no lugar está se produzindo pastos, plantações inóspitas, como de soja e extrações de materiais da terra, dos morros, dos rios.

Esse movimento de destruição lembra um grande formigueiro de homens-saúvas, que vai devastando tudo que vê pela frente em torno de um imaginário, que tudo que está no mundo fora de si, são meros recursos que só têm valor ao se constituírem como mercadorias. E nesse processo predador vão comendo tudo, inclusive todas formas de vidas que aí estão, consideradas re-existências que por não serem recursos-mercadorias devem ser exterminadas.

No Sul e Sudeste, os homens-saúvas já haviam passado e devastado territórios imensos. Lembro nos anos 1970, quando estive em Ijuí no Rio Grande do Sul, e conheci a região devastada pela plantação extensiva de soja, com um uso abusivo de agrotóxicos, e vi rios imensos morrendo, bem como morrendo parte dos próprios homens-saúvas. Nunca isso saiu do meu corpo. Ter conhecido a casa de um destes homens, na qual a plantação chegava na porta da sua casa, além do cheiro e sabor do agrotóxico que impregnava todo lugar, no dentro e fora da sua casa plantação.

Esses homens-saúvas, hoje, chegaram no Norte do país e estão devastando a Região Amazônica e matando tudo que possa servir de obstáculos a seus intentos. Matam povos indígenas para roubarem suas terras e para garimparem seus rios, mercurizando as vidas e o futuro. Contam com apoio também de um governo de homens-saúvas, e assim seus formigueiros vêm crescendo e produzindo um terror nas vidas dos que não os são.

Vejo uma sinergia enorme entre essa produção social dos homens-saúvas e o que Davi Kopenawa fala dos homens-mercadorias, para os quais tudo são comercializáveis e estão a venda, inclusive seus próprios desejos. Tudo é só uma questão de preço para esses construtores das destruições das vidas sob suas várias formas e, assim, desvaloram as consequências desastrosas das suas ações. Não acreditam na Queda do Céu e se isso acontecer, não acreditam que eles serão exterminados, também.

O Brasil, que deseja um futuro mais igualitário e justo, tem que se rebelar e acabar com estes homens-saúvas, pois diferentes das saúvas - que vão sempre encontrar predadores que irão produzir equilíbrios nos seus crescimentos, sendo que ao mesmo tempo colaboram com esses equilíbrios pela poda constante que geram e pela retroalimentação e adubação do próprio solo -, o grande risco que temos é não conseguirmos produzir de modos efetivos predadores dos homens-saúvas, que não são os que irão matá-los a bala, mas que irão desmontá-los subjetivamente em suas capacidades de se reproduzirem em outros corpos-homens.

Predadores-coletivos-sociais que consigam criar a ideia de que a produção da vida, em sua multiplicidade vivente, é mais fundamental do que tornar tudo vida-capital e que as verdadeiras rainhas desse formigueiro de homens-saúvas que nos comandam são: as corporações financeiras, o grande capital do agronegócio, as mineradoras transnacionais, entre outras.

É, portanto, uma questão de sobrevivência da nossa própria espécie, agir nessas frentes de desmontagem da subjetividade do homem-saúva, que nos habita desde o começo da colonização há mais de 500 anos, e desconstruir a importância dessas grandes máquinas abstratas mundiais que sustentam essa destruição, apostando que só sociedades em harmonia com Gaia podem nos tirar desta encalacrada mortífera sobre todas as formas de vida, que graciosamente a Terra presenteia sistematicamente como sua vocação mais profunda: ser uma experiência única como útero generoso de produção contínua de viventes em suas multiplicidades e que só uma rede enriquecida de vidas nesta multiplicidade, pode sustentar mais vidas nas vidas vividas.

Se não conseguirmos fazer isso, estaremos à beira do nosso próprio extermínio, pois a Mãe Terra irá nos eliminar se não fizermos nada para mudarmos o rumo deste processo “incivilizado” de viver, que as sociedades capitalistas inventaram.

Fecho chamando a atenção que aqui homem não é o corpinho de um macho específico, mas é a expressão de qualquer corpo-gênero que se vê saúva humana, como caracterizamos nesse pequeno texto.


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