Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Sobre racismo, real e cruel

Raphael Tsavkko Garcia fala disso, e também de liberais, surpresas e lacrações chocantes

Postado em 29 de Julho de 2021 - Raphael Tsavkko Garcia

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Eu sou o primeiro a criticar identitarismos torpes, mas a Daiane dos Santos está coberta de razão em deixar claro que a Rebeca Andrade é uma mulher negra e que negras não eram bem tratadas na ginástica até pouco tempo. A Daiane sentiu na pele o racismo.

A fala dela é importante.

Identitarismo prejudica a luta contra o racismo por encheção de saco mesmo. É a história do lobo, grita-se tanto por nada que quando vem algo sério, ninguém liga ou está de saco cheio.

A fala da Daiane é importantíssima e não passa nem perto de ser mero identitarismo, escancara o racismo que ela mesma sofreu por anos, e não é mera tentativa de se vitimizar para ganhar holofotes, cargos, vaga em revista, etc. É um sentimento forte, uma fala emocionante, que denuncia racismo real e cruel.

O GRANDE PROBLEMA DA TURMA LIBERAL

Concordando com a análise, eu vou além. O grande problema da turma liberal - e que vale para a turma de esquerda também - é que apesar de ficar claro que esse pessoal que é neostalinista, ancap, fascista, etc, acaba sendo aceito no meio.

Constantino está sempre ao lado de liberais que se colocam como sérios. Assim como você tem vários exemplos de gente abertamente antidemocrática e que defende eliminação física de adversários no seio da esquerda sendo compartilhada, tendo discurso reforçado, etc.

Esses elementos sempre vão existir. Oportunistas autoritários que independentemente da ideologia, apenas pregam o que há de pior e mais detestável são comuns. O problema é outro: É serem tratados como normais, aliados, parte do grupo. Terme seus discursos normalizados.

Constantinos da vida (ou Jones da vida, etc) só conseguem sucesso porque tem espaço, porque tem quem os compartilhe. Porque tem gente que defende posições aceitáveis e democráticas que passam pano pros absurdos extremos deles - e em grande parte porque hoje ser extremo é cool. Ser extremo dá ibope, atiça a galera. Então o moderado dá espaço pro radical achando que vai preservar sua base, mas conquistar outras, quando no fim o discurso político apenas migra pros extremos.

Os moderados não apenas não combatem os radicais como dão espaço e os usam.

Não é um fenômeno brasileiro, pelo contrário. Partidos tradicionais se parecem cada vez mais por todo o mundo. É cada vez mais difícil diferenciar um partido de centro-direita de um de centro-esquerda na prática. A solução é ir aos extremos, mesmo que argumentativamente, e buscar atrair novos apoios, animar a política. O problema é que uma hora o que é argumento vira realidade.

O PT passou anos com militância defendendo discursos radicais, mas de fato o governo em si pouco agiu com base nesses discursos - pelo contrário, piorou lei antidrogas, mandou indígenas pro espaço com Belo Monte, aplaudiu repressão contra movimentos sociais, privatizou, etc... E tem usado os identitários desde 2013 como arma de controle de discurso e ação.

Mas Bolsonaro foi além do discurso, ele é a prática radical de direita. É o passo seguinte do discurso extremo que é aceito e normalizado na mídia.

SEM SURPRESA

Quando a gente pensa q não tem como se surpreender mais o Bolsonaro tira foto do lado de parlamentar nazista cujo avô era ministro do Hitler.

Alguém tem dúvida da ligação carnal do Bolsonarismo com Nazismo? https://is.gd/9Lvsww

Eu alerto há tempos! https://is.gd/oaBUDH

Detalhe que a turma da AfD é amiga do Putin, defendem com unhas e dentes as regiões separatistas na Ucrânia, são contra sanções à Rússia...

Tipo uns elementos da esquerda neostalinista que também dão trela pra Putin e cia.... #Ferradura

LACRAR E CHOCAR

As redes sociais promovem a "necessidade" de lacrar, de chocar, de fazer a bolha se animar.

O problema é que se trata de uma bolha. É completamente deslocado da realidade. É o famoso "jogar pra torcida", mas perder de 7x1.

No UK a maioria absoluta dos negros achava absurdo o BLM destruindo estátuas (84% - https://is.gd/6M0S6A) Não duvido que a opinião pública no Brasil também considere uma barbaridade. Mas tem gente na esquerda feliz, então dane-se. Lacraram.

Fala-se mais da estátua que dos protestos. Muita gente veio me falar que achou absurdo o que fizeram com a estátua (e todos acham Borba Gato um lixo). Nenhuma dessas pessoas era "militante", tampouco bolsonaristas. O descolamento é muito real.

O descolamento de amplos setores da esquerda da... Realidade, é uma coisa meio impressionante.

O identitarismo torpe, o radicalismo de botequim, o neostalinismo de rede social carcomeu a esquerda quase totalmente. Não se pensa, planeja - tudo é feito pra chocar e lacrar. E de forma autoritária.

Em tempo, adoro aquele "argumento" na base do "porque eu deveria me importar com A quando tem B acontecendo?" Ou seja, porque me importaria com uma estátua quando temos um governo fascista no poder?

Talvez porque você seja capaz de se importar com mais de uma coisa ao mesmo tempo? Talvez porque possa denotar hipocrisia, burrice, falta de noção e de estratégia? Porque é um argumento ruim? Porque suas ações REFORÇAM o discurso dos fascistas no poder junto aos seus e a boa parte da população?

E o argumento (sic) é sempre baseado no outro. Não é um raciocínio estratégico, é "mas o outro lado é malvado, faz pior e ninguém liga".

O "ninguém" é por conta do sem noção que quer radicalizar, no mais, é simplesmente estúpido. Você pauta/nivela suas ações com base no que critica e assumindo premissas falsas ou parciais.

Não se trata de defender a estátua do Borba Gato em si, mas de apontar uma ação (ou conjunto de ações) ruim e danosa para a própria esquerda. Tampouco se trata de achar que porque a "opinião pública" pensa de uma forma a esquerda deveria se pautar por ela e não mudar nada. Não, se trata de defender a necessidade de estratégia em ações políticas. De pensar, planejar e não apenas agir e lacrar garantindo orgasmos do seu campo político e repúdio fora da bolha.

Qual o sentido de atacar a estátua senão para tirar toda a atenção dos protestos? Qual o interesse em pegar temas complexos e transformar em pastiche radical?

Sobre esse segundo tema, o Maximus Desiderius escreveu um longo e certeiro post. As coisas são muito mais complexas do que crê setores radicais da esquerda. Oras, hoje em dia até a Princesa Isabel é tachada de racista pelos radicais, vamos derrubar suas estátuas também?

O post do Maximous, copio um pequeno trecho e recomendo a leitura completa (https://is.gd/mbBX2o):

"Ja qué vamos ficar nessa discussão pobre de "vamos queimar a estátua de fulano porque ele escravizou", inclusive as pessoas que queimaram a estátua de Borba Gato o chamando de "fascista", sendo que fascismo é uma ideologia do século XX e os Bandeirantes são do século XVII, então tem duas estátuas de escravagistas para queimar

A primeira é do cacique Tibiriçá, homem indígena que era grande aliado dos portugueses. Se converteu ao cristianismo e recebeu o nome de Martim Afonso, se tornando o principal fundador da cidade de SP (teve um papel ainda mais destacado do que José de Anchieta). Ele e sua esposa Potira tiveram diversos filhos, todos eles, assim como o pai, se tornaram homens e mulheres influentes, se casando com portugueses.

A leitura desses fatos por um lacradorzinho de pouca cultura que enxerga a história como "oprimidos índios e negros" vs "opressores brancos" é a de que "o índio Tibiriçá não sabia o seu lugar de classe e era apenas um capitão do mato a serviço da branquitude". Só que mal sabe ele que Tibiriçá era respeitado por todos na capitania de São Paulo, incluindo os brancos, que se submeteram a sua liderança. Os brancos se casaram com os filhos e filhas de Tibiriçá, e seus descendentes vieram a ser os futuros Bandeirantes.

Esses casamentos eram uma estratégia de índios e portugueses para manter as propriedades entre índios e os brancos paulistas, que conseguiam manter suas riquezas longe dos olhos da Coroa Portuguesa ao se valer dessas alianças matrimoniais em uma rica economia não monetária, contrariando a historiografía tradicional que se apegava a ideia d "pobreza de SP". "


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