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Quarta-Feira 10.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Quando a vaca vai para o brejo. Quando a Apollo 13 bolsonarista contorna a lua

Sobre o derretimento da popularidade do presidente e a reação de parlamentares

Postado em 23 de Julho de 2021 - Rafael Paredes

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Poucos meses depois de Jair Bolsonaro assumir a Presidência da República, a maioria de deputados e senadores já tinha total clareza do seu despreparo, inabilidade, autoritarismo, o quão era tosco, meio que envolvido com rachadinhas, incompetente, etc. Mas era difícil esculhambar alguém com uma popularidade resiliente.

Apesar de seus desacertos, de seu pouco conhecimento em várias áreas, o presidente mantinha uma aprovação intacta formada por um aparente fanatismo cego que se armava, se manifestava nas ruas com carrões e ameaçava golpes à democracia e às instituições. O presidente ia na mesma onda, incentivava e participava de manifestações de culto e adoração a ele mesmo e ameaçava os Poderes da República.

O presidente ainda andava com militares a tiracolo, afirmava que o Exército Brasileiro era dele e chutava a canela da imprensa. Veio a tragédia da pandemia do novo coronavírus. A gestão da maior crise sanitária dos últimos 100 anos deixou ainda mais evidentes as características negativas do presidente.

O negacionismo da doença, o desrespeito à ciência, a descrença na vacina, o comportamento errático, a disputa política na hora errada contribuíram para as centenas de milhares de mortes no país. O caldo da popularidade do presidente começava a entornar, como dizem os mineiros.

O filme Apollo 13, de 1995, retrata uma expedição à Lua em 1970, que não deu certo. Por causa de um acidente, os astronautas poderiam ficar sem oxigênio e energia durante a viagem. A equipe em Terra teve que buscar alguma forma de trazer os tripulantes de volta. A solução foi contornar a Lua. Em dado momento do filme, um dos tripulantes explica: “quando estivermos circundando a Lua, depois de um determinado ponto, não tem como voltar”. Ou seja, a vaca foi para o brejo.

Atualmente, na Câmara dos Deputados e no Senado, a percepção é que a popularidade do presidente da República está neste ponto de contorno da Lua, onde não tem mais volta. Ainda não está naquele ponto baixo para o impeachment, mas não volta mais a patamares anteriores.

Desta forma, aquele temor de esculhambar o presidente vem diminuído muito. Enquanto os xingamentos e ofensas eram exclusividade de parlamentares de esquerda, hoje ninguém tem mais medo de autoritarismo de goela, ameaças de mortes pelas redes sociais e de milícias digitais ou reais. A temporada de humilhação à principal autoridade do país foi aberta e não se sabe quando termina. É fácil chutar cachorro morto.


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