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Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Saúde

Quais são os riscos e as consequências das variantes do coronavírus?

Novas cepas do Sars-CoV-2 preocupam pelo potencial de aumentar a transmissão e a gravidade da Covid-19. Entenda de que modo elas podem mudar os rumos da pandemia e como evitar isso

Postado em 23 de Julho de 2021 - Marília Marasciulo e Luiza Monteiro – Galileu

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No fim de 2020, enquanto o mundo comemorava a aprovação de diferentes vacinas contra a Covid-19, uma nova ameaça começou a alarmar a comunidade científica: o surgimento de variantes do coronavírus Sars-CoV-2, causador da doença. Aos poucos, combinações esquisitas de letras e números passaram a dominar o noticiário — E484K, N501Y, P.1, B.1.1.7, B.1.617 são algumas das quais você provavelmente já tenha ouvido falar.

Mas, afinal, o que essas sequências significam? Quão preocupados devemos ficar com o aparecimento de variantes? Essas perguntas ainda não estão completamente respondidas, mas uma coisa é certa: era algo a se esperar. “Em outubro, a gente já imaginava que isso fosse acontecer, sabíamos que ele iria mudar, mas não da forma como está acontecendo”, diz a pesquisadora Paola Cristina Resende, do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

O Sars-CoV-2 tem cerca de 30 mil letras de RNA em seu genoma. É essa informação genética que o permite infectar nossas células e “sequestrá-las” para se replicar, produzindo novos vírus. Nesse processo, é comum que ocorram pequenos erros de cópia ao acaso, as chamadas mutações. Elas podem ou não alterar a forma como o vírus é construído. Se isso acontecer, tem-se uma variante. E, se um grupo de variantes de repente começar a se comportar de forma diferente que o vírus ancestral, com maior capacidade infecciosa, por exemplo, tem-se uma nova cepa. Em resumo: nem toda mutação representa uma variante e nem toda variante constitui uma nova cepa, mas toda cepa é uma variante.

Nada disso é proposital. Na verdade, é pura estratégia de sobrevivência. Se um vírus tiver uma modificação que facilite a entrada nas células, ela naturalmente se sobrepõe às outras, pois possibilita que mais vírus sejam capazes de causar infecção. “Estamos assistindo a um filme de sucessão de eventos ao acaso. O que tiver sucesso, vai ficar”, exemplifica o virologista Fernando Spilki, coordenador da rede Corona-Ômica BR MCTIC/Finep, que reúne laboratórios brasileiros para captar, sequenciar e analisar o genoma de amostras do Sars-CoV-2. O problema é que o mundo tem dado muita chance ao acaso. “Se você jogar um dado seis vezes, há chance de que o número 6 nem apareça. Se jogar 30 mil vezes, o número 6 vai aparecer muito”, ilustra o especialista.

Os primeiros sinais surgiram na Inglaterra, em dezembro. Depois de um verão de relaxamento das restrições, um aumento de casos fez o país adotar novas medidas de isolamento. Apesar disso, a taxa de infecções no condado de Kent continuou em alta. A análise genômica dos vírus de pessoas infectadas identificou uma mutação na proteína spike, considerada a chave para que o novo coronavírus consiga contaminar nossas células.

O nome da mutação, N501Y, é uma espécie de etiqueta para identificar o ponto exato da mudança. Nesse caso, houve a troca do aminoácido asparagina (N) para tirosina (Y) na posição 501 do genoma, e pesquisas indicaram que isso facilita a adesão do vírus às células. O grande número de infectados que carregavam microrganismo com a mutação confirmou a existência de uma variante, que recebeu o nome de B.1.1.7 (ou alfa, segundo a nova denominação da Organização Mundial da Saúde).

Em outras partes do mundo, mutações semelhantes ocorreram e começaram a ser identificadas sobretudo por causa de picos recorrentes de casos. No Brasil, Manaus viveu um janeiro trágico. A cidade, que em 2020 viu os sistemas de saúde e funerário entrarem em colapso por causa da pandemia, enterrou mais mortos pela doença nos primeiros 21 dias de 2021 do que em todo o ano passado: foram 1333 sepultamentos no período, contra 1285 em 2020.

A análise de amostras virais detectou que 42% dos casos foram provocados por vírus com mutações na proteína spike. Entre elas, a N501Y, mas não só: também foram identificadas as mutações K417T, que facilita a adesão do vírus às células, e a E484K, que pode ajudá-lo a escapar de anticorpos. A nova variante passou a ser chamada de P.1 (ou Gama).

Sob pressão

Embora cientistas questionem se vírus podem ou não ser considerados seres vivos, já que são acelulares, esses microrganismos estão sujeitos às mesmas pressões seletivas que todos os outros animais. “O vírus está cumprindo o papel dele e está evoluindo para sobreviver”, pontua a pesquisadora Ana Tereza Vasconcelos, chefe do Laboratório de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

É essa pressão seletiva que faz a maioria das mutações preocupantes ocorrerem na proteína spike. “Em geral, genes que codificam a superfície do vírus sofrem uma pressão seletiva maior por causa da interação com os nossos anticorpos”, explica Paola Rezende. Essas modificações podem servir tanto para facilitar a entrada do vírus na célula quanto para “enganar” nossas defesas. Quando uma pessoa é infectada, os anticorpos criam memória para, caso o invasor apareça de novo, poderem reagir melhor e mais rápido.

Por esse motivo, falar em número de recuperados ou apostar na disseminação descontrolada do vírus como tentativa de alcançar uma suposta imunidade coletiva pode ser perigoso: ao se deparar com os anticorpos de alguém que já tenha memória imunológica, os vírus que tenham tido alguma modificação que possa enganá-la irão sobreviver. Mesmo que não seja forte o suficiente para infectar a pessoa com anticorpos, o microrganismo mutante pode contaminar alguém que ainda não teve contato com a doença e se perpetuar — inclusive voltando em maior quantidade e força para infectar o vetor original.

Além do risco de reinfecção, as variantes também ameaçam testes de diagnóstico e de remédios sendo estudados para o tratamento da doença. E, acima de tudo, colocam em xeque as vacinas: se o vírus está ganhando a capacidade de enganar nosso sistema imune, será que os anticorpos induzidos por imunizantes serão capazes de vencê-lo? Em março, uma pesquisa da People’s Vaccine Alliance, feita com 77 epidemiologistas de 28 países, constatou que dois terços deles acreditam que as novas variantes podem tornar as vacinas ineficazes em um ano ou menos. Em um artigo publicado no site The Conversation no início de abril, membros da Comissão Covid-19 da Força Tarefa de Saúde Pública da revista científica The Lancet consideraram que o surgimento de novas linhagens “mudou o jogo” da pandemia e “ninguém está realmente seguro até que todos estejam seguros”.

Na visão de Spilki, o fato de estarmos observando a convergência de mutações, ou seja, cepas diferentes apresentando modificações parecidas ou idênticas, pode ser um sinal de que estamos perdendo essa batalha. “Elas mostram que o vírus tem tido vantagens para se disseminar”, explica. “Se não tivesse mais ninguém suscetível, a variante não iria para frente.” Nesse cenário, a vacinação lenta — como é o caso do Brasil — pode ser mais um tiro no pé e, assim, favorecer o Sars-CoV-2, por criar uma falsa sensação de segurança na população. “Temos visto que a proteção clínica das vacinas se mantém, mas elas neutralizam pouco ou menos as novas variantes, então do ponto de vista populacional é arriscado”, observa o especialista do Corona-Ômica BR MCTIC/Finep.

Efeito caldeirão

Ainda é cedo para determinar se as variantes de fato são mais letais e o quanto ameaçam o efeito da imunização. Até porque existem outros fatores que podem influenciar tudo isso. “No contexto da saúde pública, a variante é só mais um elemento. Não dá para apoiar toda falha, inação ou ação atrasada em uma visão fatalista de que não se podia fazer nada porque o vírus se tornou mais letal ou transmissível”, destaca Spilki. “Tanto para a variante quanto para o vírus original que saiu lá de Wuhan, as medidas de prevenção e controle não são muito diferentes.”

Para o virologista, a estratégia brasileira de combate à pandemia, que adota restrições com base na ocupação de hospitais em vez de monitorar o número de casos, é perigosa — quanto mais o vírus circular livremente, mais espaço ele tem para evoluir. O sentimento de calmaria pós-surto é mais um ingrediente arriscado. “Nós entramos num processo de estabilização em um patamar muito alto, um comportamento de ‘não está controlado, mas parece que a coisa acalmou’ para flexibilizar as restrições”, alerta Spilki. E aí é justamente onde mora o perigo, especialmente num cenário como o brasileiro. “Quem não vacina o suficiente não pode fazer isso, porque gera o efeito caldeirão. Na hora do arrefecimento, precisamos de políticas mais fortes de controle para evitar novos surtos”, conclui o especialista.

Ele não é o único a advertir sobre o “efeito caldeirão”. Desde o início do ano, diversos cientistas têm chamado a atenção para o fato de que, sem nenhuma medida para diminuir o contágio, o país pode se tornar uma verdadeira máquina de novas variantes e arriscar uma terceira onda ainda mais grave. “A única explicação para a disseminação de tantas variantes é que a circulação viral está alta”, defende a cientista da Fiocruz. Em países nos quais o vírus está circulando em baixa proporção, novas cepas também podem surgir, mas provavelmente não vão se espalhar com tanta rapidez. “O vírus é facilmente controlado, nenhuma variante vai passar a barreira da máscara, do álcool e do distanciamento”, destaca Resende.

Sinais de alerta

Além das já conhecidas medidas de prevenção e contenção, que seguem pouco ou mal implementadas, é fundamental manter uma vigilância genômica do vírus para acompanhar sua evolução. Até o dia 8 de julho, 2.182.116 genomas do Sars-Cov2 foram acrescentados ao GISAID, banco de dados global em que cientistas do mundo todo compartilham informações genéticas do coronavírus. Desse total, 22.18 genomas foram adicionados pelo Brasil. O número é proporcionalmente baixo em relação ao total de casos reportados no país desde janeiro de 2020: nas contas do repositório, somente 0,12% dos diagnósticos por aqui têm o genoma sequenciado.

E, mesmo entre os países que mais sequenciam, a média é considerada baixa — os 607.497 genomas sequenciados pelos Estados Unidos correspondem a somente 1,82% dos casos confirmados desde o início do ano passado. O Reino Unido, conhecido por manter uma vigilância ativa, sequenciou 533.164 das confirmações de Covid-19, ou 10,7%.

Mas o cenário brasileiro promete melhorar nesse sentido. Em junho, a rede de laboratórios Dasa deu início ao projeto Genov de vigilância genômica. Idealizado pelo virologista José Eduardo Levi, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da Dasa, o programa pretende acompanhar a evolução do Sars-CoV-2 no país em tempo real: serão sequenciados 3 mil genomas completos por mês, tendo como meta um total de 30 mil amostras em até 12 meses. O trabalho almeja aumentar em seis vezes o número de sequenciamentos do coronavírus, formando o maior banco brasileiro de genomas do agente infeccioso.

Contudo, embora a vigilância possa ajudar a prever o surgimento de variantes, ela deve ser encarada como uma das ferramentas nas quais basear decisões — e não a única. “É uma medida de precaução e pode dar orientação sobre atitudes que teriam que ser tomadas”, diz Ana Tereza Vasconcelos. Exemplos dessas atitudes são reforçar a testagem para identificar casos ou barrar a circulação de pessoas nas áreas com variantes.

O ideal, porém, é perceber os primeiros sinais de que algo pode ter mudado: explosão de casos, mudança no perfil daqueles que evoluem para quadros graves (como pacientes mais jovens) e no padrão da doença. Se as novas variantes vão ser mais graves ou não, só o futuro dirá. E, pelo visto, vamos pagar pra ver.


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