Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

O cansaço é de todos nós

Há uma síndrome de sobrevivente em todos nós. Porque nem chorar mais conseguimos

Postado em 22 de Julho de 2021 - Theresa Hilcar

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Dia desses vi o filho do meu amigo. Amigo -  e colega de profissão - que morreu vítima da Covid 19. Um dos muitos que o vírus levou. Vi o Álvaro num sábado ensolarado, na praça do Rádio, onde ele fazia cobertura jornalística com a máquina fotográfica a tiracolo.

Olhei para ele e disse: não consigo acreditar que seu pai se foi. E ele: nem eu. Ninguém em casa consegue aceitar, emendou. Valdenir, o pai, morreu depois de quase 3 semanas intubado.  Nós os colegas ficamos aqui fora torcendo e rezando. Mas infelizmente, contra toda a nossa torcida e certeza, ele não resistiu. A notícia pegou todos de surpresa. Um baque. 

Valdenir era repórter fotográfico. Um dos profissionais mais talentosos e discretos com quem já trabalhei. E foram muitos anos juntos no Correio do Estado. O filho seguiu o mesmo ofício. Era bonito ver os dois trabalhando juntos.

Olhando o Álvaro agora, tão lindo que dói, tentando seguir a vida e a mesma profissão do seu pai, me dei conta que existe uma síndrome de sobrevivente em todos nós. Porque nem chorar mais conseguimos. Encontrar o Álvaro neste acaso, que talvez não tenha sido coincidência, me deu oportunidade de reviver a perda, não apenas do seu pai, mas de todos os meus amigos que partiram. 

Então me dou conta de que estou sobrevivendo sem eles. Como assim? Como pode a vida continuar a mesma sem os meus amigos queridos? Como os dias continuam nascendo, o sol se pondo, a chuva caindo, a comida no prato, aquele sorriso aberto, o jazz de Coltrane, tudo continua. A vida segue. Diferente e mais triste. 

Lembro então do verso de um poema do Manoel que traduz meu estado de espírito: “Ando muito completo de vazios/Meu órgão de morrer me predomina/Estou sem eternidades/Não posso mais saber quando amanheço ontem/Está rengo de mim o amanhecer...”

Meu anoitecer também está coxo, poeta. E ainda bem que você não está aqui pra sentir essa angústia. Perder amigos por idade já é difícil. Mas perder amigos por descaso é ainda pior. Não tem choro que dê conta. Nem palavras. Elas, infelizmente, não me escondem deste incomodo que é viver com dó de estar vivo.

A bem da verdade, devo confessar que o mundo anda chato que só. Ele se apequenou. E de alguma forma nós também nos acomodamos. Convivemos todos os dias, além das perdas amargas e evitáveis, com detritos de linguajar coroado. Estamos nos intoxicando socialmente e, inertes, a maioria impotente, assiste ao circo sem pão. Brioches são servidos em bandejas de latão para uma minoria ruidosa e faminta.

Impossível falar de perdas e não mencionar os descalabros que se revelaram na Pandemia ainda em curso. Em conversas miúdas ouço histórias que me arrepiam. Como a do rapaz que se infectou e não contou nada a ninguém no trabalho; nem para a moça que trabalha bem ao lado e com quem divide o lanche que ela traz de casa todos os dias. E por conta disto ela perdeu a avó, dois irmãos e um tio.

Não os chamo mais de desavisados. Não vou passar pano para quem adoeceu e ficou calado. E continuou saindo de casa porque não sentia nada, espalhando perdigotos pelo caminho. No ônibus ou na balada. Tanto faz.

Ah! Eles não sabiam que a transmissão era tão fácil? Achavam que só beijando na boca para se contaminar? E por pensar assim, ignoraram solenemente todos os avisos. Quantos não riram das pessoas que logo no início começaram a usar máscaras? Quantos não receitaram poções supostamente milagrosas e ridículas? Quantos não venderam imunidade, lucraram com nosso medo e a nossa vida. Todos são responsáveis por esta hecatombe, todos.

Outro dia na tela da TV, diante de inúmeras perguntas, todas pertinentes, é bom que se diga, ouvi a testemunha reclamar do cansaço aos questionamentos. No Twitter, a escritora e juíza, Andrea Pachá, sempre certeira, respondeu que exaustos estamos todos nós. “Exausta de mentiras, exausta de perder amigos, exausta de tristeza, exausta de confrontos, exausta de ódio, exausta de ignorância, exausta de arrogância. Exausta”, escreveu.

Cada família que chora seus entes queridos, cada perda, e todas as dores deste tempo  estão debitadas na conta do descaso. É ele, o descaso, quem anima a torcida e o vírus. Que ainda continua se disseminando e matando, não obstante o glorioso avanço das vacinas. São essas coisas, Poeta, que como você bem disse “me mudam para cisco”.


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