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Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Cultura e Entretenimento

O grande Circo-Teatro Guarany: filme conta a história do Circo dos Pretos

Filha e neta da primeira palhaça negra do Brasil viajam pela trajetória do circo e revivem com arte a resistência da família e do povo preto

Postado em 21 de Julho de 2021 - Redação Semana On

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Até 2 de agosto, o Centro de Memória do Circo exibe gratuitamente a série documental Guarany, Histórias do Circo dos Pretos. A obra conta em quatro capítulos a trajetória do grande Circo-Teatro Guarany, em São Paulo, de 1948 a 1958. E desse modo resgata personagens ímpares da história das artes circenses do país, como João Alves da Silva, homem negro e que, logo depois da abolição, se tornou o proprietário do Circo Guarany, consagrado no período de análise do documentário pela sua filha Maria Eliza Alves dos Reis, reconhecida como a primeira palhaça negra do Brasil. 

O documentário fez sua estreia no último dia 16, com versão completa transmitida pelos perfis no Facebook e no YouTube do espaço público e cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. A versão na íntegra do longa será novamente exibida nas próximas três sextas-feiras: no próximos dias 23 e 30, às 18h, e em 2 de agosto, às 11h. Às segundas e quartas, o Centro de Memória do Circo divulga a obra em quatro episódios (a programação completa você pode conferir mais abaixo). 

O longa é resultado de mais de 10 anos de pesquisa da cineasta e palhaça Mariana Gabriel, com seus pais, os jornalistas Daise Gabriel e Roberto Salim Gabriel. Ao longo desse período, Mariana debruça sobre a presença do circo na família materna, que começou com seu bisavô, João Alves, e passou para sua avó, Maria Eliza. Em 2016, ela dirigiu ao lado de Ana Minehira o filme Minha Avó era Palhaço!, que resgatava a história do palhaço homem do início da década de 40, o Xamego. O personagem ganhou vida com a interpretação de Maria Eliza e era uma grande atração do Circo Guarany. 

Dando continuidade a essa história, a cineasta foi ainda mais fundo em seu passado para criar a nova série. Dessa vez, para trazer como protagonista sua mãe, Daise Gabriel, que também atuou na produção e roteiro do Guarany, Histórias do Circo dos Pretos. A intenção do longa é trilhar o reencontro de Daise com o Palhaço Xamego. O material histórico do primeiro filme da família sobre a busca de Mariana pela história de sua avó, dá lugar agora às memórias de infância da filha de Maria Eliza. Como resultado, a obra expõe uma outra face do grande circo-teatro em uma São Paulo de beleza discreta e de antiga arquitetura. 

Em entrevista a Marilu Cabañas, do Jornal Brasil Atual, a cineasta e a jornalista explicaram um pouco dessa busca histórica do documentário. 

Pazes com o passado

 “O Guarany eu vejo muito como um percurso da minha mãe, que ao longo desse tempo de pesquisa veio ressignificando as memórias dela do circo. Diferente da minha avó, que sempre me contou a história do circo do meu bisavô com muito orgulho e encantamento – porque ela viveu uma era áurea do Circo-Teatro Guarany, o circo de nossa família –, minha mãe viveu uma época de decadência do circo. Então, ela falava muito pouco e o próprio palhaço Xamego minha mãe não gostava. Isso porque, como ela dizia, o Xamego tirava a mãe dela, que o Xamego era uma outra pessoa”, comentou Mariana.

Aos poucos, contudo, a partir do diálogo entre mãe e filha que conduz o filme, Daise foi de alguma forma fazendo as pazes com o palhaço. Com imagens de arquivo sobre as praças históricas e a reconstrução de cenas de sua infância, com a participação da pequena Serena Odara, que interpreta Daise ainda criança, a filha de Maria Eliza fez do trabalho algo existencial inclusive para enfrentar as dores impostas pela pandemia de covid-19. 

A realidade lúdica e mágica do circo só não conseguiu atenuar as lembranças de dificuldades de sua infância, sobretudo pelas memórias do racismo. 

A resistência do povo negro

“O circo do meu avô era o Brasil inteiro que ele se deslocava. Meu avô voltou para a cidade onde ele nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais, como dono de circo já. Assim, ele nasceu lá como filho de uma mulher negra escravizada. Então, é uma história impactante e a gente tentou imaginar como foi esse caminho e essa realização dele como proprietário. Até refletindo sobre isso, chegamos a um momento que percebemos que minha mãe sempre usou na lapela (microfone) uma flor. E a gente tinha um certo ‘por que será?’, e nós descobrimos o porquê. Aquela é uma flor da campanha abolicionista, a Camélia”, descreve Daise. 

“Isso mostra que por trás de tudo isso havia essa resistência, essa luta. Outro detalhe que descobrimos é que  meu avô, o negro João, fazia um palhaço sem pintura, com a cara preta. Foram coisas muito fortes, bonitas e coerentes com todo aquele contexto. E que vemos como hoje esses problemas vão e voltam e nunca se resolvem”, acrescenta. 

A cineasta e neta de Maria Eliza conclui que a obra, embora parta de uma busca íntima, revela o quanto o país ainda precisa saber para fortalecer a luta antirracista. “Tenho muito orgulho dessa história. E tem ainda essa questão do paralelo porque a gente fica trazendo para hoje. Acho que com tudo o que estamos vivendo, um momento muito duro, triste, de luta pela questão racial, temos falado mais sobre essas questões e temos pessoas pretas nas telas”, destaca Mariana Gabriel. 

Mais informações estão disponíveis páginas do Facebooke do Instagram do Centro de Memória do Circo.


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