Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Entrevista

30% dos trabalhadores brasileiros vivem com renda mensal de R$ 275

Segundo os pesquisadores Marcelo Ribeiro e André Salata, 4,3 milhões de pessoas estão vivendo com menos de ¼ do salário mínimo nas metrópoles brasileiras

Postado em 19 de Julho de 2021 - João Vitor Santos – IHU

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Segundo pesquisa publicada recentemente no último Boletim Desigualdade nas Metrópoles, cerca de 30% dos brasileiros que vivem nas metrópoles estão vivendo em domicílios com renda per capita do trabalho inferior a ¼ do salário mínimo. “Isso significa que grande parte da população está com condições e um nível de vida muito precários” e que a falta de renda impacta diretamente a vida das famílias, diz Marcelo Ribeiro, um dos autores do estudo. “Os efeitos que essa situação gera na vida das pessoas são de diferentes aspectos: a capacidade de aprendizagem das crianças fica limitada por não terem uma alimentação adequada na medida em que a renda não é suficiente para poder garantir a subsistência das famílias; os trabalhadores não conseguem ter um nível de saúde adequado; os idosos ficam limitados na capacidade de realizarem uma boa fase de vida na velhice”, exemplifica.

De acordo com André Salata, também autor da pesquisa, o estudo “expressa de modo objetivo algo que qualquer morador das grandes cidades do Brasil percebeu ao longo dos últimos anos. Basta andarmos pelas nossas cidades para enxergar mais pedintes, pessoas em situações de vulnerabilidade, desempregados, vendedores ambulantes nos sinais. É realmente impactante como essa realidade está muito mais presente depois de um ano de pandemia”, ressalta.

Na entrevista a seguir, que ambos concederam por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Salata pontua a insuficiência do mercado de trabalho na garantia de uma renda adequada a muitos trabalhadores, apesar do anunciado crescimento do PIB. “Para as famílias mais pobres, que estão sendo as mais impactadas, isso está sendo percebido pela insuficiência dos rendimentos do mercado de trabalho. O que o mercado de trabalho entregava a essas famílias, não está mais conseguindo entregar. (...) Estamos falando de ¼ do salário mínimo, ou seja, R$ 275 per capita. Se pensarmos que nas metrópoles esse percentual chegou a 30%, esse número é preocupante e significa que tem um percentual muito grande de famílias vivendo com uma renda muito baixa”, afirma. Ele destaca ainda que “em termos de renda domiciliar per capita do trabalho, voltamos aos níveis de 2012 em função da crise econômica provocada pela pandemia”.

Marcelo Ribeiro é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-Goiás, mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás - UFG e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. É professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - IPPUR da UFRJ e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Observatório das Metrópoles - INCT-OM.

André Salata é graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, mestre e doutor em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Atualmente, leciona no curso de Sociologia do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.

 

Segundo pesquisa presente no último Boletim Desigualdade nas Metrópoles, cerca de 30% das pessoas estão vivendo em domicílios com renda per capita do trabalho inferior a ¼ do salário mínimo. Como podemos mensurar o impacto desse dado no cotidiano das famílias?

Marcelo Ribeiro – O que estamos observando é que há uma grande quantidade de pessoas com um nível de renda muito baixo, o qual advém do rendimento do trabalho, que é o principal tipo de remuneração dos domicílios. Isso significa que grande parte da população está com condições e um nível de vida muito precários. Os efeitos que essa situação gera na vida das pessoas são de diferentes aspectos: a capacidade de aprendizagem das crianças fica limitada por não terem uma alimentação adequada na medida em que a renda não é suficiente para poder garantir a subsistência das famílias; os trabalhadores não conseguem ter um nível de saúde adequado; os idosos ficam limitados na capacidade de realizarem uma boa fase de vida na velhice. As condições de vida são afetadas quando o nível de renda é muito baixo, como é o de um quarto da população brasileira: 30% da população tem um nível de renda de até ¼ do salário mínimo.

André Salata – Esse dado de que aumentou em 4,3 milhões, no conjunto das metrópoles, o número de pessoas vivendo com menos de ¼ do salário mínimo – restringido aqui à renda do trabalho –, expressa de modo objetivo algo que qualquer morador das grandes cidades do Brasil percebeu ao longo dos últimos anos. Basta andarmos pelas nossas cidades para enxergar mais pedintes, pessoas em situações de vulnerabilidade, desempregados, vendedores ambulantes nos sinais. É realmente impactante como essa realidade está muito mais presente depois de um ano de pandemia.

O que os dados indicam de modo objetivo é algo que os moradores das grandes cidades já haviam percebido no cotidiano. Para as famílias mais pobres, que estão sendo as mais impactadas, isso está sendo percebido pela insuficiência dos rendimentos do mercado de trabalho. O que o mercado de trabalho entregava a essas famílias, não está mais conseguindo entregar. Portanto, o potencial de consumo dessas famílias foi bastante prejudicado ao longo da pandemia, de modo que muitas delas caíram para estratos de renda muito baixos. Estamos falando de ¼ do salário mínimo, ou seja, R$ 275 per capita. Se pensarmos que nas metrópoles esse percentual chegou a 30%, esse número é preocupante e significa que tem um percentual muito grande de famílias vivendo com uma renda muito baixa. Por isso mesmo, a ação do Estado é fundamental para amenizar os efeitos da pandemia sobre a renda do trabalho.

A pesquisa também aponta que regredimos ao patamar de 2012 e que a desigualdade atingiu o nível mais alto já registrado na série histórica. O que representa esse retrocesso e qual deve ser o custo econômico e social para revertermos essa ‘marcha a ré’ no combate às desigualdades?

Marcelo Ribeiro – De fato houve um aumento das desigualdades de forma muito expressiva durante a pandemia, mas já estávamos numa situação de crescimento das desigualdades. O que a pandemia fez foi acelerar a desigualdade de renda existente, mas numa trajetória de elevação que já se apresentava desde 2015, quando começamos a assistir no país uma crise econômica, social e política que desconfigurou uma trajetória de redução das desigualdades em curso desde o início do século XXI. Essa redução das desigualdades se apresentou principalmente até o ano de 2014 e tinha relação com o fato de as pessoas terem elevado seu nível de renda por uma política de valorização do salário mínimo, pela dinâmica da economia, que aumentou as contratações no emprego formal. O que estamos vendo é uma reversão deste processo, que tem se dado principalmente em relação à questão econômica e isso impacta diretamente a vida das pessoas. Estamos num momento bastante grave e isso tem a ver com as escolhas, enquanto sociedade, que temos feito e que têm agravado esse quadro. A reversão desse processo também requer uma mudança das escolhas políticas que precisamos fazer a partir de agora.

André Salata – Sim, em termos de renda domiciliar per capita do trabalho, voltamos aos níveis de 2012 em função da crise econômica provocada pela pandemia. Agora, como essa crise afetou os mais pobres de modo mais contundente, junto com essa piora da renda, temos também uma piora da distribuição da renda. E mais do que isso: a piora da desigualdade já vinha se desenhando desde 2015, quando começamos a enfrentar uma piora da crise econômica no Brasil. Então, desde 2015 há uma tendência de crescimento das desigualdades.

Com a emergência da pandemia, no segundo trimestre de 2020, demos um salto na desigualdade, ou seja, saltamos de um patamar que já era elevado e, desde então, nos mantivemos num patamar extremamente elevado, de modo que não encontramos nada próximo disso em toda a série histórica, chegando a um novo patamar de desigualdade com a crise provocada pela pandemia.

Nesse sentido há um retrocesso, mas que já vinha sendo construído; não podemos pensar somente de 2020 para cá. Esse retrocesso vinha sendo construído há alguns anos, fruto de uma crise econômica, sim, mas fruto de decisões que fomos tomando enquanto país desde 2015. Isso representa um retrocesso porque no ciclo político anterior o que enxergávamos era exatamente o movimento oposto: um movimento não só de crescimento econômico, ou seja, de melhora da média da renda, mas também de uma melhor distribuição dos nossos recursos. E a pandemia veio intensificar esse retrocesso. A pandemia vai passar mas, mesmo se retornarmos ao nível de desigualdade pré-pandemia, ainda vamos estar muito acima daquilo que conseguimos chegar anos atrás.

Esses últimos dados e análises revelam a degradação das formas de vida nas grandes cidades, especialmente associado aos efeitos da pandemia. Mas, ainda no Brasil pré-pandêmico, vivíamos desmontes de mecanismos de proteção social. Em que medida podemos compreender esses retrocessos e degradações de hoje para além dos efeitos da pandemia?

Marcelo Ribeiro – De fato, a pandemia só agravou a situação das condições de proteção social que tinham sido implementadas desde a Constituição de 88. Nos últimos anos, a reforma trabalhista e a flexibilização das relações de trabalho se traduziram em menor proteção social. Para os trabalhadores, isso significa uma reversão do quadro de proteção social que a duras penas se estava tentando construir no país desde a Constituição de 88, a qual apregoa um conjunto de direitos sociais básicos que o Estado precisa assegurar para a população. As reformas trabalhista e da previdência e outros mecanismos têm dificultado que as pessoas possam garantir as suas condições de vida, de sobrevivência, de reprodução social de forma digna e adequada. Então, esse é um quadro que já se apresentava desde antes da pandemia e ela só veio acelerar esse processo no que diz respeito aos efeitos que essa situação provoca na vida das pessoas. Mais uma vez: as opções políticas que estamos fazendo estão diretamente relacionadas a essas escolhas de políticas econômicas e sociais que estão sendo adotadas no país.

André Salata – Como eu disse, em 2015 tivemos um momento de inflexão: um novo ciclo político e econômico se instaura no Brasil e isso tem um reflexo imediato no que se refere às tendências de desigualdade. Vínhamos num cenário de queda das desigualdades que, em 2015, voltaram a aumentar, fruto de uma crise econômica, mas também de algumas decisões que fomos tomando do ponto de vista político.

O aumento e a redução das desigualdades são frutos de uma série de decisões e medidas. Tem um elemento que chama muito a atenção e que é emblemático desta inflexão: se analisarmos o documento que serviu como anúncio do governo Michel Temer – que inaugurou um novo ciclo político no Brasil –, veremos que não há menção às desigualdades. Não encontramos a palavra “desigualdade” no panfleto “Ponte para o Futuro”. Isso representa bem esta mudança: saímos de um ciclo político liderado pelo PT, em que o combate às injustiças e às desigualdades era um norte do governo, apesar de todas as limitações, e entramos num outro ciclo político em que o combate às desigualdades deixa de ser mencionado e não é mais algo relevante.

No bojo disso há uma série de decisões que vão sendo tomadas. Por exemplo, a ideia do Estado como indutor do crescimento econômico e a adoção de políticas de criação de emprego foram se esvaindo. A política de valorização do salário mínimo, que foi fundamental para a redução das desigualdades no período do PT, foi se perdendo também. A reforma trabalhista flexibilizou o trabalho e, portanto, dificulta o acesso a direitos trabalhistas de uma porção grande da população brasileira. Foram várias as decisões que fomos tomando desde então que comprometem o combate às desigualdades. Há restrições que são colocadas por um contexto internacional de crise, mas há decisões que, desde 2015, tomamos e que fizeram com que o combate às desigualdades fosse prejudicado e, desde então, vemos as desigualdades sendo reforçadas e jogadas para um outro patamar com a pandemia.

Em situações como essas, as famílias com menor rendimento são mais impactadas. Mas como o endividamento e o aumento do custo de vida para a população em geral nas grandes cidades acabam também contribuindo para a degradação dos modos de vida urbanos?

Marcelo Ribeiro – Grande parte da população brasileira hoje, diferentemente do que acontecia há cem anos, vive em grandes cidades. Viver em grandes cidades requer que a capacidade de reprodução social e de garantia da sobrevivência das pessoas sejam feitas por meio de um mecanismo monetário, no sentido de que ter acesso à renda é fundamental para que as pessoas tenham condições de garantir os bens e serviços necessários para a sua sobrevivência. É diferente de quando éramos um país rural, em que a capacidade de sobrevivência poderia ser feita a partir da produção para o autoconsumo, que é muito própria da forma de vida no meio rural. Na cidade, a renda é fundamental. Então, na medida em que a maior parte das pessoas vive nas cidades e nas grandes cidades, ter acesso à renda é fundamental para a reprodução social. Se as pessoas não têm acesso à renda, a capacidade de sobreviver e a garantia das condições de vida ficam comprometidas.

André Salata – Além de todos os efeitos da pandemia no mercado de trabalho, também estamos passando por um período de inflação em itens de consumo que são básicos e que compõem em grande medida a cesta de alimentos da população mais pobre. Esses dois fatores confluem na mesma direção de reduzir o poder de compra das camadas mais baixas e contribuem para a degradação do modo de vida e do poder de consumo dessa população.

Em meio a dados como esses que temos visto no Boletim Desigualdade nas Metrópoles, vemos notícias sobre crescimento das vendas no comércio, serviços e o próprio governo federal brada um PIB de 1,2%. Como vocês compreendem e interpretam essa aparente contradição?

Marcelo Ribeiro – A taxa de crescimento do PIB precisa ser compreendida: esse 1,25% que você menciona diz respeito a um crescimento em relação ao ano anterior, ou seja, o crescimento do ano passado em relação ao ano de 2019. Isso significa que é preciso saber quais foram as condições de produção do ano de 2019 – e sabemos que aquele ano não teve uma produção tão elevada. O país já estava com um nível de produção muito baixo desde de 2015. Inclusive, em 2015 e 2016, tivemos taxas negativas de crescimento econômico. Então, toda a recuperação e taxas positivas que passamos a ter a partir de 2017 não foram suficientes para reverter o nível de produção econômica do país.

O nível que temos hoje ainda é inferior ao que tínhamos em 2013. Ou seja, apesar da taxa positiva de crescimento, ela não é suficiente para nos colocar no patamar de crescimento de produção que havíamos experimentado até 2013. Assim, as condições econômicas só pioraram e não conseguimos recuperar o nível de produção e de bem-estar social que estava se produzindo no final da primeira década do século XXI. Quem sofre as consequências disso é a população, especialmente a população mais pobre.

André Salata – O PIB é composto por diversos componentes, como consumo das famílias, consumo do governo, investimentos, exportações, importações. Alguns desses itens estão mais conectados com a dinâmica do mercado de trabalho e outros nem tanto. O que parece estar acontecendo nos últimos meses é que se tem uma elevação do mercado, da demanda global por commodities, e isso vem estimulando as exportações no Brasil. Mas essa situação não necessariamente, ou de forma imediata, vai impactar o consumo das famílias mais pobres nem a redução mais ampla do desemprego. Pode ser que isso venha a ocorrer daqui a alguns meses, mas esse efeito não é imediato. Então, estamos observando exatamente isto: os componentes imediatos responsáveis pelo crescimento do PIB não são aqueles que estão mais conectados com a dinâmica do mercado de trabalho. Portanto, nem sempre podemos tomar uma coisa pela outra, ou seja, crescimento do PIB e melhora imediata dos indicadores no mercado de trabalho.

A pandemia também colapsou muitos sistemas que já não iam bem nas grandes cidades. Um deles é o do transporte coletivo público. Porto Alegre, por exemplo, vive um dilema em idas e vindas com projetos que revisam os sistemas de transportes. Que outros sistemas em colapso vocês apreendem nas grandes cidades? E por onde passam saídas para, como no caso do transporte, não tornar o sistema ainda mais oneroso para as famílias?

Marcelo Ribeiro – De fato, o transporte público é um sistema de mobilidade que entrou em colapso neste processo e isso contribuiu para agravar a situação da pandemia, porque as pessoas não foram assistidas de modo adequado para poderem ficar em casa e evitar aglomerações. O sistema precisa ser pensado dentro de um conjunto de medidas que o Estado deve realizar para assegurar as condições de vida das pessoas. Como essas condições não estão sendo pensadas de forma integrada e articulada, observamos esse colapso naquilo que é mais imediato, que é a questão do transporte público. Mas também observamos isso nas questões de saneamento e habitação da população. Essas são situações que agravam a condição de vida e a permanência das pessoas em casa, exatamente pela precariedade das habitações e pela falta de um saneamento adequado. Esses são aspectos que têm relação direta com a saúde da população.

O Boletim ainda aponta que no estrato dos 40% mais pobres o rendimento médio do trabalho caiu 33,4% no conjunto das metrópoles, entre o 1º trimestre de 2020 e o 1º trimestre de 2021. Para os 50% de renda intermediária, a queda foi de 7,6%. Nesse contexto, como o Estado poderia intervir para frear essa degradação da renda? Seria o momento de pensarmos numa renda mínima universal, para além do Auxílio Emergencial?

Marcelo Ribeiro – Precisamos considerar o momento que estamos vivendo, buscar soluções para ele, mas também pensar soluções de médio e longo prazo, ou seja, para um período pós-pandêmico. Para este momento mais imediato, a política de auxílio de transferência de renda é fundamental na medida em que a parcela da população com o menor nível de remuneração foi a que mais perdeu. Então, uma política de transferência de renda é fundamental para esse momento de curto prazo.

Numa perspectiva de médio e longo prazo, é preciso pensar a recuperação da economia e como, por meio dos próprios mecanismos econômicos, é possível assegurar que as pessoas passem a ter acesso à renda por meio do trabalho. Para isso, é necessária uma dinamização da economia, para que trabalhos e empregos sejam gerados e isso permita às pessoas terem acesso à renda. Evidentemente, o Estado é um agente indutor deste processo, principalmente por meio de gastos públicos: na medida em que o Estado eleva os gastos públicos, ele aumenta a demanda agregada e estimula toda a economia, fazendo com que os agentes econômicos sejam capazes de investimento e, com isso, podemos entrar num ciclo dinâmico de crescimento econômico. No médio prazo, diria que a ação do Estado é fundamental.

No longo prazo, precisamos pensar em melhorar as condições de trabalho, a qualidade do trabalho e da remuneração da população de modo geral pela valorização do salário mínimo. Também é preciso melhorar a qualificação do trabalho, com investimento em ciência e tecnologia, para gerar empregos com níveis de remuneração mais elevados. Ou seja, trata-se de pensar num projeto de sociedade. Essas questões são fundamentais para que possamos superar esse quadro de desigualdades que estamos vivenciando.

André Salata – O que acontece é que todos perdem, mas quem está na base da pirâmide perde mais. Isso acontece nas metrópoles de modo geral, com maior ou menor intensidade, mas este é o resultado geral que enxergamos e é o que explica o aumento da desigualdade. Primeiro, temos de entender por que isso acontece. Acontece porque quem está embaixo [na pirâmide], está numa situação de maior vulnerabilidade: são pessoas com menos escolaridade e, portanto, mais facilmente descartadas do mercado de trabalho; estão concentradas no setor informal, sem proteção alguma; e estão em setores nos quais não conseguem trabalhar de modo remoto.

O que o Estado pode fazer para combater as desigualdades? A desigualdade é multicausal e não existe uma bala de prata para combatê-la. Existe um conjunto de medidas que podem amenizá-la e reduzi-la para níveis civilizados, muito abaixo daqueles que encontramos nas metrópoles. No curto prazo, programas de transferência de renda são fundamentais.

Se pegarmos os dados do que aconteceu no segundo semestre do ano passado, veremos que o Auxílio Emergencial não só compensou a perda de renda do trabalho como fez crescer a renda dos mais pobres. Mas ele é um programa extremamente oneroso: custa R$ 50 bilhões por mês. O Bolsa Família custa R$ 30 bilhões por ano. No entanto o Auxílio Emergencial cumpriu e continua cumprindo um papel fundamental.

O segundo ponto são as medidas de médio prazo, por exemplo, neste contexto em que a iniciativa privada possivelmente vai fazer poucos investimentos, dadas as incertezas. É fundamental que o Estado adote medidas para induzir o crescimento econômico e a atividade no mercado de trabalho, reduzir o desemprego e adotar programas de criação de emprego e de investimentos de infraestrutura etc. Isso é fundamental para que as pessoas mais pobres recuperem um pouco da renda advinda do mercado de trabalho.

No longo prazo há uma série de medidas e políticas que poderiam ser adotadas: o aumento da escolaridade da população é fundamental; a reforma tributária é importante, taxando mais a renda; e também a criação de oportunidades que gerem maior renda e empregos formais para as pessoas que estão na base da pirâmide. Não vai ser uma medida apenas que fará as desigualdades reduzirem a um nível mais civilizado; é um conjunto de decisões que precisamos tomar nesse sentido.

Em mais uma das faces da desigualdade, o Boletim revela que no 1º trimestre de 2020 os 10% do topo da distribuição de renda ganhavam, em média, 29,6 vezes mais do que os 40% da base da distribuição de renda. No 1º trimestre de 2021, esses mesmos 10% passaram a ganhar, em média, 42,3 vezes mais do que os 40% da base. O que causa essas distorções e como corrigi-las?

Marcelo Ribeiro – Essa situação tem a ver com a estrutura de emprego que existe na nossa economia: ao mesmo tempo que temos empregos com alto nível de remuneração, temos uma grande quantidade de empregos que são de baixo nível de remuneração. A maior parte da população está nesse nível de remuneração baixo e isso faz com que a distância entre os que ganham mais e os que ganham menos seja muito grande.

Aqueles que tinham menor nível de remuneração foram os mais afetados pelo fato de terem vínculos de trabalho mais precários e frágeis. Por isso, muitos perderam suas ocupações e, uma vez que a taxa de desocupação aumentou, isso levou a um aumento da perda de renda. A renda dos que estão na base da pirâmide social se tornou menor e isso fez com que as distâncias se ampliassem ainda mais. Além disso, os que ganhavam e ganham mais estão em empregos que tiveram maior capacidade de se manter durante a pandemia, até porque os vínculos de trabalho são mais efetivos e isso garante maior capacidade de proteção social para essas ocupações.

Pelo que tem se visto da atual conjuntura, especialmente das medidas que têm vindo do Ministério da Economia, como projetam o Brasil no médio e longo prazos?

Marcelo Ribeiro – O que estamos vendo na economia, principalmente pelas medidas do ministro Paulo Guedes, é que elas têm como única preocupação assegurar formas de remuneração do capital financeiro. Nem com o capital produtivo propriamente dito o nosso ministro da Economia tem preocupação, tampouco com a população, particularmente com a mais pobre. O próprio Auxílio Emergencial adotado pelo governo no ano passado foi uma imposição do Congresso Nacional. Se o Congresso não tivesse sido um agente ativo neste processo, não haveria o auxílio. Inclusive, o governo viu que isso se traduziu em maior aprovação para ele à época e, a partir disso, decidiu prorrogar o benefício com um valor inferior. Este governo e este Ministério da Economia não têm a preocupação de fazer com que a economia se coloque em favor das pessoas. As reformas administrativa, tributária e previdenciária, a qual foi aprovada em 2019, e todas as medidas que estão sendo adotadas são iniciativas que só tendem a favorecer o capital financeiro. Essa é a cara deste governo.

O próximo ano é de eleições. Que dicas vocês dariam para eleitores que estão preocupados com esses dados e a realidade concreta de desigualdades e buscam propostas de candidatos para frear e até reverter essa degradação dos modos de vida na cidade grande?

Marcelo Ribeiro – De fato, o ano de 2022 é significativo para debater a sociedade brasileira, tendo em vista que são eleições nacionais e teremos a oportunidade de escolher um novo presidente. Esperamos que seja um presidente que se preocupe com as pessoas, principalmente com aquelas que foram mais afetadas pela degradação dos últimos tempos, agravada pela pandemia. Espero que o debate público que ocorrerá nesse processo contribua para pensarmos o projeto de sociedade em curso, em que tipo de sociedade queremos viver e em que sociedade gostaríamos que as próximas gerações vivessem. Nesse sentido, tão importante quanto o debate em torno das candidaturas presidenciais, é se atentar também para as candidaturas de representação do Congresso Nacional, porque o Legislativo tem um papel fundamental no modo como as escolhas políticas vão ser feitas no país. O Executivo é grande, tem um papel central, mas ele não pode tudo nem não pode tudo sozinho, e o Legislativo é uma peça fundamental nessa estrutura. Então, eleger candidatos que tenham uma preocupação social e não só o objetivo de atender aos interesses do capital financeiro é fundamental para pensarmos um outro tipo de sociedade, que seja fundamentada numa política e numa economia que se voltem para atender às necessidades da população.

André Salata – O próximo ano é não somente de eleições mas talvez o mais importante da história do nosso país, mas vou me restringir à questão das desigualdades. Como venho dizendo, houve uma inflexão por volta de 2015, e o combate às desigualdades, que era central anos atrás – não somente no governo do PT, mas desde a promulgação da Constituição –, deixou de ser feito. A sugestão que eu daria é procurar candidatos que coloquem a questão das desigualdades e da pobreza como fundamentais nos seus programas de governo. Isso é extremamente relevante, porque não tem como pensarmos num projeto de país sustentável, num crescimento econômico sustentável sem combater a desigualdade, sem reduzi-la a níveis mais civilizados.


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