Semana On

Quinta-Feira 19.mai.2022

Ano X - Nº 487

Cultura e Entretenimento

A Guerra do Paraguai em miniatura

Alan Perry fala sobre sua nova linha de miniaturas, avalia seu impacto na cena wargamer e revela novidades que serão lançadas em breve

Postado em 17 de Julho de 2021 - Semana On

Alan Perry e seus exércitos para a Guerra do Paraguai. Alan Perry e seus exércitos para a Guerra do Paraguai.

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A Perry Miniatures é uma das principais empresas dedicadas a construção de linhas de miniaturas históricas. Os irmãos Alan e Michael Perry já exploraram períodos históricos clássicos para a cena wargamer, como a Guerra Civil Americana, Napoleônicos, Guerra Franco-Prussiana, Guerra da Independência Americana, Segunda Guerra Mundial, Guerra Civil Inglesa, vários períodos medievais entre outros. Em junho do ano passado, Alan Perry surpreendeu a cena wargamer lançando uma linha inesperada, focando a Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito armado ocorrido na América do Sul, e que colocou o então Império Brasileiro, a Argentina e o Uruguai em conflito contra o Paraguai: uma guerra fratricida que se estendeu por seis anos (1864-70) e que praticamente dizimou a população masculina paraguaia. O lançamento foi inesperado por vários motivos, entre eles a ausência de conhecimento da cena wargamer europeia e norte-americana a respeito deste importante conflito.

O lançamento da linha de miniaturas pela Perry Miniatures foi o ponto de partida, também, para o desenvolvimento de ‘Fronteiras de Sangue’, o primeiro sistema de regras de wargame desenvolvido no Brasil e publicado por uma editora fora do país. De autoria do wargamer brasileiro Victor Barone, o sistema é dedicado especificamente à Guerra do Paraguai e pode ser adquirido, em inglês, no site da editora Caliver Books, e em português (em formato digital), na Wargame Vault.

Nesta entrevista, Alan Perry explica como se interessou por ele, como foram as pesquisas para o desenvolvimento da linha o que vem por aí.

 

Quando a Guerra da Tríplice Aliança despertou seu interesse?

Eu estava ciente desta guerra quando Terry Hooker lançou seu livro pela Foundry Publications em 2008, mas na época o período não tinha despertado meu interesse. Anos depois, me deparei com algumas fotos do soldado-artista Cândido Lopez. Isso realmente despertou meu interesse, há muitos detalhes e informações nas pinturas, perfeitas quando você deseja recriar o terreno e os exércitos na mesa de jogo. Então, logo depois, encomendei um livro com suas pinturas.

Como foi o processo de pesquisa para a criação da linha Triple Alliance? Quais foram as principais fontes para a compreensão das características do conflito, equipamentos, armas e uniformes?

Bem, as principais fontes foram o livro de Terry Hooker, ‘The Paraguayan War’, as pinturas de Candido e, felizmente, os livros de Gabriele Esposito, publicados por Winged Hussar e Osprey. No momento, estou lendo ‘The Road to Armageddon’, de Thomas L. Whigham, da University of Calgary Press. Este é seu segundo livro sobre a guerra, que cobre os antecedentes e os detalhes da campanha de 1866-70 e é uma ótima leitura. O primeiro é ‘A Guerra do Paraguai: causas e conduta inicial’. O lado da artilharia da pesquisa; ou seja, o que eles estavam realmente usando, era um pouco difícil de definir, mas agora estou chegando lá. Fotografias de soldados em campo são essenciais para obter a aparência correta; existem algumas por aí, mas não tantas como na Guerra Civil Americana. Estou sempre procurando por mais informações.

Como está sendo a aceitação pelo público europeu e norte-americano?

Acho que foi uma grande surpresa para a maioria dos jogadores europeus e norte-americanos. O período tem uma aparência diferente da maioria dos outros que normalmente são jogados, por isso é bastante exótico. Embora esteja indo muito bem, nunca será um grande vendedor, mas está estável.

Foi um risco investir nesta linha?

Não, de forma alguma. Normalmente fazemos miniaturas de exércitos relativos a conflitos que queremos jogar nós mesmos, se os clientes os comprarem isso é um bônus adicional.

Existem muitas peças da linha Triple Alliance que também podem ser usadas como Guerra Civil Americana. Você pretende continuar explorando esse recurso?

Eu não diria que há "muitas" peças da linha Triple Alliance que podem ser usadas com Guerra Civil Americana. A infantaria regular dos exércitos da Tríplice Aliança se parecem com seus homólogos da Guerra Civil Americana, mas em uma inspeção mais próxima, seu equipamento e corte de uniformes geralmente são ligeiramente diferentes. As tropas de linha e guarnições brasileiras, e os Voluntários estão um pouco mais próximos da infantaria da Guerra Civil Americana, assim como alguns voluntários argentinos, alguns dos quais podem ser criados com figuras da Guerra Civil Americana, especialmente convertidos a partir de conjuntos de plástico desta linha. Portanto, não estou focado no uso da linha da Tríplice Aliança para Guerra Civil Americana, é o contrário. Além de converter algumas minis de plástico da Guerra Civil Americana em unidades brasileiras e argentinas para meu próprio exército, estou apenas criando as miniaturas de Tríplice Aliança com uniformes e equipamentos que eles deveriam ter e, se cruzarem com Guerra Civil Americana, tudo bem.

A história da América do Sul ainda é desconhecida da maioria dos europeus e norte-americanos. Como consequência, a cena wargamer reflete esse fato. Existem poucos sistemas de regras e linhas de miniatura dedicadas às guerras travadas no continente. Você acha que isso pode mudar de agora em diante?

Sim, a América do Sul não é realmente um "grande" período de jogos de guerra na Europa (e, eu imagino, nos EUA), além dos astecas, maias e conquistadores, que ainda assim são um nicho. Wargames focados no século 19 na América do Sul são quase inexistentes na Europa, até onde eu saiba. Não sei se a linha Tríplice Aliança vai mudar alguma coisa, espero que sim. Certamente há mais alguns wargamers que agora estão a par deste conflito. Há muitos jogadores com quem conversei que nunca tinham ouvido falar dele.

A linha despertou o interesse da pequena comunidade de wargamer da América do Sul?

É difícil dizer, eu realmente não acompanho os pedidos que saem. Percebi algumas respostas positivas da América do Sul no Facebook, quando coloquei novos lançamentos, então acho que houve uma pequena reação. Infelizmente não enviamos mais pedidos para o Brasil, pois eles sempre desaparecem; nunca chegam aos clientes, então tivemos que parar de enviá-los, estávamos apenas perdendo dinheiro. Tivemos que fazer isso na época em que a linha tríplice Aliança estava saindo, infelizmente!

A Perry Miniatures fez um trabalho maravilhoso com a linha Triple Alliance. Hoje, qualquer wargamer interessado no período possui uma extensa lista de opções para iniciar uma coleção. Porém, são muitas as tropas icônicas que poderiam estar representadas no acervo, como os Batalhões de Zuavos da Bahia e Pernambuco (formados exclusivamente por soldados negros), a cavalaria indígena Guaicuru, o 40º Batalhão Paraguaio, formado pela elite econômica de Assunção , o Batalhão Garibaldi (que atuou primeiro com os uruguaios e depois com os brasileiros), a cavalaria de elite paraguaia, batalhões paraguaios em sua maioria armados com armas brancas (lanças, espadas e punhais), que se tornaram bastante numerosos a partir de 1869, entre outros. Você pretende representar essas tropas no futuro?

Sim, alguns deles estão em andamento. Normalmente começamos as linhas com o núcleo do que os jogadores precisam para começar a jogar, então as unidades mais especiais aparecem depois. Terminei os Zuavos da Bahia e eles estão na fila de lançamento. Não conheço o batalhão de Pernambuco; você terá que enviar algumas fotos! O Batalhão Garibaldi poderia ser representado por confederados de Guerra Civil Americana em camisas e quepes, mas posso fazer alguns de qualquer maneira. Acabei de começar uma cavalaria paraguaia desmontada, armada com lança, espada e pistola que, acredito, foi usada em grande número na defesa, bem como no ataque. A cavalaria Guaicuru parece interessante, seriam legais de fazer.

Outra questão interessante é a participação de adolescentes e idosos nos batalhões paraguaios, principalmente no final da guerra. Embora polêmico, é um fato histórico importante no conflito. Você pretende representar essas tropas?

Bem, aconteceu, então provavelmente vou precisar fazê-los. Eu também achava que era no final da guerra, mas, de acordo com Whigham, os primeiros recrutas de adolescentes e velhos chegaram ao front em dezembro de 1865.

Em relação a comandantes históricos como Caxias e Osório (brasileiros), Dias, Caballero e Solano Lopes (paraguaios), Mitre e Flores (Argentina e Uruguai), você pretende representá-los?

Sim, farei todos os comandantes principais. Os packs que já fiz são de oficiais montados genéricos.

Que novidades serão apresentadas aos fãs da Triple Alliance? Você poderia nos dar uma prévia?

Pois bem, a seguir vêm os Voluntários da Pátria, brasileiros marchando em pelotão completo, mais artilharia e os Zuavos da Bahia.

Existe alguma chance de ter uma linha de plástico Triple Alliance?

Não. Alguns conjuntos de plásticos da Guerra Civil Americana, conforme mencionado acima, podem ser convertidos para cobrir alguns tipos de tropas.

O lançamento de sua linha Triple Alliance foi um grande impulso para a publicação do livro Borders of Blood, da Caliver Books. Você já testou a linha Triple Alliance em jogo com algum sistema de regras? Qual? Pretende testar o Borders of Blood?

Ainda não joguei, mas isso vai mudar em breve, pois agora tenho miniaturas suficientes para um jogo de tamanho decente e quase terminei o terreno para ele. Ao longo dos últimos dois anos projetando esta linha, estive ansioso para experimentar as regras de Black Powder com ela. Nós usamos essas regras há anos e elas são facilmente ajustáveis, então as primeiras batalhas serão com elas. No entanto, vamos certamente experimentar o Borders of Blood e ver no que vai dar!


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