Semana On

Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Suspeitas de corrupção são abafadas pelo estado de saúde de Bolsonaro

Hospitalização é usada como estratégia para escapar de denúncias e da crise

Postado em 16 de Julho de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Jair Bolsonaro está doente? Sim, ninguém soluça sem parar por dias porque gosta. Espero, portanto, que se recupere. Mas, enquanto estava internado no Hospital das Forças Armadas, uma série de publicações em suas redes sociais mostraram que ele vai tentar aproveitar a situação para faturar politicamente. O que é extremamente conveniente em meio a uma tempestade de notícias ruins e a uma derrocada em sua popularidade.

Temos que separar as coisas: um fato é o quadro de Bolsonaro, que é mais sensível devido às cirurgias abdominais pelas quais passou. Outro é o oportunismo que se vale da pouca transparência que ele dá à sua saúde (escondendo resultados de testes de covid e idas ao hospital) para tentar virar o jogo político. Seria leviandade dizer que ele está exagerando para se livrar da má fase, mas, no mínimo, quer transformar o limão em limonada.

Jair mira, especialmente, o bolsonarismo-raiz - aqueles 15% da população que acreditam em absolutamente tudo o que ele diz. Esse grupo, que é capaz de atender a um pedido de seu líder para ajudar em um golpe de Estado em 2022, está sendo exposto, dia após dia, pela CPI da Covid e a imprensa, a evidências de que o "mito" fez corpo mole diante da corrupção. Isso sem contar as provas de que o "mito" embolsava salários de parentes usados como funcionários-fantasmas em seu gabinete enquanto deputado federal.

Expondo nas redes sociais a imagem de seu corpo seminu no leito hospitalar no momento em que recebia uma benção de um religioso, presidente ou alguém autorizado por ele apelou para a mesma estratégia de comunicação que adotou após o atentado que sofreu em setembro de 2018. A facada, apesar de terrível, foi diligentemente utilizada para a construção da imagem de "mito" - que ele, agora, tenta reconstruir.

Em suas mensagens nas redes sociais, Bolsonaro retomou o atentado, tentando envolver de forma leviana o PSOL e o PT, atiçando as velhas teorias conspiratórias da extrema direita. E sem cerimônia, colocou-se como um líder ungido por Deus ao afirmar que ele lhe deu a oportunidade de por o Brasil no caminho da prosperidade.

E apesar de ter sido cúmplice na morte de quase 540 mil brasileiros por covid-19 ao atrasar a compra de vacinas, boicotar o isolamento social, atacar o uso de máscaras, enganar a população com remédios inúteis e sabotar os esforços de prefeitos e governadores para combater a crise, Jair usou politicamente as vítimas. Afirmou, em sua sequência de mensagens, que "mesmo com todas as adversidades, inclusive uma pandemia que levou muito de nossos irmãos no Brasil e no mundo, continuamos seguindo por este caminho". Omitiu que foi sócio da pandemia na empreitada.

Falando especialmente ao público evangélico, que aprova seu governo bem mais do que a média da população, afirmou que são as "orações" que o motivam a seguir em frente e "enfrentar tudo que for preciso para tirar o país de vez das garras da corrupção, da inversão de valores, do crime organizado, e para garantir e proteger a liberdade do nosso povo". Aposto uma rachadinha de salário de ex-cunhado que o termo "corrupção" foi estrategicamente colocado em primeiro lugar nessa enumeração.

Como em uma carta-testamento brega, Bolsonaro pediu "a cada um que está lendo essa mensagem que jamais desista das nossas cores, dos nossos valores", num momento em que o verde e o amarelo voltam a ser usados pela oposição nos protestos de rua contra ele. E, apelando ao patriotismo dos militares, afirma que "temos riquezas e um povo maravilhoso que nenhum país no mundo tem". Encerra reafirmando a "honestidade", para apagar a prevaricação da qual está sendo acusado, e traz novamente o divino para a discussão, dizendo que ele poderá mudar a realidade "com Deus no coração".

Enquanto Bolsonaro estiver enfrentando a crise de saúde, podemos esperar muitas outras mensagens como essas. Tanto para fortalecer o vínculo com os 15% de base mais fiel, quanto para manter perto os 24% que consideram seu governo bom e ótimo e tentar gerar alguma empatia entre os outros 24% que acham seu governo regular. Já os 51% que avaliam sua gestão como ruim e péssima não são alvo dessas mensagens. Eles estão ocupados, tentando sobreviver ou compartilhando memes que criticam exatamente esse uso político.

Bolsonaro está doente e se vende como mártir, apesar de ser apenas um pequeno político desesperado. Mártires são as centenas de milhares de brasileiros que morreram de covid-19 como vítimas da sabotagem de seu governo.

Uma evidência de que essa estratégia já está em prática é a quantidade de postagens, de seguidores reais e robôs nas redes sociais, atacando quem critica o fato de ele estar usando o seu quadro clínico para tirar vantagem política. Ou seja, quem questiona a "narrativa" presidencial leva pedrada.

No meu texto anterior, já desejei saúde ao presidente - mesmo que ele não tenha feito o mesmo aos brasileiros na pandemia de covid-19. Espero que ele viva muitos anos para poder responder pelos crimes do qual é acusado. Tanto os de corrupção na Justiça brasileira quanto aqueles contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional.

Carluxo usa hospitalização de Bolsonaro como oportunidade a ser aproveitada

Primeiro vereador federal da história, Carlos Bolsonaro, o Carluxo, transformou a nova hospitalização do pai numa oportunidade a ser aproveitada politicamente. Relançou um espetáculo conhecido: a internação—andor. Nela, a imagem sacrossanta do doente é transportada do ambiente hospitalar para as redes sociais, concedendo aos devotos do bolsonarismo o privilégio de acompanhar o mito com suas preces.

A exemplo do que fizera em internações anteriores, o Zero Dois está ao lado do pai, agora no hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Significa dizer que a procissão virtual deve durar até que o presidente receba alta. A julgar pelos primeiros lances, Carluxo prega para convertidos ao manejar as redes sociais do pai. Administrou um tratamento precoce que combina doses da facada de 2018 com uma gota de PT.

Na postagem que marcou a reestreia, Carluxo utilizou imagem captada no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, antes da transferência de Bolsonaro para São Paulo. O paciente foi do leito às redes sem camisa, plugado a equipamentos que monitoravam os sinais vitais. Tinha ao seu lado o arcebispo militar, Dom Fernando Guimarães.

Fazendo-se passar pelo pai, Carluxo escreveu: "Mais um desafio, consequência da tentativa de assassinato promovida por antigo filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT, para impedir a vitória de milhões de brasileiros que queriam mudanças para o Brasil. Um atentado cruel não só contra mim, mas contra a nossa democracia."

A Polícia Federal já concluiu que Adélio Bispo, o ex-filiado do PSOL que esfaqueou o então candidato Bolsonaro, agiu sozinho, não como elo de uma conspiração político-eleitoral. O criminoso foi diagnosticado pelos médicos como portador de um "transtorno delirante persistente." No português das ruas, é um maluco.

As mudanças de que fala o filho de Bolsonaro ficaram pelo caminho. O mito foi eleito como um político antissistema, anticorrupção e pró-liberalismo econômico. Hoje, percorre a conjuntura acorrentado ao sistêmico centrão, chefia uma organização familiar com fins lucrativos e dá de ombros para a agenda de reformas liberais.

As notícias fornecidas no primeiro boletim da equipe de médicos paulistas são alvissareiras. Após analisar os exames laboratoriais e de imagem, o time chefiado pelo cirurgião gástrico Antonio Luiz Macedo decidiu submeter Bolsonaro a um "tratamento clínico conservador." Ou seja: embora a cirurgia ainda não esteja descartada, os doutores tentarão resolver a obstrução intestinal do presidente sem bisturi.

Carluxo faria um bem a si mesmo se esquecesse as redes sociais enquanto estiver no hospital, dedicando 100% do seu tempo ao exercício de sua devoção pelo pai. Até porque o truque de misturar hospital com política pode não ser suficiente para ressuscitar a imagem do mito.

De acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha, a maioria dos brasileiros enxerga Bolsonaro como incompetente (58%), desonesto (52%), pouco inteligente (57%), falso (55%), indeciso (57%), autoritário (66%) e despreparado para o exercício do cargo de presidente (62%). Os dados revelam que, fora do ambiente hospitalar, Bolsonaro é um político hemorrágico.

Estratégia para as redes sociais

Em fase de derretimento nas pesquisas, Bolsonaro se desdobra para manter ativa sua cidadela mais estratégica: as redes sociais. Hospitalizado, teve de improvisar. Auxiliado por Carluxo, o presidente assegurou aos seus devotos eletrônicos o suprimento regular de polêmicas.

Em condições normais, Bolsonaro trombetearia em sua tradicional live noturna das quintas feiras o passeio de moto que estava previsto para sábado, em Manaus. Impedido de levar ao ar a longa transmissão, falou para Sikêra Jr., um de seus apresentadores de estimação. Encaixou na conversa uma mensagem aos motoqueiros:

"Peço desculpas ao pessoal, é motivo alheio à minha vontade. Vamos deixar para outra data, se Deus quiser. Então agradeço a todos de Manaus pelo carinho e pela atenção. Sabia que ia ser um movimento excepcional, mas vamos deixar para outra oportunidade."

Para manter aceso o embate com a cúpula da CPI da Covid, Bolsonaro terceirizou postagens ao filho Carlos Bolsonaro. Chamou a comissão de "circo". Anotou que Renan Calheiros, Omar Aziz e Randolfe Rodrigues, respectivamente relator, presidente e vice-presidente da CPI, "estão mais para otários do que para três patetas."

Plugado às redes, Aziz fez com Carluxo o que Bolsonaro costuma fazer com as crianças que se aproximam dele nos comícios: arrancou-lhe a máscara. "Não quero acreditar que o presidente Jair Bolsonaro, num leito de hospital, esteja gastando energia pra atacar os senadores da CPI", escreveu Aziz.

O presidente da CPI prosseguiu: "Deve ter sido um moleque - que não tem coragem de mostrar o que é de verdade —que fica assacando quem o contraria. Se tivesse tido uma boa criação, talvez hoje tivesse a coragem esperada de um homem. Mas ainda vai crescer muito e levar uns cascudos da vida."

O problema da estratégia da família Bolsonaro é que o capitão fala para convertidos quando direciona sua comunicação para o habitat natural das redes sociais. Enquanto o capitão se deixar inebriar pela euforia ensaiada do cercadinho virtual, o alarme da impopularidade continuará tocando fora das redes


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