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Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Ao turbinar Bolsa Voto, Congresso trata verba pública como dinheiro grátis

Para novo Bolsa Família não há verba, mas Bolsa Eleição triplica: R$ 5,7 bi

Postado em 16 de Julho de 2021 - Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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No fundo, no fundo a única coisa que realmente interessa à maioria dos congressistas num ano pré-eleitoral é o fundo de financiamento da próxima eleição. Ainda não se sabe de onde virá a verba para financiar o novo Bolsa Família que o governo promete criar até o final do ano. Entretanto, com a pandemia ainda a pino, o Tesouro em ruínas e quase 15 milhões de brasileiros no olho da rua, deputados e senadores decidiram triplicar o Bolsa Eleição. Saltou de R$ 1,8 bilhão para R$ 5,7 bilhões.

A cifra foi empurrada para dentro da LDO, Lei de Diretrizes Orçamentária para 2022. Numa situação normal, seria apenas um absurdo. Transforma-se num escárnio dentro de uma programação orçamentária que estima em R$ 170,7 bilhões o déficit fiscal do próximo ano. Consumado o despautério, os parlamentares vão às férias do meio do ano, que ninguém é de ferro.

O fundo eleitoral foi anabolizado com requintes de covardia. O Partido Novo propôs a votação de um destaque que suprimia da LDO o pedaço que trata do Bolsa Eleição. Iniciou-se, então, uma coreografia da empulhação. Os líderes partidários concordaram em apreciar o destaque. Mas a votação foi simbólica. Nessa modalidade de votação, os parlamentares não levam a cara ao painel eletrônico de votação. O eleitor fica sem saber quem é quem.

Para adicionar fiapo de luz no breu, vai aqui a orientação geral de cada partido. Posicionaram-se a favor do Bolsa Eleição engordado: PSL, PL, PP, PSD, MDB, PSDB, DEM, Solidariedade, PROS, PSC, PTB e Cidadania. Manifestaram-se contra o fundão hipertrofiado: PT, PDT, PSB, Podemos, PSOL, Novo, Rede e PV.

O que triplicou no país além do fundo de financiamento das eleições? Simples: o sofrimento dos brasileiros, devastados pelos efeitos da pandemia. Num ambiente assim, elevar o Bolsa Eleição de R$ 1,8 bilhão para R$ 5,7 bilhão é o mesmo que tratar verba pública como dinheiro grátis. Não é concebível.

A democracia tem um custo. Mas é preciso ter respeito pelo dinheiro do contribuinte. O que os congressistas precisam fazer agora é imitar as famílias brasileiras, podando gastos. Espera-se que a reação contrária force os deputados e senadores a retornar do Mundo da Lua para a Terra.

O Orçamento da União para 2022 terá de ser aprovado até o final do ano. Aprovaram-se agora apenas as diretrizes. Os legisladores terão alguns meses para recobrar o juízo. Precisam ser empurrados para a razão.


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