Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Saúde

Depois de milhares de mortos, Ministério da Saúde reconhece ineficácia do ‘kit covid’

Negacionismo guiou o Governo Bolsonaro e forçou a disseminação da cloroquina no combate à Covid

Postado em 16 de Julho de 2021 - Clara Assunção (RBA), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Foto:  Sérgio Lima/Poder360 Foto: Sérgio Lima/Poder360

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Em documentos enviados à CPI da Covid no Senado, o Ministério da Saúde admitiu que os medicamentos do chamado “kit covid-19” são ineficazes contra a doença do novo coronavírus. A pedido do senador Humberto Costa (PT-PE), a pasta encaminhou à comissão duas notas técnicas que afirmam que as drogas “foram testadas e não mostraram benefícios clínicos na população de pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizadas”. 

O documento lista a hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina, lopinavir/ritonavir, colchicina e plasma convalescente. E acrescenta que a ivermectina, que também compõe o kit, “e a associação de casirivimabe + imdevimabe não possuem evidência que justifiquem seu uso em pacientes hospitalizados, não devendo ser utilizados nessa população”, destaca o Ministério da Saúde. 

Os remédios totalmente contraindicados no documento ganharam fama após lobby do presidente Jair Bolsonaro desde o início da pandemia. Desde junho de 2020, no entanto, as farmacêuticas fabricantes desses medicamentos já alertavam para a não eficácia no combate à covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também advertia, já no ano passado, para a ineficácia dessas medicações.

O lobby bolsonarista

À CPI da Covid no Senado, em junho, os cientistas Natalia Pasternak e Claudio Maierovitch também denunciaram que desde junho de 2020 já havia informações nacionais e internacionais suficientes para não indicar a cloroquina, por exemplo, como tratamento médico. Apesar das evidências científicas, o presidente da República continuou apostando no coquetel sem comprovação. E, em paralelo, mantinha-se contrário às principais recomendações da ciência de consenso internacional, como distanciamento social e o uso de máscaras. 

Reportagem do Congresso em Foco também mostrou que os medicamentos citados na nota técnica são os mesmos usados no chamado “tratamento precoce” indicados pelo aplicativo do Ministério da Saúde, o TrateCov. O governo federal também preferiu gastar R$ 23,3 milhões em campanhas publicitárias para divulgar o “kit covid” sem eficácia. O custo foi confirmado à Procuradoria da República. A prioridade deixou de lado investimentos em campanhas de conscientização sobre as medidas não farmacológicas e vacinação contra o vírus.

Documentos enviados à CPI da Covid, obtidos pela agência de dados independente Fiquem Sabendo, também revelaram que o Ministério da Saúde foi mais ágil em comprar medicamento sem eficácia comprovada do que as vacinas. O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, ainda garantiu aos senadores que houve pressão para que o órgão mudasse a bula da cloroquina. 

Desinformação mata

O lobby também inclui senadores da base governista. Entre eles, o parlamentar Luiz Carlos Heinze (PP-RS) que constantemente aproveita do espaço na CPI para defender os medicamentos ineficazes. Um levantamento do jornal Folha de S. Paulo mostrou ainda que farmacêuticas faturam mais de R$ 1 bilhão com as vendas do chamado “kit covid”. Uma delas, a EMS, registrou crescimento de 709% em 2020 em relação ao ano anterior, o que significou um lucro de R$ 142 milhões. 

Do outro lado das vendas, com na época mais de 482 mil mortos, a avaliação de Pasternak, PHD em microbiologia, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Instituto Questão de Ciência (IQC) à comissão, foi a de que “a crença de que existe uma cura simples, barata, que seria o sonho de todos nós, levou as pessoas a um comportamento de risco”. De acordo com a especialista, a postura do governo “confundiu as pessoas em relação à gravidade da doença”. A aposta a todo custo também fez “aumentar o número de vítimas da doença do novo coronavírus”. 

“Eles morreram de desinformação”, afirmou Pasternak em seu depoimento. “Entre as mais de 482 mil vidas perdidas, parte são de vítimas que não adotaram as recomendações e acreditaram em uma cura falsa e milagrosa”. 

Faltou bumbo ao recuo da Saúde

Erros podem produzir desastres. A maneira como agimos depois de cometer os erros podem atenuar ou agravar a desgraça. Ainda não inventaram remédio mais eficaz no combate à culpa do que reconhecê-la. Finalmente, o Ministério da Saúde produziu uma nota técnica posicionando-se contra o uso de cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, invermectina e outras poções mágicas em pacientes hospitalizados com Covid.

No documento, a pasta da Saúde anota que os remédios incluídos no chamado kit-Covid foram testados e não mostraram benefícios clínicos para pacientes infectados pelo coronavírus. O governo dá o braço a torcer com um atraso de mais de um ano, três ministros da Saúde e centenas de milhares de mortos por Covid. O mundo desembarcou do curandeirismo do tratamento precoce antes da chegada das vacinas. Mas o Brasil, acorrentado às obsessões de Bolsonaro, ainda escolhia uma beirada da Terra plana para saltar.

Faltou ao recuo do Ministério da Saúde um bumbo que soasse com o mesmo estardalhaço com que Bolsonaro tratou ciência como ficção científica. O presidente tornou-se garoto-propaganda das soluções cloroquínicas. Passou para o brasileiro a falsa impressão de que poderia desafiar o vírus, porque dispunha de tratamento. Converteu a cloroquina em política de saúde pública. Ordenou ao Exército que multiplicasse a produção do remédio em seu laboratório. Foram adquiridos insumos com sobrepreço de até 167%, constatou o TCU. Para complicar, o governo retardou a compra de vacinas. Deu no que está dando.

Numa pandemia, das várias maneiras para se atingir o desastre, o negacionismo é a mais rápida; a descoordenação, a mais duradoura; e a ideologia, a mais cruel. Bolsonaro chegou a fazer piada com o drama alheio. Quem é de direita, toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína, disse o presidente numa de suas entrevistas, às gargalhadas. Desacompanhada de um pedido de desculpas, a nota técnica do Ministério da Saúde é mais uma evidência de que um dos maiores erros da evolução humana é a desfaçatez não doer.


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