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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Coluna

Alugam-se pés de Jabuticabas

Que as futuras gerações possam ver uma jabuticabeira ao vivo

Postado em 15 de Julho de 2021 - Theresa Hilcar

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Houve um tempo, lá no século passado, em Minas Gerais, que a gente podia alugar pé de jabuticaba para comer a fruta no pé. Contei essa história para o colega à minha frente e ele, com olhos arregalados, diante do inusitado perguntou desconfiado: “Como assim, alugar pé de fruta como se aluga bicicleta?”.

Adoro a reação das pessoas – sempre os mais jovens – quando conto as histórias de antigamente, digamos assim. E dê-lhe explicar que nem sempre as crianças tiveram TV, computador, shopping centers, brinquedos e todo tipo de diversão.  

Portanto, subir num pé de jabuticaba e saborear cada frutinha sentindo aquele líquido doce escorrer pela garganta era quase poesia.  

Isto sem contar que subir na árvore, disputar o galho mais bonito era sinônimo de muita diversão e aventura.  

Costumávamos ir sempre em grupo de amigos, às vezes íamos depois da aula ainda vestidos com uniformes escolares. Ou seja, um programa e tanto para a época. Muito melhor que qualquer jogo eletrônico ou viagem à Disney, coisas que sequer sonhávamos.  

O tal sistema de “aluguel” funcionava assim: o dono do terreno ou da chácara, que na minha cidade era o seu Xandinho, cobrava uma pequena quantia à guisa de ingresso. Você entrava na propriedade e chupava quantas jabuticabas aguentasse. Podia passar a tarde toda no local se quisesse – e se aguentasse. Só não podia levar para casa.  

Para quem não sabe, jabuticaba é uma das frutas mais emblemáticas da cultura mineira, mais ou menos como a seriguela para os sul-mato-grossenses. Acho que até mais.

Tipicamente brasileira, e com um nome originário do tupi-guarani (o iapoti kaba, que significa fruta em botão), é comum encontrar a árvore carregada da fruta nos quintais mineiros – e até em coberturas de apartamentos. Com uma presença tão marcante, não é de se espantar que haja diversas opções para a degustação. Tem os tradicionais doces, o licor, pratos da cozinha mineira e até barbecue e molho de pimenta elaborados com essa fruta. Gurmetizaram a jabuticaba, sô!

Já estava quase fugindo totalmente do assunto. Vejam só aonde a jabuticaba pode nos levar. O fato é que o tema veio à baila por conta de uma exposição virtual do Inhotim (a maior galeria de arte a céu aberto da América Latina) com fotos de 13 das mais de 80 espécies frutíferas que existem no local, incluindo a jabuticaba, claro.  

Com belíssimas imagens do fotógrafo João Marcos Rosa, a exposição “Do tamboril à braúna: conversas com quem gosta de árvores” é resultado da incursão de dois dias pelos jardins do Inhotim em busca dos melhores cliques. A chamada Plinia cauliflora, a deliciosa Jabuticaba, dá abundantemente em seus caules e, como diz o texto da exposição, ‘ocupa um lugar especial na mesa dos mineiros”. Não só na mesa, mas também nas lembranças gastronômicas da infância.

Mas pra não dizer que só falei de jabuticaba, devo dizer que me encantei também com a foto do Jequitibá, um gigante que pode ultrapassar 45 metros em florestas bem preservadas. Sabia que uma árvore desse porte é capaz de bombear do solo e transpirar cerca de 1000 litros de água em um único dia?

Pois é, as raízes das árvores são sugadores sofisticados e extremamente inteligentes. Já seus troncos funcionam como tubos que ajudam a bombear água para as folhas. Ao transpirar, as árvores tornam o ar mais úmido, transformando o clima ao redor e aumentando o conforto ambiental.

Quem quiser saber mais da exposição de árvores do Inhotim, dá uma busca no Google. Vale muito a pena. Principalmente em tempos onde alguns homens, desalmados e ignorantes, andam com machado em punho e fogo nas ventas na busca do dinheiro fácil. No que depender deles as futuras gerações só verão um pé de jabuticaba na fotografia. Comer fruta no pé será ficção científica.

Detalhe: se visitar o Inhotim saiba que lá a gente pode também comer tudo do pé. Isso mesmo, é permitido catar e degustar in loco e sem pagar. Mas andei sabendo que tem gente no interior que ainda aluga.


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