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Domingo 19.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Um debate clássico

Fundamentos do regime de acumulação financeira

Postado em 15 de Julho de 2021 - Bruno Lima Rocha

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No texto que segue, retomamos um debate da clássica da crítica da economia política e economia política internacional contemporânea, estabelecendo um diálogo frutífero com referências vivas como Maria da Conceição Tavares, Alain Chesnais e Barry Eichengreen. É preciso compreender os mecanismos que dão suporte ao regime de acumulação financeira e as condições de hegemonia dos EUA, a partir dos últimos dez anos da Guerra Fria e na década seguinte. O debate que tento promover não se encerra aqui, longe disso, tratando-se de um aporte, breve mas consistente.

Se há um fator que vai ao encontro da participação de Transnacionais na economia mundial é o regime de acumulação financeira. Desde a década de ’80, com a forma absoluta do novo arranjo dos EUA para retomar e assegurar a hegemonia mundial, como nos explica Tavares (1985), é a mudança forçosa do núcleo mais dinâmico do capitalismo. Ao abrir mão de parte importante de seu parque industrial e tornar a hegemonia do dólar o privilégio exorbitante na economia mundo, os dois governos de Reagan (1981-1988) e o primeiro de Bush pai (1989-1992), dinamizaram o capitalismo estadunidense tomando por base a expansão de sua própria dívida pública, o investimento desses recursos na corrida armamentista com ênfase na vantagem estratégica das tecnologias de informação e comunicação e liberalizando os mercados financeiros.

Eichengreen (2011, p.3) explica a assimetria do emprego do dólar estadunidense como moeda internacional na maneira que os demais países oferecem aos EUA para adquirir sua moeda soberana. Por exemplo, na produção da moeda impressa, sonante, a casa da moeda da Superpotência gasta centavos de dólar para a produção de uma nota US$100. Mas, ressalta Eichengreen: “outros países precisam fornecer US$100 em bens e/ou serviços para obter a mesma nota de US$100” (2011, p.3). Essa diferença traz o conceito de “senhoriagem”, da tradição medieval, onde o senhor feudal, e na sequência o Estado soberano que cunha a moeda teria o direito de reter parte do metal precioso usado na cunhagem (Eichengreen, 2011, p.4). Essa condição de deter a senhoriagem sobre a moeda mundial proporciona o chamado “privilégio exorbitante”, garantindo aos Estados Unidos uma produção permanente de excedentes de poder, incluindo a capacidade de emprego de “armas financeiras”.

Tavares demonstra que a economia mundial correu para o dólar após a elevação da taxa de juros no início do governo Reagan, e também o fez pelo fato dos EUA se tornarem um destino de exportações de manufatura, diminuindo progressivamente o papel de sua própria indústria na economia implantada em seu território. Conforme nos explica Tavares (1985, p.6)        

Com efeito, além do movimento de restauração do prestígio político e ideológico, Reagan resolveu fazer uma coisa nunca vista, a saber uma política Keynesiana bastarda, de cabeça para baixo, combinada com uma política monetária dura. Redistribuir a renda a favor dos mais ricos, aumentar o déficit fiscal e subir a taxa de juros é uma combinação de política econômica explosiva, tanto do ponto de vista interno como internacional. No entanto, esta política contraditória teve como resultado a recuperação econômica americana, na medida em que os EUA conseguiram submeter os seus parceiros a desafiar militar e economicamente os seus adversários.

A assimetria se nota o emprego difuso e permanente das redes telemáticas que, em última instância, realizam suas transações em dólar. Eichengreen (2011, p.3) explica como esse uso traz benefícios bancos e empresas estadunidenses. “Uma empresa alemã que exporte máquinas para a China e receba o pagamento em dólar incorre no custo adicional de converter os dólares em euros”. O exemplo vai mais além, quando o autor traz o exemplo de “um banco suíço que aceite depósitos em francos, mas conceda empréstimos externos em dólares […] preocupa-se com o risco da taxa de câmbio. É possível gerenciar o risco-cambial, mas essa produção envolve custos adicionais”. Logo, as despesas com proteção (hedge) em moeda “estrangeira” não são uma necessidade de instituições financeiras dos EUA, mas uma obrigação de todos os demais países do mundo, porque o risco cambial não é uma preocupação do mercado financeiro estadunidense.

O dólar é a moeda da globalização capitalista, ou mundialização, seguindo a definição francófona a qual dou preferência neste trabalho. Com dados acumulados da primeira década do século XXI, Eichengreen (2011, p.2) demonstra a consolidação dessa hegemonia em volumes transacionais que utilizam o dólar, tais como:

Coreia do Sul e Tailândia definem em dólar mais de 80% de seu comércio, embora apenas 20% de suas exportações se destinem a compradores americanos. Nada menos que 70% das exportações da Austrália são faturadas em dólar, conquanto menos de 6% se destinem aos EUA. As principais bolsas de commodities cotam os preços em dólar. O dólar é usado em 85% de todas as transações internacionais em todo o mundo. A moeda estadunidense responde por quase a metade do estoque global de títulos de divida internacionais. É a moeda que bancos centrais de todo o mundo mantêm 60% de suas reservas em divisas internacionais.

A consolidação dessa hegemonia garantidora de privilégio exorbitante, segundo Chesnais (2001, p.11) o movimento de autonomização da moeda estadunidense, chegando ao momento da década seguinte das vitórias políticas da revolução conservadora, foi antecedido pelo “balanço e totalmente negativo do ‘socialismo real’”. De acordo com esse autor, a Nomenklatura de origem soviética e seus pares subalternos no Leste Europeu teriam cavado o leito da restauração neoliberal ao servir como freio para os movimentos de avanços da democracia e de conteúdo anticapitalista presentes tanto na Europa Ocidental, como nos países satélites da URSS, como também no próprio território dos EUA. A revolução conservadora de Thatcher e Reagan – e depois mundializada – foi antecedida do “desastre no qual a gestão burocrática da economia, o terror staliniano e a repressão generalizada do longo período brejneviano conduziram os países do Leste e, em particular, todos os povos da ex-União Soviética”.  (Chesnais, 2001, p.12).

As crises na periferia do sistema (como na década de ’80 do século XX, a quebra da economia polonesa em 1980/81 e a moratória do México em 1982) levam à saída de aplicações dos capitais voláteis, elevação das análises de risco de países subalternos e a busca permanente ao dólar como aplicação de segurança. Segundo Tavares (1985, p.7)

A partir daí o movimento de crédito interbancário se orientou decisivamente para os EUA e o sistema bancário passou a ficar sob o controle do FED. E não apenas sob o controle da política monetária, que dita as regras do jogo, as flutuações da taxa de juros e do câmbio, mas também a serviço da política fiscal americana. A partir do início dos anos 80, todos os grandes bancos internacionais estão em Nova York, não apenas sob a umbrella do FED, mas também financiando obrigatoriamente – porque não há outra alternativa – o déficit fiscal americano. 

Chesnais (2001, p. 10) nos apresenta a dinâmica da autonomização da moeda desregulada, tendo início no ano de 1979 com a vitória de Thatcher na Inglaterra, seguida do triunfo eleitoral de Reagan em 1981, materializando o eixo da aliança que deu base para a revolução conservadora, alastrada essa na Europa  e no Japão. Graças a medidas cujo ponto de partida remonta à autonomia do dólar deixando os arranjos de Bretton Woods, o acionar de Paul Volcker abandonando os acordos do FMI e o duro ajuste interno promovido pelos EUA para garantir uma Nova Ordem Mundial com sua hegemonia reeditada e com reforço.  “Por outro lado, ao manter uma política monetária dura e forçar uma supervalorização do dólar, o FED retomou na prática o controle do sistema privado internacional e articulou em seu proveito os interesses do rebanho disperso” (TAVARES, 1985, p.7).

Foi nesse contexto de luta política, de controle dos Estados-chave no Sistema Internacional que “o capital conseguiu fazer soltar a maioria dos freios e anteparos que comprimiram e canalizaram sua atividade nos países industrializados. O lugar decisivo ocupado pela moeda no modo de produção capitalista deu à liberalização e à desregulamentação um caráter e conseqüências estratégicas” (CHESNAIS, 2001, p.9).

Pela mesma interpretação lógica, o inverso pode ser verdadeiro, tanto com o novo eixo da hegemonia no Sistema Internacional no rumo da Ásia centralizado pela China e com pivôs geopolíticos e mesmo geoestratégicos importantes (como Irã), potências eurasiáticas (Rússia) ou asiáticas (Índia). Igualmente, as margens ilimitadas do capital podem ser contidas pela pressão das sociedades organizadas e a necessária defesa do emprego vivo e trabalho formal, além de políticas públicas como forma efetiva de distribuição de renda contrabalançando o conflito distributivo.

Referências

CHESNAIS, François. Mundialização: o capital financeiro no comando. In Revista Outubro, Número 05 – edição de fevereiro de 2001. Disponível em: <http://outubrorevista.com.br/mundializacao-o-capital-financeiro-no-comando/&gt;. Acesso em: 15 jun. 2020.

EICHENGREEN, Barry. Privilégio Exorbitante: A ascensão e queda do dólar e o futuro do Sistema Monetário Internacional. Elsevier: Rio de Janeiro, 2011.

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Artigo originalmente publicado na Revista Manutenção


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