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Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Lira ‘cozinha’ Bolsonaro e vê risco para oposição se Mourão chegar ao poder

MBL e Vem Pra Rua decidem promover manifestações contra Bolsonaro

Postado em 09 de Julho de 2021 - Kennedy Alencar (UOL), Folha de SP – Edição Semana On

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O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), quer "cozinhar o galo". Segundo ele, não é o momento de tocar adiante um eventual pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Lira sentiu o golpe durante as últimas manifestações de rua, quando apareceu como cúmplice do "genocida" e "ladrão de vacinas", palavras de ordem que ganharam as ruas nos cartazes e no coro dos manifestantes que defenderam o impeachment de Bolsonaro.

"Cozinhem o galo, mas não quebrem o fogão", diz Lira, incomodado por ter virado alvo dos protestos do último sábado. O presidente da Câmara faz um cálculo típico da política como ela é.

Quanto mais fraco Bolsonaro estiver, mais forte ele e o Centrão estarão. No entanto, há possibilidade de um ponto de virada. Se a conjuntura política se complicar para Bolsonaro, como está acontecendo na medida em que a CPI da Pandemia avança, Lira poderá tocar adiante um pedido de impeachment.

Enquanto isso não acontece, parlamentares que defendem um governo em franco declínio podem tirar proveito de um presidente fraco. Lira está nessa exata posição. Não morre de amor por Bolsonaro, mas não tem motivo para descartá-lo, por ora. Em outras palavras, a fraqueza de Bolsonaro fortalece Lira.

O presidente da Câmara rebate as críticas por não dar provimento a um pedido de impeachment. Para ele, há dois cenários no caso de aceitar um pedido.

No mais provável hoje, Bolsonaro obteria os votos para derrubar o prosseguimento do pedido de impeachment e posaria de vencedor. No menos provável, o impeachment seria aprovado, Bolsonaro sairia de cena e o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, surpreenderia a oposição.

Segundo Lira, Mourão teria apoio militar maior do que Bolsonaro. Poderia ficar mais tentado a uma saída golpista com apoio das Forças Armadas. Poderia também, jogando o jogo, construir uma candidatura mais competitiva contra a oposição.

Entre o poder que alcançou com um presidente fraco e com o cenário de alternância no Palácio do Planalto, Lira se comporta como um equilibrista. Está hoje com Bolsonaro. Mas amanhã será outro dia.

Sem impeachment, o que vem pela frente é um Bolsonaro sem juízo e sem rumo

O ronco das ruas e a pauta corrosiva da CPI enfraquecem Bolsonaro sem derrubá-lo. Nem os mais fervorosos adversários do capitão apostam na aprovação do impeachment. Mas até os aliados mais empedernidos do presidente já duvidam das chances de sua reeleição.

Confirmando-se o sentimento geral, Bolsonaro já iniciou o caminho de volta do Planalto para a planície. O que vem pela frente é o epílogo hipertrofiado de um martírio. O país suportará por um ano e meio a falta de juízo e a ausência de rumo de um presidente que já entrou para a galeria dos piores do ramo.

A forma como Bolsonaro reincide nos próprios erros levou-o a construir uma espécie de herança maldita para si mesmo. A parte mais visível desse legado amaldiçoado é a tragédia sanitária. Mas a pane gerencial não atinge apenas a Saúde. As principais políticas públicas do país estão no caminho do brejo.

A estrutura do Meio Ambiente foi devastada. A política externa desvirtuou a imagem internacional do Brasil. A política de Segurança Pública limita-se à disseminação de armas. Os generais do Planalto são mais conhecidos do que o ministro da Educação. O procurador-geral não procura. A Polícia Federal ganhou coleira.

Na área econômica, acumulam-se problemas —do desemprego à inflação, da falta de energia à falta de vacinas. Mas a prioridade de Bolsonaro é a pauta eleitoral. Os desejos do candidato —Bolsa Família vitaminado, reajuste salarial para os servidores e verba para obras eleitoreiras— são maiores do que o caixa. O que leva o governo a ameaçar com a alta de impostos.

Em política, o melhor momento para mudar é antes que a mudança se torne necessária. Bolsonaro fez uma opção preferencial pelo erro. A ruína lhe chega sempre em dobro, pois não são apenas os erros do capitão que sabotam o seu governo, mas a maneira como ele age depois de cometê-los.

No caso de Bolsonaro, um personagem que nunca teve apreço pelas instituições democráticas, a falta de espaço para manobrar é um convite para a reiteração de extravagâncias.

O presidente chama de "pilantras" os rivais da CPI sem se dar conta da pilantragem que o rodeia. Coloca numa mesma frase as "minhas Forças Armadas" e as ameaças de virar a mesa se não for implantado o voto impresso. Fornece material para a abertura de inquéritos no Supremo e acha que o problema está nas togas.

Em 2015, quando ainda era apenas um deputado do baixíssimo clero, Bolsonaro protocolou na Presidência da Câmara um pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Anotou na peça o seguinte:

"Mais do que despreparo, mostra-se evidente a omissão da denunciada ao deixar de adotar medidas preventivas e repressivas para combater o câncer da corrupção em seu governo, mantendo, perto de si e em funções de alta relevância da administração federal, pessoas com fortes indícios de comprometimento ético e desvios de conduta. Deixou de agir em defesa da sociedade da qual é responsável máxima na administração pública."

Decorridos seis anos, Bolsonaro poderia reler o que escreveu sobre Dilma defronte do espelho. Talvez enxergue na imagem refletida um presidente omisso, protetor dos maus costumes e negligente na defesa do bem jurídico mais valioso de uma sociedade: o direito à vida.

Será um suplício acompanhar cada manhã do ocaso de um presidente cuja precariedade é ilimitada.

MBL e Vem Pra Rua decidem promover manifestações contra Bolsonaro

O MBL (Movimento Brasil Livre) e o VPR (Vem Pra Rua) marcaram para 12 de setembro um protesto nacional pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro. A convocação tem o apoio de políticos da direita não bolsonarista, sobretudo do Novo e PSL.

Os atos estão previstos para São Paulo, Brasília, Rio e Belo Horizonte.

Protagonistas no impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, os grupos vinham evitando organizar manifestações em meio à pandemia, mas as acusações de corrupção em compras de vacinas contra a Covid-19 agravaram a crise política e levaram os grupos a ampliar a pressão nas ruas.

De qualquer forma, o calendário de vacinação foi levado em conta para a escolha da data. Em São Paulo, por exemplo, a previsão do governo é a de vacinar todos os adultos até 15 de setembro. O uso de máscaras será obrigatório no protesto, segundo os organizadores.

Movimentos e partidos de esquerda vêm promovendo protestos nacionais pelo impeachment desde maio —foram três edições até agora, a mais recente no último dia 3. Mas MBL e VPR não aderiram às manifestações encabeçadas pela Campanha Nacional Fora Bolsonaro.

Apesar da ampliação do escopo de organizadores e apoiadores dos atos de esquerda, que chegaram a incluir grupos e siglas do centro e da direita, como a ala paulistana do PSDB e movimentos como Agora! e Livres, a avaliação dos movimentos de direita é a de que as manifestações são “marcadamente vermelhas”, apoiam a candidatura de Lula (PT) em 2022 e, por isso, seria melhor marcharem separadamente.

Parte dos opositores de Bolsonaro, como o diretório do PSDB da capital paulista; o presidente do Cidadania, Roberto Freire; o presidente do PSL-SP, Junior Bozzella; e o Livres apoiam as convocações tanto da esquerda como da direita —estiveram nos atos do último dia 3 e prometem comparecer no dia 12 de setembro.


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