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Segunda-Feira 16.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Depoimento reforça que presidente da República sabotou vacinação

‘Caguei para a CPI. Não vou responder nada’, diz Bolsonaro

Postado em 09 de Julho de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), DW, Estadão (Editorial) – Edição Semana On

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O depoimento de Francieli Fantinato, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, à CPI da Covid, no último dia 8, reforçou que o presidente Jair Bolsonaro sabotou a vacinação para a covid-19 no Brasil.

Ela afirmou que apesar de ser "meio efetivo para controle da pandemia", a execução da estratégia nacional de imunização foi politizada negativamente "por meio do líder da nação que traz elementos que muitas vezes [o] colocam em dúvida".

Segundo ela, o Brasil não teve doses de imunizante o suficiente, que poderiam evitar mortes pela doença, nem campanha publicitária efetiva para informar a população a respeito das vacinas.

"Faltou para o PNI, sob a minha coordenação, quantitativo suficiente para a execução rápida de uma campanha [de vacinação], e campanhas publicitárias para a segurança dos gestores, profissionais de saúde e população brasileira", disse aos senadores.

Infelizmente, Francieli Fantinato está parcialmente equivocada ao afirmar que não houve campanhas publicitárias voltadas a profissionais de saúde e à população brasileira. Houve sim, mas ao invés de incentivarem o distanciamento social, o uso de máscaras e explicarem a importância da vacinação, preferiram empurrar as pessoas à livre contaminação e recomendar o chamado remédios inúteis para a covid-19.

E o principal "garoto propaganda" foi o próprio presidente da República.

Há farto material comprovatório de que o governo usou sua máquina de comunicação para sabotar vacinas e as medidas adotadas por governadores e prefeitos no combate à doença. Por exemplo, Bolsonaro tem aproveitado suas viagens de campanha pré-eleitoral pelo Brasil, custeadas graças a nossos impostos, para atacar vacinas.

Foi assim no ano passado quando afirmou, em viagem à Bahia, que o imunizante da Pfizer transformaria brasileiros em "jacarés", enquanto seu governo ignorava a oferta de milhões de doses do produto que poderiam ter sido entregues em 2020. Ou quando atacava a "vachina", desenvolvida pela CoronaVac e produzida pelo Instituto Butantan, dando subsídios para os malucos que acreditam em teorias da conspiração acreditassem que ela inoculava microchips nas pessoas.

E é assim agora. Falando em uma igreja evangélica, em Anápolis (GO), no dia 9 de junho, em mais um ato pré-eleitoral, Jair mentiu sobre as vacinas contra a covid-19, afirmando que elas não têm comprovação científica. E comparou imunizantes à cloroquina, dizendo que ambos estão em "estado experimental".

"[Cloroquina e ivermectina] não têm comprovação científica. E eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está experimental. Mentira: nem as vacinas estão em fase experimental (já tendo sido aprovadas), nem a cloroquina está (tendo sido rejeitada pela comunidade científica para a covid).

Outro exemplo é o fato de a Secom, a Secretaria de Comunicação Social do governo federal, ter contratado influenciadores para defender o "atendimento precoce", ou seja, a adoção de remédios inúteis para a doença como a cloroquina e a ivermectina. Ou a campanha da própria Secom, proibida pela Justiça, em março do ano passado, com peças batizadas de "O Brasil não pode parar", que tentava mandar trabalhadores à rua em meio à primeira onda de covid-19, repetindo a fracassada campanha d prefeitura de Milão - que levou ao aumento no número de casos por lá.

Faz parte dessa campanha o uso de quaisquer estruturas públicas pelo presidente da República para transmitir ideias negacionistas, menosprezando a gravidade da doença. Vale lembrar que Bolsonaro tachou a covid-19 de "resfriadinho" e "gripezinha" em um pronunciamento oficial de rádio e TV.

Amparado pelas avaliações do "ministro paralelo" da Saúde, Bolsonaro preferiu apostar no incentivo à rápida contaminação da população em busca da fantasia da imunidade de rebanho. Ela não veio, mas a fatura dessa estratégia tresloucada chegou: 528 mil mortos - e subindo.

Não é que ele simplesmente se omitiu. Se fosse assim, o prejuízo humano e econômico teria sido menor. Ele deliberadamente agiu pela infecção ampla da população, fazendo campanha contra as vacinas e em nome do negacionismo.

Vemos agora, pelas descobertas da CPI da Covid, que o negacionismo quanto aos imunizantes também pode ter sido um bom negócio para aliados do presidente através de cambalachos realizados visando à compra, a toque de caixa, da indiana Covaxin, apesar de ser mais cara do que a da Pfizer.

Questionado pela comissão se as denúncias de irregularidades feitas a ele pelo deputado federal Luiz Miranda (DEM-DF) sobre a aquisição da vacina eram verdade e o que ele fez a partir disso, Bolsonaro respondeu em sua live semanal, nesta quinta: "caguei".

Infelizmente, sabemos disso. E foi sobre todos nós.

"Caguei para a CPI. Não vou responder nada", diz Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro reagiu de maneira agressiva e vulgar na noite de quinta-feira (08) ao pedido de esclarecimentos enviado pela cúpula da CPI da Pandemia. "Sabe qual a minha resposta? Caguei. Caguei para a CPI. Não vou responder nada!", disse Bolsonaro durante sua live semanal.

Em uma carta endereçada ao Planalto mais cedo, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), o vice-presidente, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e o relator Renan Calheiros (MDB-AL) pediram que o presidente se manifestasse sobre o depoimento do deputado Luis Miranda (DEM-DF) a respeito do caso Covaxin.

Durante a live, Bolsonaro usou xingamentos como "imbecil", "hipócrita", "analfabeto" e "saltitante" ao se referir à cúpula da CPI.

Há duas semanas, o deputado Luis Miranda e seu irmão, o servidor da Saúde Luis Ricardo Miranda, disseram à CPI que houve uma pressão atípica dentro do Ministério da Saúde para agilizar o processo de liberação para compra da vacina indiana Covaxin. Os irmãos afirmaram que alertaram Bolsonaro sobre problemas no contrato, e que o presidente teria prometido acionar a Polícia Federal, mas nenhum inquérito foi aberto após a conversa.

O deputado Miranda também afirmou em seu depoimento que Bolsonaro teria dito na ocasião que a Covaxin era um "rolo" do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR).

Mesmo antes de entrar no radar da CPI, a vacina indiana já levantava questionamentos por causa do seu preço (15 dólares, a mais cara de todas as vacinas compradas pelo Brasil), a velocidade com que o governo fechou o negócio (em contraste com outros laboratórios, como a Pfizer), a falta de aval da Anvisa (Bolsonaro afirmou em 2020 que não compraria vacinas não autorizadas pela agência) e pelo fato de a compra não ter sido feita diretamente com a fabricante, mas com uma empresa intermediária, a Precisa.

Além de estarem no alvo da CPI, as negociações para aquisição da Covaxin são investigadas pelo Ministério Público Federal, pela Polícia Federal e pelo Tribunal de Contas da União. Na sexta-feira passada, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou ainda a abertura de um inquérito contra Bolsonaro para investigar se ele cometeu o crime de prevaricação ao ignorar denúncias sobre as negociações de compra da vacina indiana Covaxin.

Nos últimos dias, diante do aumento da pressão exercida pela CPI e sucessivos escândalos na gestão da pandemia, Bolsonaro tem lançado mão de factoides e outras táticas diversionistas para manter sua base mobilizada e tirar o foco dos problemas na Saúde. Nesta quarta-feira, por exemplo, ele fez novos ataques ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas e disse "ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições".

Covaxin deve ser vista com o nariz, não com os olhos; o odor é insuportável

Espanta que o contrato de compra de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin tenha sido apenas suspenso. Ou a transação é cancelada rapidamente ou Bolsonaro terá de mudar o lema do seu governo. Sai o "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos." Entra o "Quanto eu levo nisso?"

Contratos como esse só existem nas ilicitocracias do tipo em que se transforma a democracia brasileira. Um regime comandado há anos por gestores que têm a suspeição como regra, o lobby como programa e a propina como sistema.

A compra da Covaxin, realizada em fevereiro, deve ser olhada com o nariz, não com os olhos. Exala um odor insuportável desde a assinatura. E fica ainda mais malcheirosa a cada nova revelação.

Havia três empresas metidas na transação: a Bharat Biotech, da Índia, fabricante de uma vacina adquirida sem o aval da Anvisa; a Precisa, do Brasil, atravessadora que atuou como intermediária do negócio a despeito de ostentar uma ficha suja no Ministério da Saúde; e a Madison Biotech, situada em Singapura, que receberia os pagamentos mesmo não tendo sido mencionada no contrato. Tudo muito acintoso.

Descobre-se agora uma quarta logomarca, a Envixia, sediada nos Emirados Árabes. Teria sido contratada pelo fabricante indiano da vacina para cuidar do registro e da comercialização do produto no Brasil. Ora, esse era, presumivelmente, o papel da brasileira Precisa Medicamentos.

Guiando-se pelo olfato, já farejaram a radioatividade moral do contrato de compra da Covaxin o Ministério Público Federal, a Polícia Federal e o Tribunal de Contas da União. O pior cego nessa história é aquele que não sente o cheiro. O Ministério da Saúde ainda mantém reservada a cifra destinada ao pagamento das vacinas indianas: R$ 1,6 bilhão. É como se o governo confundisse dinheiro público com dinheiro grátis.

Não é só negacionismo

O depoimento de Roberto Ferreira Dias, ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, à CPI da Covid teve uma série de incongruências, que levaram o presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), a decretar a sua prisão sob a acusação de crime de perjúrio. Horas depois, mediante pagamento de fiança, Roberto Ferreira Dias foi solto.

A sessão de quarta-feira passada foi marcada por informações contraditórias e inverossímeis. A história que Roberto Ferreira Dias contou a respeito do encontro, num shopping de Brasília, com o policial militar Luiz Paulo Dominghetti – que o acusou de pedir propina de US$ 1 por dose de vacina – fere a lógica e o bom senso. O exercício de cargo público deve envolver um mínimo de seriedade na prestação de contas à sociedade.

Mas, apesar de atribulada, a sessão do dia 7 foi muito proveitosa, trazendo informações valiosas sobre o objeto central de investigação da comissão. Trata-se de entender como o Executivo federal foi capaz de dar uma resposta tão equivocada, atrasada e omissa a tema tão grave e urgente, que afetou e continua a afetar a vida de todos os brasileiros.

Na sessão da CPI de quarta-feira passada, dois temas adquiriram especial materialidade. Em primeiro lugar, a cada revelação sobre o modus operandi do governo Bolsonaro, tem-se a impressão de que existe, na pasta da Saúde, uma espécie de briga entre quadrilhas. Há ainda muito a ser investigado, mas o que veio a público até agora em nada se assemelha ao que deve ser o funcionamento da administração pública, especialmente no meio de uma pandemia, com recursos escassos e urgentes necessidades.

Esse modus operandi, envolvendo acusações mútuas e até relatos de dossiês secretos, é especialmente escandaloso diante da constante afirmação de Jair Bolsonaro de que a corrupção na esfera federal seria coisa do passado. Com o que a CPI da Covid tem revelado, a jura de probidade ganha ares não apenas de engodo, mas de tática para intimidar os órgãos de controle. 

O segundo tema sobre o qual a sessão da comissão de quarta-feira passada jogou luzes envolve diretamente o item mais decisivo para a saúde dos brasileiros e para a economia do País neste momento: as vacinas contra covid.

Antes da CPI, já era evidente que o governo Bolsonaro retardou a compra de vacinas. Mas, até então, os motivos desse atraso não eram muito conhecidos. Atribuía-se tanto ao negacionismo bolsonarista, que chamava de gripezinha a doença que matou mais de meio milhão de brasileiros, como à rivalidade política do Palácio do Planalto com o governador de São Paulo. Jair Bolsonaro parecia preferir privar os brasileiros da vacina produzida pelo Instituto Butantan a reconhecer os méritos de João Doria no combate à pandemia.

Agora, esses dois motivos não perderam validade, mas ganharam uma dimensão um tanto secundária. Não é que o governo Bolsonaro não quisesse simplesmente comprar vacina. A CPI da Covid tem mostrado intensas negociações de vacinas.

A questão é, portanto, de outra ordem. Os elementos trazidos até agora revelam que o governo Bolsonaro nutriu especial preferência por algumas vacinas não em razão de sua eficácia – basta ver o tratamento dado aos e-mails da Pfizer –, mas pelo modo como elas eram negociadas. Aqui também há ainda muito a ser investigado, mas os indícios mostram especial presteza em negócios sobre vacinas com potencial de propina. Os intermediários do governo Bolsonaro demoraram para responder à farmacêutica americana, mas não tiveram empecilhos para conversar sobre compra de vacinas com terceiros num shopping de Brasília, fora do horário de expediente.

É um equívoco pensar que a sessão da CPI de quarta-feira passada envolve apenas funcionários de terceiro escalão. Jair Bolsonaro sempre se mostrou próximo e atento à questão das vacinas, dando-se ao trabalho, por exemplo, de explicar em suas redes sociais quais vacinas o governo federal nunca compraria. A CPI da Covid tem ainda muito a elucidar. O trabalho está apenas começando.


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