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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Com ameaça de golpe eleitoral, Bolsonaro esconde rachadinha e corrupção

Presidente chama Barroso de idiota e volta a ameaçar eleições de 2022: 55% consideram que ele não aceitará resultado das urnas

Postado em 09 de Julho de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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Acuado por gravações, reveladas pelo UOL, que indicam que embolsou salários de servidores de seu gabinete quando deputado federal e pelas denúncias de corrupção envolvendo seu governo no processo de compra de vacinas contra covid-19, Bolsonaro ameaçou novamente os brasileiros, no último dia 8, com um golpe de Estado no ano que vem. Tá ficando chato de tão repetitivo.

A tática é uma junção do útil com o agradável - para ele, claro. Mistura uma cortina de fumaça manjadérrima com a ameaça de derrubar a democracia no ano que vem, tendo sucesso naquilo que Donald Trump falhou ao tentar reverter a derrota eleitoral no grito. A cada surto autoritário, Jair aumenta um pouco a bizarrice para causar espanto. Agora, ele diz que as eleições podem nem acontecer.

Afirmou aos seus seguidores em frente ao Palácio do Alvorada que "ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições". Parte de uma premissa mentirosa (que as eleições não são limpas no Brasil porque não há voto impresso) e coloca em risco o processo de escolha do próximo presidente. A possibilidade de alternância de poder é um dos pilares da democracia, não que ele se importe com isso.

Em suma, para Bolsonaro, eleições limpas são as que ele ganha.

A nova ameaça vem no momento em que as denúncias já pesam sobre sua imagem. Pesquisa Datafolha, divulgada no último dia 8, aponta que ele atingiu a maior reprovação desde o início do mandato: 51%. A aprovação continua no mínimo histórico, 24%.

Jair passou quase três décadas sendo reeleito como um parlamentar come-xinga-dorme-xinga, sem ter aprovado um projeto de lei relevante. Enquanto era reconduzido a cada quatro anos à possibilidade de coletar rachadinhas, não questionou a lisura das eleições para deputado federal no Rio de Janeiro.

Parece a criança mimada que sempre ganhou os jogos que disputou e quando percebe que há uma chance de perder, diz, de antemão, que o resultado será roubado se não for do jeito dele. Quando a gente jogava disputadas peladas ou partidas de taco na rua de terra ao lado da casa onde cresci, meninos de nove anos tinham muito mais dignidade que isso.

Bolsonaro despejou esse chorume durante a eleição de 2018 de forma preventiva. Desde então, tem dito que a venceu no primeiro turno. "Pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno mas, no meu entender, teve fraude", afirmou em março de 2020. Nunca mostrou nada. Pior, diz que quem tem que apresentar provas de que a eleição não foi roubada é o Tribunal Superior Eleitoral.

O equivalente a acusar alguém de ladrão e cobrar da pessoa a prova de que é honesta.

Os sucessivos ataques à urna eletrônica querem preparar terreno para uma derrota em 2022, excitando seus seguidores civis mais fiéis e deixando suas tropas de policiais simpatizantes de prontidão. A impressão do voto, para ele, tem o objetivo de criar mais uma forma de questionar a eleição, não de melhorar a sua segurança.

Ao mesmo tempo, como já dito, usa o bafafá para afastar as denúncias de peculato, corrupção e prevaricação que abundam sobre ele e aliados.

A repetição dessas ameaças já causa impactos na sociedade. A maioria da população (55,4%) acredita que os candidatos derrotados à Presidência da República, na eleição do ano que vem, não aceitarão o resultado, segundo pesquisa CNT/MDA, divulgada na segunda (5). Claro que o único pré-candidato que tem indicado sistematicamente que não aceitará nada que não seja a sua própria eleição é o próprio Bolsonaro. É ele o sujeito oculto da pesquisa.

Em 1º de julho, o presidente havia prometido não entregar o cargo se perder com eleições fraudadas. Contudo, deixou claro que vai considerar fraudada uma eleição em que Lula vencer. "Eu entrego a faixa presidencial a qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não. Para o Brasil, agora: tiraram o Lula da cadeia. Os crimes são inacreditáveis. Tornaram um ladrão elegível. No meu entender, para ser presidente na fraude, porque, no voto, ele não ganha, não ganha de ninguém. Então, não vou admitir um sistema fraudável de eleições", afirmou em sua live semanal.

A mesma pesquisa CNT/MDA aponta que, no primeiro turno, Lula teria 41,3% das intenções de voto, Bolsonaro, 26,5%, Ciro e Moro, 5,9% cada. Na disputa de segundo turno, Lula venceria Bolsonaro por 52,6% a 33,3%, e Ciro ganharia do atual presidente por 43,2% a 33,7%.

Se Bolsonaro gastasse a quantidade de tempo em que passa atuando por sua reeleição (seja ameaçando golpes, seja viajando com nosso dinheiro para fazer campanha pré-eleitoral, seja promovendo carreatas em sua própria homenagem) fazendo algo útil, como o combate à covid-19, milhares de brasileiros não teriam morrido e milhões não teriam perdido o emprego.

Mas aí não seria Bolsonaro, esse moleque mimado que pensa primeiro em si mesmo. O pequeno Jair deve estar morrendo de medo do que vai acontecer se ele amanhecer em Primeiro de Janeiro de 2023 sem a imunidade presidencial. Pena de quem mora neste país.

Após ameaça de Bolsonaro, 55% creem que resultado das urnas não será aceito

A maioria da população (55,4%) acredita que os candidatos derrotados à Presidência da República, na eleição do ano que vem, não aceitarão o resultado, segundo pesquisa CNT/MDA, divulgada no último dia 5. Enquanto isso, 30,5% avaliam que eles aceitarão o resultado das urnas. Isso demonstra que o país já espera um clima tenso após o pleito de 2022.

Na pergunta, o levantamento pediu para o entrevistado considerar que o sistema de votação continuará como está, sem a adoção do voto impresso, o que é o mais provável de acontecer.

A pesquisa também identificou que 58% defendem que a impressão do voto pode tornar a urna mais confiável, em detrimento a 34,9% que acreditam que o sistema atual já é seguro. Mas 32,9% tem confiança elevada nas urnas eletrônicas, 30,8% contam com confiança moderada, 15,8% tem confiança baixa e 18,7% não confiam.

O único pré-candidato que tem indicado sistematicamente que não aceitará um resultado que não seja a sua própria eleição é o presidente Jair Bolsonaro. É ele o sujeito oculto da pesquisa.

Ao defender novamente o voto impresso, no dia 1º de julho, prometeu não entregar o cargo se perder com eleições fraudadas. Contudo, deixou claro que vai considerar fraudada uma eleição em que Lula vencer.

"Eu entrego a faixa presidencial a qualquer um que ganhar de mim na urna de forma limpa. Na fraude, não. Para o Brasil, agora: tiraram o Lula da cadeia. Os crimes são inacreditáveis. Tornaram um ladrão elegível. No meu entender, para ser presidente na fraude, porque, no voto, ele não ganha, não ganha de ninguém. Então, não vou admitir um sistema fraudável de eleições", afirmou em sua live semanal.

A mesma pesquisa CNT/MDA aponta que, no primeiro turno, Lula teria 41,3% das intenções de voto, Bolsonaro, 26,5%, Ciro e Moro, 5,9% cada. Na disputa de segundo turno, Lula venceria Bolsonaro por 52,6% a 33,3%, e Ciro ganharia do atual presidente por 43,2% a 33,7%.

Em março de 2020, sem apresentar evidências, Bolsonaro afirmou que havia sido eleito no primeiro turno de 2018, mas foi roubado. "Pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu fui eleito no primeiro turno mas, no meu entender, teve fraude", disse.

Nunca apresentou prova. Pior, diante da cobrança para mostrar os indícios de fraude, passou a dizer que é o Tribunal Superior Eleitoral quem deveria provar que não há fraude. O equivalente a acusar alguém de ladrão e cobrar da pessoa a prova de que é honesta.

Bolsonaro tem usado a ameaça de golpe de Estado tanto para jogar uma cortina de fumaça sobre as denúncias de corrupção sobre a compra de vacinas que recaem sobre seu governo quanto para preparar terreno para 2022. Quer seus fãs e seguidores prontos para fomentar o caos em caso de derrota.

A aderência do bolsonarismo entre soldados, cabos, sargentos e subtenentes nos quarteis da PM é significativa em todo o país, mais até do que nas Forças Armadas. Tanto que o presidente tem nesse grupo uma das bases de seu eleitorado. Não à toa, defende com unhas e dentes a aprovação do excludente de ilicitude e, sempre que pode, está presente em formaturas de policiais.

Uma pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em agosto passado, apontou que 41% dos praças da PM participavam de grupos bolsonaristas nas redes e aplicativos de mensagens, 25% defendiam ideias radicais e 12% defendiam o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso.

Imaginem o que pode acontecer se um presidente com grande influência sobre tropas policiais que conta com lideranças simpáticas a ele nos Estados resolver afirmar, após uma derrota em 2022, que a eleição foi roubada. Ele pode ter sucesso naquilo que Donald Trump falhou, com sua invasão ao Congresso norte-americano.

Não se trata de intervenção tradicional, mas de levantes policiais "contra a fraude" e em nome da "legalidade", puxando outras milícias armadas às ruas. Ainda mais porque Bolsonaro vem entregando à sociedade a possibilidade de comprar arsenais com decretos e portarias. A banda podre da polícia, as milícias, e o bolsonarismo-raiz agradecem.

O bolsonarismo tem um componente revolucionário. Mas ele não conta, neste momento, com força para adotar uma mudança através de um processo violento e agudo. Por isso, desde que assumiu o poder, vem minando ou sequestrando instituições, tornando-as flexíveis às suas necessidades de acúmulo e de manutenção do poder. Receita Federal, Coaf, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, por exemplo. E jogando desconfiança sobre outras instituições.

De tanto o presidente pregar contra a urna eletrônica baseado em provas inexistentes, a maioria da população já dá de barato que haverá gritaria sobre o resultado. Bolsonaro passou três décadas se elegendo parlamentar sem reclamar de fraude, agora usa a desculpa porque lhe convém.

É infantil o argumento, mas tem muito chinelo velho para esse pé cansado.

O terrível dessa história é que a confiança em sistema eleitoral vai indo para o vinagre por conta das necessidades pessoais de um único homem.

Bolsonaro pode ir embora em 2022, mas o impacto de seu desgoverno ficará por um bom tempo.

Bolsonaro chama Barroso de idiota e volta a ameaçar eleições de 2022

O presidente Jair Bolsonaro chamou Luís Roberto Barroso, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), de "idiota" e "imbecil" e voltou a ameaçar a realização das eleições de 2022 em conversa com apoiadores na manhã de hoje no Palácio da Alvorada.

Sem provas ou indícios, o presidente reiterou que o atual sistema eletrônico é passível de fraudes e que é preciso implementar o voto impresso. A insinuação infundada é a de que poderia haver fraude nas atuais urnas para derrotá-lo no ano que vem.

"Não tenho medo de eleições, entrego a faixa a quem ganhar, no voto auditável e confiável. Dessa forma, corremos risco de não termos eleições ano que vem. Futuro de vocês que está em jogo", afirmou.

Ele criticou a posição de Barroso contra o voto impresso. Em sua argumentação, o ministro diz que um dos principais problemas do voto impresso é de que ele poderia ferir o sigilo do voto.

"Resposta de um imbecil, lamento falar isso de uma autoridade do STF, só um idiota para fazer isso", disse Bolsonaro que, ao longo da conversa, ainda afirmou que era uma "vergonha" Barroso estar no STF.

Bolsonaro já havia feito a mesma ameaça em relação às eleições de 2022, dizendo que as eleições não poderiam acontecer se, em sua visão, não fossem limpas. Hoje, ele avançou em sua posição.

"Nós vamos ter eleições limpas, pode ter certeza. Eu não participar de fraude não quer dizer 'vou ficar em casa'. Não teremos eleições fraudadas em 2022", disse.

Desde a adoção das urnas eletrônicas no Brasil, em 1996, nunca houve comprovação de fraude nas eleições. Essa constatação foi feita não apenas por auditorias realizadas pelo TSE, mas também por investigações do MPE (Ministério Público Eleitoral) e por estudos independentes.

Além disso, as urnas eletrônicas são auditáveis e este procedimento é feito durante a votação. O processo é chamado Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas (ou "votação paralela"). Na véspera da votação, juízes eleitorais de cada TRE (Tribunal Regional Eleitoral) fazem sorteios de urnas já instaladas nos locais de votação para serem retiradas e participarem da auditoria.

Pelo menos desde março do ano passado, Bolsonaro tem afirmado possuir provas, embora não apresente, de fraude nas eleições de 2014 e de 2018. Sobre a primeira, ele afirma que o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) teve mais votos que Dilma Rousseff (PT), eleita naquele ano. A respeito de 2018, ele afirma que uma fraude o impediu de ter derrotado o candidato do PT, Fernando Haddad, ainda no primeiro turno.

No dia 21 de junho, o TSE deu prazo de 15 dias para que o presidente forneça provas das alegações sobre a segurança das urnas. O prazo, porém, só vencerá em agosto, devido ao recesso judicial. Ainda não houve resposta de Bolsonaro no processo.

Momento de pressão para Bolsonaro

A manifestação em tom ameaçador de Bolsonaro ocorre em um momento de pressão. Além do avanço nas investigações da CPI da Covid, pesquisa do Datafolha divulgada ontem mostrou rejeição recorde de 51% ao presidente desde que ele assumiu o cargo em 2019.

Na conversa com os apoiadores, Bolsonaro tentou novamente desqualificar institutos de pesquisa, sem apresentar qualquer indício, e tentou minimizar a suspeita de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin e da denúncia de pedido de propina do ex-diretor do Ministério da Saúde Roberto Dias.

Ele ainda voltou a chamar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de 'nove dedos' e disse que o possível rival na campanha eleitoral de 2022 só ganharia com fraude comandada pelo TSE.

"Se essa cambada voltar ao poder, toda semana vocês tinham dois, três casos de corrupção. Comigo agora, terceiro escalão teria negociado comprar vacina. Não foi gasto um centavo. Daí vem os institutos fraudados colocando o 9 dedos em cima [Lula]. Para que? Se confirmado, com voto fraudado no TSE. Não estou culpando todo servidor, mas na cabeça tema algo, porque não querem o voto auditável", disse.


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