Semana On

Quarta-Feira 29.set.2021

Ano X - Nº 461

Especial

Militares ameaçam a democracia

Vão fechar o Congresso, calar a imprensa, prender opositores? Até que ponto a caserna está disposta a ir pelo poder?

Postado em 09 de Julho de 2021 - Josias de Souza, Leonardo Sakamoto e Reinaldo Azevedo (UOL), Bela Megale (O Globo), Alisson Matos (Carta Capital), Jornal de Brasília, Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

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Na CPI da Covid, quando alguém menciona numa rodinha de conversa o envolvimento de militares no escândalo das vacinas é impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de suspeito. Entre oficiais da ativa e da reserva, frequentam o rol dos encrencados meia dúzia de patentes: um general, três coronéis e dois tenentes-coronéis.

Incomodado com o surgimento de fardas ineptas ou com fins lucrativos, o presidente da CPI, Omar Aziz, lastimou: "Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do governo."

Abespinhados, o Ministério da Defesa e os comandos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disseram que Aziz atacou as Forças Armadas de forma "vil", "leviana", "infundada" e, sobretudo, "irresponsável". Em nota oficial, a cúpula militar escreveu: "As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..." A resposta é tardia, desonesta e presunçosa. Em seguida, o Clube Militar também se manifestou chamando a CPI de ‘Circo’ e criticando a atuação do STF.

A reação chega tarde porque o silêncio das Forças Armadas diante da perversão já havia consolidado a sensação de cumplicidade com oficiais que grudaram na farda um código de barras. É desonesta porque desconsidera o apreço de Aziz pelo pedaço limpo das forças militares. "Quando a gente fala de alguns oficiais do Exército, é lógico, nós não estamos generalizando", declarou o senador. "De forma nenhuma, nós estamos entrando aqui no mérito que as Forças Armadas têm", acrescentou.

A nota da cúpula militar é presunçosa porque ameaça o Legislativo —"As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano..."— no pressuposto de que a democracia brasileira aceitaria desaforos. O presidente da CPI foi à tréplica: "Pode fazer 50 notas contra mim, não me intimida." O que farão agora os comandantes militares?

Não podendo estacionar seus tanques na entrada do Congresso, fariam um bem a si mesmos e às corporações que representam se utilizassem sua ira para condenar quem enlameia a farda. A alternativa seria aderir à retórica do capitão, que chama os rivais da CPI de "pilantras", "patifes", "picaretas"...

Depois, bastaria pendurar uma placa na entrada dos quarteis: "Diretório do PMB, Partido dos Militares do Bolsonaro". Não resolveria o problema. Mas diminuiria a taxa de cinismo.

Reação mais dura

Criticados por grande parte do Congresso Nacional, integrantes da cúpula das Forças Armadas prometeram uma reação “mais dura”, caso a CPI da Covid volte a fazer citações a suspeitas de corrupção envolvendo militares. Membros das Forças ouvidos pela jornalista Bela Megale afirmaram que “não aceitarão serem desrespeitados” pela CPI e que as próximas manifestações podem ter respostas mais críticas. Eles não detalham, porém, quais respostas seriam essas.

A expectativa da cúpula militar é que, após a manifestação pública de ontem, integrantes da CPI pensem duas vezes antes de fazer qualquer menção entre a instituição e as denúncias de corrupção na Saúde, que estão no centro das investigações. O presidente da comissão, o senador Omar Aziz, foi claro em dizer que suas declarações se referiam a alguns integrantes das Forças Armadas que atuam no governo, e não à instituição. 

Os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica não só referendaram como também participaram da elaboração da nota publicada ontem pelo Ministério da Defesa, em repúdio às declarações de Aziz sobre corrupção entre parte dos militares. O presidente Bolsonaro também passou boa parte do dia focado na articulação da resposta à comissão.

Aziz reagiu publicamente e disse que o ato é uma tentativa de intimidação ao Senado. Posteriormente, afirmou que não vai mais se manifestar sobre o caso. Durante o depoimento do ex-diretor do Departamento de Logística, Roberto Ferreira Dias, na quarta-feira (7), Aziz disse que “os bons das Forças Armadas devem estar envergonhados” pelo envolvimento de militares nas suspeitas de negociações de vacinas do Ministério da Saúde.

Ontem (8), Dias atribuiu ao ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, coronel Élcio Franco, a responsabilidade da compra de imunizantes na gestão do general Eduardo Pazuello. Hoje ambos ocupam cargos no Palácio do Planalto.

Nesta sexta-feira 9, em entrevista ao jornal O Globo, foi a vez do comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, sair em defesa da classe. Ele manteve a linha do discurso, reforçando a posição da nota da última quarta-feira.

Para Baptista Junior, a nota foi ‘dura, como deveria ser’, mas estaria longe de uma ameaça de golpe e foi apenas um ‘alerta às instituições’.

“Homem armado não ameaça. Não existe isso. Nós não vamos ficar aqui ameaçando”, respondeu ao ser perguntado sobre a possibilidade da nota ser um aviso do que estaria por vir.

O comandante disse ainda que caso sejam atacados novamente pela Comissão de Inquérito no Senado não enviarão outra nota e que usarão outros caminhos ‘legais’ contra os senadores. “Nós temos mecanismos dentro da base legal para evitar isso”, disse o tenente-brigadeiro do ar, que, no entanto, não quis fornecer detalhes de quais seriam estes mecanismos a serem usados.

Baptista Junior também falou sobre as suspeitas de corrupção envolvendo militares no governo de Jair Bolsonaro, alegando que os militares não irão “proteger ninguém que está à margem da lei”, mas que antes é preciso que a investigação tenha uma conclusão.

Reações

O ex-ministro da Defesa Celso Amorim considerou que a nota das Forças Armadas as colocam “potencialmente” no lado oposto das instituições democráticas. Em conversa com a Carta Capital o chanceler disse que o texto foi “acima do tom”.

“Considerei desnecessária [a nota]. A reação do senador depois dizendo que foi desproporcional é correta. Talvez o Omar não precisasse usar a expressão ‘banda podre’, porque parece que é todo um grupo, mas ele não generalizou. Ele não fez uma ofensa às Forças Armadas”, disse Amorim.

“A expressão ‘banda podre’ talvez não tenha sido a ideal, mas o que ele falou está nos jornais todo dia. É normal a manifestação [do parlamentar], mas é grave uma reação desse tipo”, acrescentou.

Para ele, que viu de perto como se deu o Ato Institucional número 5, o episódio não pode resultar em uma escalada de “reação em cima de reação”. “O Brasil não suporta outro AI-5”, aponta.

De acordo com o ex-ministro, “é preciso deixar claro que as Forças Armadas não estão acima de qualquer julgamento”.

“Ao deixar tantos militares ocuparem funções para os quais não estão capacitados, eles acabam se expondo a esse tipo de crítica”, declarou. “As Forças Armadas têm que se auto-preservarem, pois o ser humano é sujeito a tentações. Portanto, não devem ficar se metendo em qualquer coisa”, completou.

O chanceler ainda analisa que “este é um momento em que as Forças Armadas vão deixar claro se elas são do Estado ou do governo”.

“Quando deixam o presidente chamar de ‘meu Exército’ e entram em uma área que não conhecem, como a Saúde, eles estão sujeitos a esses comentários”, disse.

A democracia não aceitará intimidações das Forças Armadas

Organizações da sociedade civil repudiam a nota intimidatória publicada pelas Forças Armadas. O posicionamento público assinado por 54 entidades que integram o Pacto Pela Democracia, coalizão de organizações que atua em defesa dos valores democráticos no Brasil, ressalta que ao afirmar que “não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições”, o ministro da Defesa e os chefes das Forças Armadas transgridem fronteiras estruturantes de qualquer regime efetivamente democrático.

De acordo com a coalizão, a nota adotou um tom intimidatório não apenas em relação ao senador Omar Aziz, mas ao próprio Senado Federal, instituição cuja liberdade de atuação é vital para a saúde da nossa democracia. Em nota oficial, a rede Pacto Pela Democracia relembra que nos últimos anos a prática da intimidação dos poderes da República tem sido recorrente por parte das Forças Armadas. E alerta que hoje, os cargos políticos e da administração pública são ocupados por mais de seis mil militares.

De acordo com a Coordenadora Executiva do Pacto Pela Democracia, Flávia Pellegrino, “além de inconstitucionais, tais tentativas de intimidação são intoleráveis em uma democracia e precisam ser alvo de respostas firmes das instituições da República, sobretudo em um momento em que nosso regime democrático vem sendo ameaçado de forma cotidiana e sistemática pelo próprio governo federal e pelas forças a ele aliadas”.

Confira a nota na íntegra

A democracia não aceitará intimidações das Forças Armadas

Nós, cidadãs e cidadãos brasileiros, e entidades civis, vimos a público coletivamente repudiar e manifestar profunda preocupação sobre o pronunciamento veiculado pelas Forças Armadas na noite de 07 de julho de 2021. A nota expressa uma reação ao presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as causas da calamitosa gestão da pandemia de Covid-19 no Brasil, Senador Omar Aziz (PSD-AM), e ataca o próprio Senado da República, instituição cuja liberdade de atuação é vital para a saúde da nossa democracia. Ao afirmar que “não aceitarão qualquer ataque leviano às instituições” e prometer uma reação “mais dura”, caso a CPI volte a fazer citações a suspeitas de corrupção envolvendo militares, o ministro da Defesa e os chefes das Forças Armadas transgridem fronteiras estruturantes de qualquer regime efetivamente democrático.

Nos últimos anos, a prática da intimidação dos poderes da República tem sido crescente por parte das Forças Armadas no Brasil. Em 2015, o hoje vice-presidente Hamilton Mourão, então general do Comando Militar Sul, protagonizou uma séria crise ao criticar o governo federal. Em 2018, o comandante do Exército, General Villas Boas, proferiu uma grave ameaça ao STF, na tentativa de influenciar a decisão da Corte Suprema. Em 2020, o então ministro da Defesa, General Azevedo e Silva, participou de manifestações antidemocráticas.

Infelizmente, há uma confusão de papéis entre as Forças Armadas e o governo de Jair Bolsonaro atualmente, com um grave risco para a reputação e consistência das próprias Forças Armadas. Hoje, mais de seis mil militares ocupam cargos políticos e da administração pública brasileira. Postos políticos eminentemente civis estão sendo assumidos por chefes do Exército. Assim como os militares estão participando cada vez mais da política, a política tem entrado cada vez mais nos quartéis, autorizados por membros da alta cúpula, como o general da ativa Eduardo Pazuello, que frequentou ato político do presidente da República, sem ser punido, contrariando o regimento militar.

O governo federal, grande responsável pela desastrosa gestão da pandemia, que ceifou tantas vidas desnecessariamente, sob liderança, importante ressaltar, do já citado general Pazuello, tem se mostrado essencialmente autoritário, com ambições golpistas e contrárias ao regime democrático. E agora, sabemos com fatos, também um governo permeado por graves suspeitas de corrupção.

A política é uma arena de encontro e diálogo entre civis. A sombra das armas não pode e não deve estar presente nos tensionamentos naturais da vida pública. Ao mesclar-se com o governo federal e trazer para si o atual projeto político, as Forças Armadas ficam suscetíveis aos confrontos inerentes à vida democrática e rompem preceitos constitucionais ao proferirem ameaças dessa natureza.

As Forças Armadas vêm sinalizando obediência primeira ao presidente e a seu projeto político, e não ao País. Jair Bolsonaro reafirma diariamente seu compromisso em se manter no poder a qualquer custo. É fonte de grande preocupação da sociedade civil abaixo assinada as mãos dadas entre o autoritarismo do presidente e as armas dos militares. As instituições da República precisam responder à altura a fim de defender a democracia no Brasil.

Aonde vamos parar?

Às vésperas de completar 75 anos e se aposentar, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, viu com preocupação a atuação dos militares no governo de Jair Bolsonaro.

Em entrevista à Rádio Eldorado, ele condenou o envolvimento de integrantes das Forças Armadas na política. “Os militares devem estar na caserna, nos quartéis. Eles são militares do Estado e não do governo. Aonde vamos parar?”, ressaltou.

Questionado sobre possíveis riscos à democracia, Marco Aurélio respondeu que “o povo não quer golpe”.

Sobre a CPI, o ministro disse que é preciso tomar cuidado “para não extrapolar seus limites”, mas admitiu que “é latente a possibilidade de responsabilizar o presidente da República pelo negacionismo”.

Marco Aurélio, que conduziu em 1996 a primeira eleição com urna eletrônica, também criticou Bolsonaro pela pregação do voto impresso e auditável. “Eu só posso imaginar que ele esteja receoso de perder a eleição”, afirmou o ministro, após garantir que o sistema eletrônico de votação não está sujeito a fraudes.

Militares ameaçam Senado enquanto baixam a cabeça para Bolsonaro

Aziz não errou ao afirmar que "membros do lado podre das Forças Armadas estão envolvidos com falcatrua dentro do governo" e que os honestos devem estar muito envergonhados.

Toda categoria profissional, todo grupo social, tem pessoas honestas e desonestas. Negar isso é encarar a si mesmo como detentor de uma natureza divina.

Ao invés de tentar intimidar o Senado Federal com uma nota indignada que ameaça o Poder Legislativo, o ministro da Defesa e a cúpula das Forças Armadas gastariam melhor o seu tempo depurando suas próprias fileiras. Pois há militares que, com sua ação e inação, foram cúmplices tanto da montanha de 527 mil mortes por covid, como o general Eduardo Pazuello, quanto da corrupção na compra de vacinas.

Aziz não fez uma generalização, como está sendo acusado, apenas deixou claro o que todo mundo está vendo com os escândalos que estão sendo revelados pela CPI. Isso sem contar o envolvimento de militares em outros problemas, como grupos de milicianos no Rio de Janeiro.

"Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável", diz a nota. Mostra, dessa forma, o quanto ela está afastada dos fatos, pois a CPI está nadando em terabytes de dados e provas.

O texto termina dizendo que "as Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às Instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro".

Melhor fariam se, ao invés disso, afirmassem que não vão aceitar que militares sejam cúmplices na promoção de necropolíticas negacionistas ou se envolvam em negociatas de vacinas.

Troca de comando e a Pazuellada

A nota é exatamente aquilo que Bolsonaro esperava do ministro da Defesa, general Braga Netto, ao colocá-lo no lugar do general Fernando Azevedo e Silva em março. E ao provocar a substituição dos três comandantes das Forcas Armadas. Desejava alguém que saísse em sua defesa e em oposição a quem o fiscaliza e o investiga.

Enquanto isso, o Exército, a maior das forças, que também assumiu um papel de enfrentamento diante do Senado Federal, abaixou a cabeça para a Presidência da República ao absolver o general Eduardo Pazuello. O ex-ministro da Saúde ignorou as regras da corporação ao participar de uma micareta eleitoral com o presidente no Rio de Janeiro. Ficou por isso mesmo.

Uma das justificativas que circularam é que ajoelhar-se a Bolsonaro foi a saída encontrada para evitar um mal-estar que levaria à substituição do comandante do Exército por outro general que, por sua vez, se ajoelharia à Bolsonaro.

Na prática, Bolsonaro jantou o Exército de olho na sobremesa: o alinhamento de grandes contingentes das forças policiais às suas necessidades e uma possível insubordinação deles em relação aos governos estaduais. Devorador de instituições, o presidente vai dobrando-as em nome de seu projeto de poder. Tudo pensando nas eleições de 2022.

Lentamente, as instituições que não podem ser domesticadas pelo bolsonarismo vão sendo consideradas inimigas, tornando-se alvo de pedidos de fechamento por parte de seguidores fanáticos do presidente, como é o caso do Supremo Tribunal Federal.

O Congresso Nacional era apontado constantemente como um desses inimigos. Em abril do ano passado, um ato golpista, realizado em frente ao quartel-general do Exército, com a participação do presidente da República, pedia um novo AI-5 contra os parlamentares.

A pancadaria contra o Congresso foi bastante reduzida após o acordo de aluguel de Bolsonaro com o centrão ser firmado com a eleição de Arthur Lira (PP-AL) à Presidência da Câmara dos Deputados. Mas a CPI da Covid é um espaço em que o bolsonarismo é minoria. E isso enfurece Jair.

Ao divulgar a nota, o comando das Forças Armadas acaba não protegendo os seus, muito menos a imagem positiva que elas têm junto à maioria da população, mas os interesses de Bolsonaro.

Poderiam atuar para evitar que os militares se tornem engrenagens na máquina bolsonarista de moer gente e caráter. Poderiam.

O que diz a Constituição sobre quem fala pelos militares

O chefe das Forças Armadas, segundo a Constituição, é o presidente da República. É ele, e somente ele, quem em nome delas pode falar sobre temas políticos de repercussão geral. Como os trabalhos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Aos comandantes das três armas cabe falar sobre assuntos administrativos e os diretamente afeitos aos seus cargos. O comandante do Exército poderia esclarecer de quem partiu a ordem para fabricar cloroquina.

O Ministério da Saúde nega que tenha partido de lá.

Militar não é igual a civil. Militar tem acesso a armas pesadas, pilota tanque e é treinado para matar. O que um deles fala, soa diferente do que fala o civil. Porque um tem a força que pulveriza o inimigo. O outro, só a força da palavra.

Ao contrário do que afirma o presidente da República, não são os militares que em qualquer parte do mundo decidem como o povo deve viver. Nas democracias, submetidos ao poder civil, é o povo por meio do voto que decide.

Os militares só decidem a sorte do povo onde não há liberdade, e eles mandam diretamente ou por interposta pessoa É o que Bolsonaro gostaria que acontecesse por aqui, e vive a repetir.

Por que os militares apoiam e apoiarão Bolsonaro até o fim

O que diz sobre a capacidade de avaliação dos comandantes militares brasileiros o apoio que deram a Jair Bolsonaro para que se elegesse presidente, e que dão para que governe?

Eles conheciam o candidato melhor do que ninguém. Como soldado, ele se distinguiu nas atividades atléticas, especialmente em corridas de curta distância. Ganhou o apelido de “Cavalão”.

Uma vez salvou um colega de morrer afogado. Foi garimpeiro enquanto vestia a farda, o que era proibido. Planejou atentado à bomba em quartéis para reclamar por melhores salários.

Processado no Superior Tribunal Militar, negociou seu afastamento do Exército em troca da patente de capitão. Não pôde mais frequentar ambientes militares, e nem seus filhos podiam.

Em depoimento ao núcleo de pesquisas da Fundação Getulio Vargas, o general Ernesto Geisel, o terceiro presidente da ditadura de 64, classificou Bolsonaro de “um mal militar”. Foi o que ele foi.

Limitado intelectualmente, sem nunca ter lido um livro como admitiu e disso se orgulha, entrou para a política como um lobista informal das Forças Armadas que não o reconheciam como tal.

Elegeu-se e se reelegeu sete vezes como deputado federal do baixo clero. Na Câmara, jamais ocupou posição de destaque, ou presidiu alguma comissão ou aprovou um único projeto.

Treze candidatos disputaram a eleição presidencial de 2018 – entre eles, três que haviam governado Estados, três ex-ministros, um ainda senador e outro empresário.

Por que os comandantes militares, liderados à época pelo general Eduardo Villas Bôas, preferiram apoiar Bolsonaro a qualquer outro nome? Logo Bolsonaro, que conheciam tão bem?

Simples. Porque ele tinha mais chances de impedir a volta da esquerda (Lula-Haddad) ao poder, e também da centro-esquerda (Ciro Gomes). Porque com Bolsonaro, eles voltariam ao poder.

Era um despreparado? Sempre souberam que sim. Jamais imaginaram outra coisa. Mas ele seguiria suas ordens, supunham; abriria espaço para eles no governo; privilegiaria suas pautas.

Generais veem soldados e oficiais como pessoas que lhes devem obediência. Missão dada, missão cumprida. A missão dada a Bolsonaro resumia-se a isto: esquerda, nunca mais!

Não há militares de esquerda em nenhuma das três armas. Houve até 64 quando os poucos acabaram expurgados. A formação dos militares é pela direita, sempre foi, não é de hoje.

De resto, sentem-se superiores aos civis e julgam-se donos da última palavra quando enxergam ameaças à República que proclamaram por meio de um golpe. São patriotas, os civis menos.

Alguns entre eles começam a reconhecer que fizeram uma má escolha ao apoiarem o capitão anarco-sindicalista – mas são poucos os que batem no peito em sinal de sincero arrependimento.

Se no ano que vem, Bolsonaro despontar como nome capaz de vencer outra vez, esquecerão seus clamorosos crimes e o seguirão em massa como boas e pacíficas ovelhas com porte de arma.

É o poder, o poder que move os homens. Poder de mandar e de ser atendido. Poder de vir a ter seus desejos satisfeitos.

Para reiterar: o Haiti não é aqui

Absurda, golpista e mentirosa a nota do Ministério da Defesa.

Em primeiro lugar, Aziz não atacou as Forças Armadas, mas as defendeu.

Em segundo lugar, quem dispõe de armas não pode fazer ameaças. Ainda mais em nome da democracia. Se algum fundamento da Carta é violado, deve recorrer à Justiça, não aos canhões.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, indago: de que trecho da fala do senador os militares discordam?

Vamos recuperar o que ele disse quando Roberto Ferreira Dias, ex-diretor de Logística da Saúde, afirmou ter sido sargento da Aeronáutica:

"Olha, eu vou dizer uma coisa: as Forças Armadas, os bons das Forças Armadas, devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia. Porque fazia muito tempo, fazia muitos anos, que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua dentro do Governo. Fazia muitos anos".

E acrescentou:

"Aliás, eu não tenho nem notícia disso na época da exceção que houve no Brasil, porque o [João Baptista] Figueiredo morreu pobre; porque o [Ernesto] Geisel morreu pobre; porque a gente conhecia... E eu estava, naquele momento, do outro lado, contra eles. Uma coisa de que a gente não os acusava era de corrupção. Mas, agora, Força Aérea Brasileira, coronel [Gláucio Octaviano] Guerra, coronel Élcio [Franco], general [Eduardo] Pazuello... E haja envolvimento de militares".

Como se pode perceber claramente, o senador distingue as instituições de eventuais maus militares. É tão generoso que poupa até próceres da ditadura de acusações de malfeitos. A nota de Braga — e não é a primeira vez que o vemos flertar com respostas heterodoxas —, com o endosso dos três comandantes, acaba, na prática, por misturar os maus e os bons porque todos unidos pelo uniforme.

E olhem que Aziz poderia ter citado outros tantos. Vamos à resposta, que traz embutida a ameaça de uma intervenção, também chamada de golpe:

O Ministro de Estado da Defesa e os Comandantes da Marinha do Brasil, do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira repudiam veementemente as declarações do Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, Senador Omar Aziz, no dia 07 de julho de 2021, desrespeitando as Forças Armadas e generalizando esquemas de corrupção.

Essa narrativa, afastada dos fatos, atinge as Forças Armadas de forma vil e leviana, tratando-se de uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável.

A Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira são instituições pertencentes ao povo brasileiro e que gozam de elevada credibilidade junto à nossa sociedade conquistada ao longo dos séculos.

Por fim, as Forças Armadas do Brasil, ciosas de se constituírem fator essencial da estabilidade do País, pautam-se pela fiel observância da Lei e, acima de tudo, pelo equilíbrio, ponderação e comprometidas, desde o início da pandemia Covid-19, em preservar e salvar vidas.

As Forças Armadas não aceitarão qualquer ataque leviano às Instituições que defendem a democracia e a liberdade do povo brasileiro.

Walter Souza Braga Netto - Ministro de Estado da Defesa
Almir Garnier Santos - Comandante da Marinha
Gen Ex Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira - Comandante do Exército
Ten. Brig. Ar Carlos de Almeida Baptista Junior - Comandante da Aeronáutica

Retomando

A nota é mentirosa porque tudo o que Aziz não faz é generalizar. Ao contrário. Quando diz que os bons das Forças Armadas têm motivos para se envergonhar, evoca aqueles que, então, seriam os princípios dos chamados setores castrenses.

A propósito: há ou não um excesso de militares envolvidos com o governo? Essa foi uma escolha. Quem se dedica à "fiel observância da lei" não faz ameaças só porque, afinal, dispõe de armas, não é mesmo? Jornalistas, caminhoneiros e açougueiros devem se zangar quando se aponta a existência de maus jornalistas, maus caminhoneiros e maus açougueiros?

Onde está o "ataque leviano" na fala de Aziz? Em apontar que há um excesso de militares comprometidos com um mau governo?

Se Braga Netto e os três comandantes já se esqueceram, eu lembro. Quando Pazuello assumiu a Saúde, a 16 de maio de 2020, os mortos por Covid-19 no país eram 14.962. Quando deixou a pasta, no dia 15 de março deste ano, a montanha de cadáveres somava 295.425 pessoas. Esse é o balanço dos 10 meses de um general da ativa à frente da Saúde. E ele continua no governo. Não foi para a reserva.

As lambanças que estão em apuração — a demora para fazer o acordo com a Pfizer, ações vergonhosas para a compra da Covaxin, esquema mirabolante que poderia ter resultado numa fraude bilionária no caso da Davati, negacionismo lunático — se deram sob as barbas de um general da ativa, que tinha como braço direito um coronel da reserva, ex-membro das forças especiais.

Bônus sem Ônus

O que quer dizer "as Forças Armadas não aceitarão"? Significa que recorrerão à Justiça ou que botarão os tanques nas ruas, os aviões no céu e os barcos ao mar para dizer quem manda? Significa que tentarão se desvencilhar dos maus em nome dos bons princípios ou que a eles vão se grudar numa reação de caráter corporativo, que ignora os fatos? Significa que vão se pautar, então, pela lei que dizem defender ou que, em nome da ordem legal, darão um golpe?

O que, exatamente, esses caras imaginavam? Que poderiam atuar como governo sem prestar contas? Que poderiam fazer o que bem entendessem, estivessem ou não os atos de acordo com a lei? Que poderiam ignorar padrões elementares de governança, e ninguém se atreveria dizer que são o que são? E, afinal, eles são... militares!

Aliás, seguem militares mesmo quando na reserva, como eles mesmo gostam de lembrar, razão por que têm o mais caro sistema de inatividade, bancado pelos cofres públicos — pelo conjunto dos brasileiros. Também por aqueles que morreram sufocados por falta de oxigênio em Manaus; e no Brasil inteiro, por falta de bom senso e decência.

Dizer o quê, senhores? É fácil ameaçar com um golpe. Nem é tão difícil dar um golpe. Impossível seria manter o golpe. Em nome de quais princípios? Quais heróis se alevantariam para dar a cara ao regime? Nessa prefiguração, que tamanho teria a montanha de cadáveres?

Militares brasileiros serviram no Haiti, como sabemos.

O Haiti, em muitos aspectos, é mesmo aqui.

Mas o Haiti não é aqui.


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