Semana On

Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Brasil

Intolerância em cena

Dois casos recentes mostram como a imprensa pode disseminar discursos de ódio e reforçar preconceitos. E porque é importante o incentivo a uma mídia democrática e que respeite o interesse público

Postado em 08 de Julho de 2021 - Radis

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Se a cobertura midiática sobre a captura de Lázaro Barbosa — fugitivo apontado como o autor da chacina de uma família de quatro pessoas, em Ceilândia (DF) — beirou o sensacionalismo em muitos momentos, ela foi também racista e preconceituosa, exacerbando a intolerância contra as religiões de matriz africana. Ao longo de mais de 20 dias, termos e expressões como “satanismo”, “magia negra” e “bruxaria” passaram a ocupar o noticiário de forma pejorativa, o que acabou alimentando uma onda de violência contra terreiros. Depois que veículos como G1, Jornal do Commercio e Jornal de Brasília compraram a versão da polícia de que o assassino sacrificava vítimas em “rituais satânicos”, lideranças religiosas denunciaram a ação agressiva dos agentes que invadiram pelo menos 10 templos na região, sob o falso pretexto de estariam servindo de abrigo ao foragido.

O G1 chegou a publicar uma foto de símbolos religiosos como se fosse um registro da casa de Lázaro.  Ao Correio Braziliense (19/6), o pai de santo André Vicente informou que as imagens eram, na verdade, do terreiro comandado por ele. Na reportagem, o religioso contou que o local havia sido alvo de buscas truculentas pela PM. Segundo seu relato, os policiais agrediram fisicamente o caseiro, quebraram objetos sagrados e danificaram o patrimônio. Em um abaixo-assinado (19/6), lideranças religiosas repudiaram os ataques que vinham ocorrendo. “Afirmamos veementemente que nossas tradições não têm relação com atos criminosos, e, mesmo que fossem praticados por alguma pessoa que pertencesse a uma tradição afro, não nos vincularia de maneira coletiva a atos e ações criminosas e desumanas”, reforçam. “Estes atos devem ser sempre atribuídos pela lei à pessoa civil”.

Serial killer, maníaco e psicopata foram outros adjetivos usados de modo pouco criterioso e inconsistente nas páginas dos jornais. Depois das muitas críticas, alguns veículos tentaram se retratar. O G1 apagou os posts em suas redes sociais, tirou os destaques no site e atualizou a reportagem para modificar o título e o texto. Outros portais aproveitaram para publicar excelentes análises. No Farol Jornalismo (18/6), Lívia Vieira e Moreno Cruz Osório discutiram a necessidade de a imprensa abandonar o mero jornalismo declaratório e realizar uma cobertura mais responsável. E no Intercept Brasil (29/6), Fabiana Moraes foi ao cerne da questão. “Essa cobertura exotificante e racista”, escreve ela, “tem impacto na integridade física e na existência de uma vasta população. Ela não se resume apenas aos povos de terreiros, mas a todas as pessoas e grupos entendidos como ‘desviantes’ pelo jornalismo”.

No final da operação que mobilizou um enorme aparato policial, o suspeito que carregava nas costas outros crimes foi encontrado e morto, em 28 de junho, na cidade de Águas Lindas. Quando cercado, Lázaro Barbosa atirou contra os agentes, que responderam com 125 disparos. Imediatamente, passou a circular nas redes sociais um vídeo divulgado no portal G1 que mostra policiais carregando um corpo que supostamente seria de Lázaro e depositando-o numa viatura do Corpo de Bombeiros.

Sikêra Junior e LGBTfobia

Até o início de julho, cerca de 30 empresas já haviam deixado de patrocinar o programa Alerta Nacional por conta de declarações homofóbicas de seu apresentador, Sikêra Junior. Produzido em Manaus e retransmitido pela RedeTV para todo o país, o programa se notabilizou pela postura agressiva do apresentador, que investe no “gênero televisivo mundo cão”, modo como Fábio Zanini definiu, em artigo publicado na Folha de S.Paulo (2/7), os programas que exaltam o trabalho da polícia, defendem a linha dura contra criminosos e tecem críticas aos defensores dos direitos humanos.

Em 25 de julho, ao criticar no ar um comercial da rede Burger King em que crianças celebram a diversidade nas famílias, Sikêra Junior declarou: "Vocês são nojentos. A gente está calado, engolindo essa raça desgraçada, mas vai chegar um momento que vamos ter que fazer um barulho maior. O comercial é podre, nojento”. A reação foi imediata. Nas redes, a campanha “Desmonetiza Sikêra”, articulada por diversos perfis, fez com que o programa perdesse 57% dos patrocinadores — o que o fez pedir desculpas: “exagerei” — mas não o livrou das consequências.

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública contra o apresentador pela prática do crime de homofobia, pedindo que Rede TV! e Sikêra Jr sejam condenados ao pagamento de R$ 10 milhões a título de indenização por danos morais coletivos — valor a ser destinado à estruturação de centros de cidadania LGBTQIA+. A ação também requer a exclusão da íntegra do programa onde a ofensa foi veiculada e que “tanto a emissora como seu apresentador sejam obrigados a publicar retratação pelos mesmos meios e mesmo tempo e em idêntico horário, especificando tratar-se de condenação judicial imposta nos autos da ação, devendo a referida postagem permanecer nos sites da empresa ré pelo prazo mínimo de um ano”, como noticiou o Correio Braziliense (28/6).


Voltar


Comente sobre essa publicação...