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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

Brasil, mostra a sua carteira

A sacralização do trabalho e a demonização da ociosidade.

Postado em 30 de Janeiro de 2015 - Rodrigo Amém

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Quando eu era garoto, costumava assistir ao Aqui Agora do SBT. Não que eu gostasse do programa. É que depois passava Chaves. Enfim. Numa das rondas policiais registradas no jornalístico populesco, um incidente ficou gravado na minha memória juvenil. O policial dava uma dura em um sujeito num beco de favela. De repente, o cidadão puxa do bolso um livreto de capa azul. Era sua carteira de trabalho. “Eu sou trabalhador! Tá aqui! Carteira assinada! Sou trabalhador! Não sou vagabundo, não!”

Eu nunca esqueci aquela reação que, na época, não fez qualquer sentido pra mim. Como uma carteira assinada poderia ser álibi para um crime? O que a minha cabeça de adolescente fã de séries policiais enlatadas não conseguia processar era a linha de raciocínio da defesa desesperada daquele rapaz.

Ele estava dizendo que crime é coisa de quem não trabalha. Ele, formalmente empregado, estaria ungido contra as tentações da bandidagem. Como grande parte da sociedade, ele associava integridade ética com ocupação profissional.

Durante a maior parte da história da civilização ocidental, trabalho era coisa de escravo, de servo. Trabalhar era meio que um castigo dos deuses para aqueles que nasceram sem sangue azul.

Nem sempre foi assim. Durante a maior parte da história da civilização ocidental, trabalho era coisa de escravo, de servo. Trabalhar era meio que um castigo dos deuses para aqueles que nasceram sem sangue azul. Foi o protestantismo de Lutero que criou a associação do trabalho com a nobreza de espírito. Afinal, se os operários acreditarem que trabalho é uma forma de oração, fica mais fácil construir templos.

E como toda tradição transmitida na forma de dogma e sob a ameaça de punição eterna, essa visão sacralizada do trabalho se sedimentou na cultura ocidental. E, se o trabalhador é o ideal de pureza, o ocioso tem que ser demonizado. Surge o arquétipo cultural do “vagabundo”.

Vagabundo, por definição, é o que não quer trabalhar. Mas, no imaginário popular, é mais que isso. Vagabundo é aquele que quer desfrutar de uma vida de prazeres sem os “sacrifícios do merecimento”. Vagabundo é o desonesto. É o bandido. E, é claro, a mulher solteira sexualmente ativa é vagabunda. Provavelmente porque nossa sociedade machista vê a certidão de casamento como a versão feminina da carteira de trabalho. Profissão: Esposa/Mãe/Dona de Casa. Vagabunda é quem usa saia curta e não casa.

Quando o cidadão sacudia sua carteira de trabalho como uma bandeira branca na frente dos policiais, ele estava reafirmando essa história secular de preconceito que divide a civilização entre bons e maus, produtivos e inúteis, puros e pervertidos. “Está escrito aqui que eu sou cidadão de bem, seu poliça. Não posso ser ladrão”.

Se não me engano, a matéria acabou com o homem dentro do camburão. Não fiquei se ele conseguiu provar sua inocência. “Às vezes, imagino ele assistindo depoimentos dos acusados do Petrolão e gritando para a TV: “Mostra sua carteira! Cadê sua carteira?! Quero ver sua carteira!”


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