Semana On

Sexta-Feira 30.jul.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Cadê o pé de meia que estava aqui?

Para onde vão as meias quando mais precisamos delas?

Postado em 07 de Julho de 2021 - Theresa Hilcar

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Cadê o pé de meia que estava aqui? O outro sumiu.  E as luvas, onde estão? Dos dois pares que tenho só consigo achar a mão esquerda. Não há lugar na casa que não tenha procurado. Em todas as gavetas, armários, debaixo dos móveis e nada.

Sou obrigada a vestir um pé de meia de cada cor e modelo diferentes, por baixo da bota. Ainda bem que não aparece, claro. Mas outro dia fui trocar o tênis que ganhei de presente, e fiquei um bom tempo despistando a vendedora que insistia em me fazer experimentar os dois pés. “Como senhorita? Estou com um pé de cada meia. Eu sei que é mês de festas juninas, mas a fantasia não fica bem dentro de uma loja”.

Durante anos venho questionando, por que as meias nunca conseguem ficar juntas? Deveriam ser inseparáveis já que são praticamente gêmeas. Mas não, com raras exceções, desde a primeira lavada elas iniciam uma fuga implacável. E sim, e antes que perguntem, eu dobro do jeito certo, uma dentro da outra.

No entanto, os cuidados parecem não ser suficientes. Chego a imaginar que existe um mundo secreto para onde vão todos as meias e luvas. Não encontro outra explicação. Ontem mesmo, em apenas um segundo, um dos pares que havia separado para calçar desapareceu como num passe de mágica.

Fiquei andando pela casa no chão gelado, com um pé calçado e outro descoberto, procurando a dita cuja. E como no frio tudo fica mais complicado, acabei desistindo. Conclusão, voltei a usar modelos distintos, com texturas e cores diferentes. E dane-se o rigor da aparência. Importante mesmo é evitar que o congelamento dos pés.

Aliás, estamos todos sujeitos a ser congelados nesta semana. Não me lembro de tempos tão frios há anos. Por isto mesmo, e pela primeira vez, fui em busca de um aquecedor portátil. Qual o quê. Percorri o centro da cidade na maioria das grandes lojas e não encontrei um mísero aparelho para minimizar o desconforto de noites geladas e banhos torturantes.

Foi aí que resolvi trocar a busca analógica e entrei nos sites da vida. Mas todos pedem oito dias para entrega. Acontece que o frio em Campo Grande vem em ondas. E nunca se sabe a duração. Pode ser que até a data da entrega ele já tenha ido embora e eu me arrependa da compra. Coisa que vem acontecendo com frequência, devo admitir.

Mas diante do sofrimento físico, do vento cortante e do receio de pegar uma gripe, porque velho adoece até com vento nas costas, resolvi improvisar um aquecedor. Comprei um saco de carvão e coloquei dentro da panela de barro e acendi o fogo com a intenção de criar um braseiro. Ora, se os antigos não dispunham de aquecedores elétricos e as lareiras eram projetos de luxo, com certeza tentavam se aquecer da forma mais prosaica, pensei, enquanto atiçava o fogo com uma vareta.

E lá fui eu carregando a panela de barro, coberta de brasas, pelo apartamento. No banheiro aqueceu o suficiente para lavar o cabelo e na sala me ajudou enquanto assistia um telejornal e fazia um chocolate quente. Depois disto, e temerosa de um desastre, resolvi largar a engenhoca de lado e dormir debaixo de cinco cobertores e um edredom.

Ao acordar pensei nas milhares de pessoas que não tem sequer um teto, nem uma coberta, ou um bom agasalho. E naqueles que não tem uma comida quente, uma sopa que seja, ou uma xícara de café com leite para aquecer o corpo. Lembrar disto, e perceber que temos muito mais que a maioria, ajuda a minimizar o frio cortante.

Agora vou correr e comprar ao menos um novo par de meias, talvez dois.  E torcer para que uma delas não fuja.


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