Semana On

Sábado 21.mai.2022

Ano X - Nº 488

Coluna

Não é amor, é cilada. Na verdade, é um consórcio

Sobre os áudios da ex-cunhada do presidente Jair Bolsonaro em relação à atuação do mandatário no esquema de rachadinhas nos gabinetes dos filhos políticos do Rio de Janeiro

Postado em 07 de Julho de 2021 - Rafael Paredes

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Ainda nos primeiros meses do governo do presidente Jair Bolsonaro, prefeitos do interior do país, que tinham votado no capitão, eram quase que unânimes: estavam decepcionados com a influência dos filhos do presidente no governo. Mas não era apenas uma influência. Vejamos.

Com o passar dos meses, a influência dos filhos voltou à tona. Não que o vereador carioca, o deputado federal por São Paulo e o senador pelo Rio de Janeiro tenham diminuído suas atuações, pelo contrário. Na época, essa ascendência ficou ainda mais em evidência com a aparente tentativa, gravada em vídeo, do pai presidente em intervir na Polícia Federal para protegê-los. O vídeo é de uma reunião interministerial que ocorreu em abril e divulgado em maio do ano passado.

Do começo do governo até agora, filhos viajaram com o presidente para fora do país, falaram pelo governo, demitiram e passaram pito em ministros e até no vice-presidente Hamilton Mourão. Um dos filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) quase ganhou de presente a embaixada nos Estados Unidos. Outro, o vereador Carlos Bolsonaro (REPUBLICANOS-RJ) atuou ativamente para garantir o patrocínio do Banco do Brasil a um site de fakenews. O filho mais novinho, Jair Renan, que ainda não entrou na política, leva empresários para falar com ministros e ganha presentes caros depois, como um carro elétrico, por exemplo.

A reunião gravada em vídeo foi disponibilizada pelo então ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello no âmbito do inquérito que investiga a possível intervenção de Bolsonaro. As imagens e os áudios apontam que a prioridade do presidente sempre foi preservar a família. Seria Bolsonaro um pai tão amoroso assim a ponto de colocar em risco sua carreira política? Não parece.

Não nos enganemos. Os Bolsonaros não são uma família, aquilo é um consórcio que administra uma empresa chamada mandatos políticos. A administração se serve de expedientes democráticos como a retórica, o discurso, a política, os votos, mas parece que se utiliza de algo a mais. Os Bolsonaros se elegem, contratam funcionários e se enriquecem confiscando parte dos salários dos servidores. Os áudios da ex-cunhada do presidente da República transporta Jair Bolsonaro para o centro da administração desse consórcio. Até aquele momento, a crise apenas abarcava o filho senador, Flávio Bolsonaro. 

Não é o vereador Carlos Bolsonaro que provavelmente gere para si um esquema de fakenews com recursos públicos e privados. Não é o senador Flávio Bolsonaro que possivelmente praticava o esquema de rachadinhas em seu gabinete, quando deputado estadual, e abrigava milicianos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Quem fazia isso era o consórcio. O consórcio que conquista e gere mandatos. E hoje, o consórcio atingiu o seu auge: um mandato presidencial.


Voltar


Comente sobre essa publicação...