Semana On

Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

O Brasil será Indígena ou não será Nada

O PL490 é o abortamento final de toda uma gente, de muitos futuros, de tantas miríades de vidas, de todo um país, de muitos mundos que viriam a ser

Postado em 07 de Julho de 2021 - Ricardo Moebus

Foto: Sérgio Lima/Poder360 Foto: Sérgio Lima/Poder360

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Grupos, povos, populações, agrupamentos, aldeamentos, aquilombamentos nas trincheiras de povos tradicionais ou indígenas, retomando, reinventando suas re-existências, seus mundos relacionais e cosmopolíticos, constituem agora, de forma decisiva, a guerrilha, ao mesmo tempo intensamente material, vivencial e semiótica, disputando com a própria vida, a validação de modos de existência, validação de modos de liberdade e libertação.

Seguem lutando pelo direito à diferença, direito à pluralidade, direito à biosociodiversidade, direito a divergir e continuar pensando fora da ordem e racionalidade dominantes, continuar vivendo fora da ordem e dominação do mundo da mercadoria, fora do mundo e da lógica do capital, fora do mundo e da lógica do megaextrativismo brutal, do agrominérioboçal.

Ser indígena hoje é de fato e concretamente abraçar a luta contra o Universalismo, o globalitarismo avassalador, luta contra o império do Um, império que avança na aniquilação da multiplicidade e da diversidade.

Ser indígena hoje na composição dos grupos denominados, de forma maniqueísta, como “índios isolados”, mas que podemos reconhecer como povos indígenas altamente integrados e conectados com os biomas onde vivem e resistem, invertendo esta lógica supremacista, considerando que isolados estamos nós, cada vez mais, apartados dos fundamentos de sustentação da própria vitalidade em Gaia.

São estes “índios isolados”, sua existência per si, seu modo de viver cantando e dançando ainda hoje, ainda agora, que acusam sem parar, de forma gritante, nosso equívoco, nosso real isolamento neste espelho invertido que representam, acusam a farsa de que outros mundos são impossíveis, denunciam o engodo, a mentira de que outras formas de viver seriam inviáveis, denunciam sobretudo nosso distanciamento da vida, nossa marcha para o abismo.

Por isso mesmo, encontram-se cada vez mais na mira da bala, do boi e da bíblia, que anseiam pelo extermínio, pela expansão monocultural, monoexistencial, monocrática, monoteísta, monopsíquica.

Os campos de monocultura estão também nas nossas cidades, nas nossas escolas e universidades. O território disputado, capturado, dominado pela monocultura é também o nosso corpo, a nossa mente, a nossa alma, o nosso desejo.

É por isso que não podemos apenas ficar assistindo ao avanço do projeto de lei 490 – PL490, que já foi aprovado na comissão de constituição e justiça, não podemos assistir a este golpe fatal sobre as próprias condições de garantia de nossos futuros múltiplos, como quem aprendeu a assistir passivamente a um big brother, apenas esperando quem será eliminado afinal.

Este PL490, precisa ser percebido, sentido, angustiado por cada um de nós, como o assassinato de nossos próprios futuros, o rapto, o sequestro de cada um de nós, no que somos e poderíamos vir a ser, na nossa potência de futuros em multiplicidades.

Este PL490 é o abortamento final de toda uma gente, de muitos futuros, de tantas miríades de vidas, de todo um país, de muitos mundos que viriam a ser.


Voltar


Comente sobre essa publicação...