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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

Sou ou não sou Charlie Hebdo

A crescente violência nos espaços urbanos e rurais não se traduz unicamente em violência física.

Postado em 30 de Janeiro de 2015 - Gerson Martins

Equanto o mundo lamentava e se manifestava nas ruas das grandes cidades por causa dos 12 mortos no Charlie Hebdo, o Boko Haram massacrava mais de  2000 pessoas. Equanto o mundo lamentava e se manifestava nas ruas das grandes cidades por causa dos 12 mortos no Charlie Hebdo, o Boko Haram massacrava mais de 2000 pessoas.

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Depois do atentado a redação do jornal francês Charlie Hebdo a onda de manifestação “Je suis Charlie” – Eu sou Charlie invadiu o mundo todo. Na mídia em geral, nas redes sociais foi muito comum se deparar com esta expressão. No consenso geral a expressão se traduz pela posição apoiadora da liberdade de imprensa e contrária a violência, ao terror. Um jornal nesse formato não aconteceria se o jornal francês fosse publicado no Brasil ou mesmo nos Estados Unidos. Toda e qualquer crítica ao sistema governamental no Brasil ou mesmo às doutrinas religiosas, assim como nos Estados Unidos são passíveis de repressão e silenciamento, seja diretamente por meio de sanções violentas patrocinados pelo sistema de segurança, seja de forma econômica por meio dos cortes nas verbas publicitárias. É importante não esquecer que a maior parte das verbas publicitárias em qualquer mídia no Brasil é patrocinada pelo poder público.

A questão gerou um novo posicionamento por parte de muitas pessoas pela expressão “eu não sou Charlie”. Isso se deve ao fato de que há atentados terroristas mais graves, maiores em outras partes do mundo que não têm o mesmo foco dado pela mídia em geral e tampouco atenção dos governos ocidentais, como é o caso do massacre ocorrido na Nigéria. Enquanto o mundo lamentava e se manifestava nas ruas das grandes cidades por causa dos 12 mortos no Charlie Hebdo, o Boko Haram massacrava mais de  2000 pessoas, majoritariamente mulheres, idosos e crianças na  cidade de Baga, na Nigéria. O presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, mandou suas condolências para as vítimas francesas e não fez qualquer referência ao massacre em seu país. Tampouco a mídia internacional mencionou ou deu atenção maior para este fato. Alguém soube ou ouviu falar sobre este massacre?

Afinal que “Eu sou Charlie” é este que usa dois pesos e duas medidas para atentados semelhantes, diferentes apenas pelo números de mortos, no caso da Nigéria 2000 pessoas?

Afinal que “Eu sou Charlie” é este que usa dois pesos e duas medidas para atentados semelhantes, diferentes apenas pelo números de mortos, no caso da Nigéria 2000 pessoas??? Há que se pensar ainda, e é importante que o leitor tenhas a clareza, que há muitas ações, em todo mundo, de grupos paramilitares, comandados ou financiados por governos, sejam dos Estado Unidos, Israel e mesmo França, Inglaterra, entre outros, que promovem ações chamadas “False flag”, bandeira falsa que aparentam ser realizadas pelo “inimigo” de modo a tirar partido das consequências resultantes.  No caso Charlie Hebdo, muitos analistas políticos levantaram essa possibilidade, principalmente depois da onda de manifestações contra os mulçulmanos em toda Europa. Seria uma forma de reforçar o preconceito contra os adeptos da religião islâmica e promover a expulsão de árabes e descendentes em território europeu.

Aqui também é interessante observar para o leitor que a chamada “invasão” arábe em território europeu se deve, principalmente, às situações de miséria provocadas pelo capitalismo exploratório desses mesmos países europeus e a colonização dos territórios no continente africano. Ou seja, a França, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Portugal promoveram durante centenas de anos a exploração das riquezas dos países africanos e os deixaram na miséria. Hoje a população desses países, que fala o mesmo idioma dos seus colonizadores, busca melhor condição de vida na Europa e com a vantagem de terem sidos educados no mesmo idioma. Muitos brasileiros que vão a Europa também buscam Portugal, pois há facilidade de comunicação. É muito comum encontrar centenas de pessoas oriundas de países africanos que falam francês perfeitamente, na França. A comunidade árabe em toda França é grande. E hoje, muitos dessa população não podem ser chamados de árabes, pois nasceram em território francês, são franceses que seguem a religião islâmica.

De qualquer forma, o acontecimento Charlie Hebdo serviu para que outras manifestações contra a violência, guerras, massacres, assassinatos de inocentes usem da frase “Eu sou” para estampar na mídia e diante dos governos a indignação e a necessidade de atenção para a crescente violência nos espaços urbanos e rurais e que não se traduz unicamente em violência física.


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