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Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Artigo da semana

Bolsonaro além dos limites

Um presidente da República que, para desviar a atenção, se vale de um ‘vamos supor’ não merece nenhum crédito

Postado em 06 de Julho de 2021 - Editorial Estadão

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No último dia 2, abriu-se o inquérito para investigar o presidente Jair Bolsonaro por crime de prevaricação. No sábado, manifestantes foram às ruas, em todas as capitais do País, para pedir o impeachment de Bolsonaro. Foi a terceira onda de manifestações em dois meses. E qual foi a reação de Jair Bolsonaro diante de tudo isso?

No domingo, Jair Bolsonaro foi ao Twitter fazer graves insinuações. Não citou nomes. Não falou de onde provinha a informação. Nem mesmo afirmou se o que disse era de fato uma informação. Valeu-se do manual da covardia.

“Vamos supor – escreveu o presidente da República em sua conta no Twitter – uma autoridade filmada numa cena com menores (ou com pessoas do mesmo sexo ou com traficantes) e esse alguém passe a fazer chantagem ameaçando divulgar esse vídeo. Parece que isso está sendo utilizado no Brasil (importado de Cuba pela esquerda) onde certas autoridades tomam decisões simplesmente absurdas, para atender ao chantageador.”

A prática da chantagem é crime no Brasil. O Código Penal prevê pena de quatro a dez anos de reclusão para quem “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa”.

Não cabe ao presidente da República insinuar a existência de chantagem. Ou tem elementos suficientes para apresentar uma notícia-crime ou deve manter-se calado sobre o assunto, sem insinuar ou difundir boatos. 

No entanto, Jair Bolsonaro segue o caminho oposto, espalhando confusão sob os mais variados pretextos. As manifestações do dia 3 de julho, assim como as de 29 de maio e de 19 de junho, pediram o impeachment do presidente. A cada dia, mais brasileiros estão convictos de que o presidente Bolsonaro cometeu, com seus atos e suas omissões, crime de responsabilidade durante a pandemia e deve, pelas vias constitucionais, ser afastado do cargo.

Além disso, os escândalos de compra e negociação de vacinas anticovid, envolvendo integrantes do governo federal – e com a acusação de que o presidente Bolsonaro teria se omitido diante de informação sobre mau uso do dinheiro público –, fortaleceram os pedidos de impeachment do presidente da República.

E qual foi a reação de Jair Bolsonaro? Falando das manifestações de sábado, o presidente escreveu em sua conta no Twitter: “Esse tipo de gente quer voltar ao Poder por um sistema eleitoral não auditável, ou seja, na fraude”.

O atual sistema de votação é inteiramente auditável, em suas várias etapas. Ou seja, Jair Bolsonaro difunde informação falsa. Como também é falsa a acusação de que, sem voto impresso, haverá fraude nas próximas eleições.

Jair Bolsonaro recorre a insinuações e acusações sem prova. No ano passado, anunciou que apresentaria em breve provas de fraude nas eleições de 2018. Até agora não trouxe nenhum indício. Se tudo isso pode parecer estranho e ilógico – vale lembrar que Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República em 2018 –, é cada vez mais evidente que a disseminação de confusão e desconfiança por parte do bolsonarismo é uma tática deliberada.

Imediatamente após o presidente Bolsonaro insinuar chantagem contra uma autoridade, as redes bolsonaristas puseram-se a trabalhar, dando continuidade à disseminação de insinuações e boatos.

Nessa toada, não surpreende que o governo de Jair Bolsonaro tenha alcançado o seu patamar mais baixo de aprovação. Segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com o Instituto MDA, a avaliação positiva do governo federal caiu de 33%, em fevereiro de 2020, para 27,7% em julho deste ano. No mesmo período, a rejeição ao presidente Bolsonaro subiu de 51,4% para 62,5%.

Um presidente da República que, para desviar a atenção, se vale de um “vamos supor” não merece nenhum crédito. Não precisa ser terrivelmente evangélico para saber que o sim deve ser sim e o não, não. O que passa disso vem do coisa-ruim, diz a Bíblia.


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