Semana On

Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Poder

Calado na CPI, Wizard quis reduzir número de mortos por covid na canetada

Espera-se que a Pizza Hut, KFC e Taco Bell, empresas dos quais o empresário é sócio, sejam mais transparentes sobre os produtos que oferecem a seus clientes do que ele com o seu país

Postado em 02 de Julho de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Semana On - Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O depoimento de Carlos "Wizard" Martins na CPI da Covid foi tão pouco transparente quanto o governo Jair Bolsonaro. Após uma introdução carregada de proselitismo religioso, dando uma voadora dos Dez Mandamentos ao usar o nome de Deus como escudo às acusações que pesam contra ele, o empresário negou-se a responder praticamente tudo.

Repetiu incansavelmente: "Me reservo ao direito de permanecer em silêncio" - direito reafirmado por decisão do Supremo Tribunal Federal para que não produzisse provas contra si mesmo.

O depoimento ainda não terminou, mas nada indique que ele vá alterar sua estratégia. Teria sido uma excelente ocasião para provar que ele não faz parte do Gabinete Paralelo, que assessorava o presidente da República na tomada de decisões sobre a pandemia, recomendando o uso de remédios ineficazes, atacando o isolamento social e menosprezando vacinas.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou sobre seu envolvimento com o processo de compra desses medicamentos e vacinas e sua relação com o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), que está no centro de denúncias de cobrança de propinas e de superfaturamento para a importação de vacinas contra a covid-19. Teve o silêncio como resposta.

Não deixou o oportunismo de lado, contudo. Mesmo se negando a responder, tentou fazer merchand de seu livro - no que foi prontamente interrompido pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM). Na capa da publicação, para mostrar seus "feitos" sociais, ele abraça uma criança pobre...

O Wizard contido da CPI em nada se parece com aquele empresário que aparece soltinho como arroz de PF nos vídeos mostrados pela comissão, receitando cloroquina, atacando quem ficava em casa para evitar a doença, fazendo piadas do tio do pavê para falar da pandemia.

A falta de transparência de Wizard não é novidade. Em junho do ano passado, ao ser indicado pelo então ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, para cuidar da área de ciência e tecnologia da pasta, e já membro do Gabinete Paralelo, o empresário afirmou que os critérios para contabilizar o número de mortos por covid-19 seriam revistos porque eram "fantasiosos e manipulados".

"Tinha muita gente morrendo por outras causas e os gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios, nos seus estados, colocavam todo mundo como covid. Estamos revendo esses óbitos", disse ao jornal O Globo.

Ele acabou não assumindo a secretaria por conta da polêmica, mas a sua justificativa sem base alguma guia, até hoje, os discursos negacionistas de Bolsonaro - que nega que o Brasil tenha ultrapassado 517 mil mortos. Sistematicamente, ele põe em xeque o número de vítimas, pois ele denuncia sua própria cumplicidade com a tragédia, e culpa interesses econômicos de prefeitos e governadores por isso.

A tentativa do Ministério da Saúde de mudar o formato de divulgação dos dados naquele momento levou a veículos de imprensa, entre eles o UOL, a criarem um consórcio para levantar os dados de casos e mortos diariamente. Ainda hoje, essa atualização é divulgada.

Tudo isso reforça a razão de Wizard sentir tão à vontade no governo Bolsonaro, um governo que bate no peito dizendo ser transparente e probo, mas, no subterrâneo, passa pano para pedidos de propina e suspeitas de superfaturamento a fim de agradar líderes do centrão, como Ricardo Barros, e garantir sua blindagem contra o impeachment.

Esperemos que a Pizza Hut, KFC e Taco Bell, empresas dos quais Wizard é sócio, sejam mais transparentes sobre os produtos que oferecem a seus clientes do que ele com o seu país.

A CPI da Covid decidiu manter confiscado o passaporte de Wizard.  Para reaver o documento, o empresário precisará de uma decisão judicial.


Voltar


Comente sobre essa publicação...