Semana On

Segunda-Feira 29.nov.2021

Ano X - Nº 469

Poder

Em chilique, Bolsonaro reforça preferência por atacar mulheres jornalistas

Jair Bolsonaro pode continuar tentando intimidar jornalistas, mas em algum momento terá que responder por seus atos

Postado em 25 de Junho de 2021 - Leonardo Sakamoto (UJOL), Ivan Longo (Fórum), Estadão (Editorial) – Edição Semana On

Foto: Isac Nóbrega/PR Foto: Isac Nóbrega/PR

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Em seu último chilique, no último dia 21, em Guaratinguetá (SP), Jair Bolsonaro mandou Laurene Santos, repórter de uma afiliada da Rede Globo, calar a boca. Também chamou ela e sua equipe de "canalhas". E ainda xingou a própria emissora, além de criticar a CNN. Pelo menos, a sua misoginia é coerente: repetidas vezes ele elege mulheres como alvo de suas estúpidas agressões verbais contra a imprensa.

Duas coisas perturbam Bolsonaro. Primeiro, o aumento na percepção da população sobre sua responsabilidade direta sobre os mais de 500 mil mortos e os 14,8 milhões de desempregados na pandemia. A avenida Paulista, termômetro do descontentamento desde 2013, teve mais gente no protesto do último dia 19 do que no de 29 de maio.

Além do mais, a CPI da Covid começou a fase de rastrear o dinheiro das negociações para compra de vacinas e de remédios ineficazes para a doença, como cloroquina. Há suspeitas de que aliados do presidente tenham se beneficiado. Ou seja, corrupção que produz cadáveres.

Não é a primeira vez que o presidente da República age de forma destemperada com profissionais de imprensa. Mas há um padrão de comportamento agressivo em público: os casos mais gritantes envolvem mulheres.

No dia 1º de junho, por exemplo, ele chamou apresentadora da CNN Brasil Daniela Lima de "quadrúpede" ao falar com seus apoiadores na porta do Palácio do Alvorada. Ele comentava uma postagem nas redes bolsonaristas que distorceu uma fala da jornalista sobre a geração de postos de trabalho formais, dando falsamente a entender que ela criticava a notícia por ser boa.

Um dos casos mais bizarros ocorreu em fevereiro de 2020 envolvendo Patrícia Campos Mello, repórter do jornal Folha de S.Paulo. Falando novamente a apoiadores, Bolsonaro repetiu uma mentira que já havia sido contada por um depoente na CPMI das Fake News e por seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro: de que a jornalista pode ter "se insinuado sexualmente em troca de informações para tentar prejudicar a campanha de Jair Bolsonaro".

"Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", afirmou o presidente para delírio de seu rebanho. Exércitos de contas falsas e perfis reais passaram a atacá-la dia e noite em uma das piores campanhas de linchamento digital que o país já viu.

Os casos são vários. Um helicóptero da Força Aérea Brasileira foi usado para transportar parentes e amigos do presidente da República para o casamento de seu filho em maio de 2019. Diante de uma pergunta da repórter Talita Fernandes, da Folha, sobre o caso, Bolsonaro chilicou. "Com licença, estou numa solenidade militar, tem familiares meus aqui, eu prefiro vê-los do que responder uma pergunta idiota para você. Tá respondido? Próxima pergunta."

No dia 10 de março daquele ano, Bolsonaro usou sua conta no Twitter para compartilhar informação falsa sobre a repórter Constança Rezende, então no jornal O Estado de S.Paulo. Um site bolsonarista havia trazido uma postagem de um blog francês que atribuiu falsamente a ela uma declaração contra o senador Flávio Bolsonaro. Quando o conteúdo distorcido já circulava, via redes sociais, Bolsonaro bombou a informação, promovendo um linchamento virtual presidencial da jornalista a seus milhões de seguidores.

No dia 16 de maio de 2019, ele atacou a repórter Marina Dias, da Folha de S.Paulo, que havia lhe perguntado sobre os cortes no orçamento da educação. Visivelmente irritado por conta de manifestações de estudantes e professores, vociferou: "Primeiro, você, da Folha de S.Paulo, tem que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. É isso que a Folha tem que fazer e não contratar qualquer uma ou qualquer um para ser jornalista, para ficar semeando a discórdia e perguntando besteira por aí e publicando coisas nojentas".

Dois meses depois, durante um café da manhã com correspondentes estrangeiros, Bolsonaro foi questionado sobre o fato de a jornalista Miriam Leitão e de seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, terem sido desconvidados de uma feira do livro em Jaraguá do Sul (SC) após pressão de grupos de extrema direita. Passou a atacá-la, chegando ao ponto de dizer que a tortura que ela sofreu durante a ditadura militar, fato fartamente documentado, era mentira.

Aliás, tanto Miriam Leitão quanto a jornalista Vera Magalhães são alvos sistemáticos do bolsonarismo.

A perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são jornalistas mulheres. Nessa hora, o ataque, não raro, ganha conotação sexual. Vale lembrar que, quando deputado federal, Bolsonaro se notabilizou por declarações misóginas. Disse, por exemplo, que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada.

Declarações como essas servem como ordem unida aos seus seguidores mais fiéis.

Para não acreditarem na realidade que se coloca diante de seus olhos, como as imagens de massivas manifestações que apareceram na Globo e na CNN Brasil.

Para darem continuidade aos ataques às jornalistas através de ameaças e agressões on-line, invadindo a vida privada das profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando filhos e pais. Acredita que, dessa forma, outros profissionais de imprensa vão pensar duas vezes antes de questioná-lo.

Para se manterem fiéis às mentiras do bolsonarismo - que prega que vacinas são menos eficazes do que a "imunidade" obtida através do contágio pelo coronavírus de contrair a doença, que a cloroquina funciona mais que a CoronaVac, que isolamento social apenas atrapalha a economia, que a máscara é um fetiche da imprensa contra a liberdade individual de cada um.

Considerando que as reportagens e investigações mais contundentes são produzidas há tempos por mulheres jornalistas, colocando em risco a realidade paralela que o presidente tenta vender a seus 14% de seguidores mais fiéis, o ódio de Jair, para além de ser expressão clara de sua misoginia, é também sintoma de medo.

E quando acuado, Jair ladra.

Brasil não merece ser presidido pela estupidez

Bolsonaro ainda não se deu conta. Mas o papel da imprensa numa democracia não é o de apoiar ou de se opor aos governos. Sua tarefa é a de levar à opinião pública tudo o que tenha interesse público. E interessa muito à plateia um presidente que briga com a máscara depois de ter sancionado, em julho de 2020, a lei número 14.019, que torna obrigatório o uso de apetrecho durante a pandemia. Bolsonaro adoraria que a imprensa ajustasse a realidade ao Brasil paralelo em que decidiu viver. Mas a ausência dos 500 mil mortos por covid intima os repórteres a informar constantemente que o país paralelo do presidente leva à morte.

O presidente da República está acuado por uma CPI e pelo ronco do asfalto. Mas nada debilita mais Bolsonaro do que a sua própria língua. No relacionamento entre a imprensa e os políticos, não há perguntas embaraçosas, apenas respostas constrangedoras. As entrevistas do capitão sempre foram marcadas pelo constrangimento. Constrangem não pelas perguntas que o personagem é obrigado a ouvir, mas pelas respostas que ele não é capaz de fornecer. Na falta de respostas para as perguntas incômodas, Bolsonaro perde a linha.

Já questionou a sexualidade de um repórter, ofendeu a mãe de outro, fez gracejos sexistas em relação a uma jornalista que fez reportagem que não saiu ao seu gosto, chamou outra profissional de "quadrúpede". O presidente ameaçou "encher de porrada" a boca de um repórter que ousou indagar sobre a origem dos R$ 89 mil que o operador de rachadinhas Fabrício Queiroz depositou na conta da primeira dama Michelle.

O comportamento de Bolsonaro não é normal. É absurdo. Bolsonaro acha que desmerece a imprensa com seus ataques. É um engano. O presidente já não compromete apenas a sua reputação, da qual resta muito pouco. Incapaz de elevar a sua estatura, Bolsonaro rebaixa o teto da Presidência. O presidente não é apenas uma faixa. É preciso que por trás da faixa exista uma noção qualquer de honra. O Brasil não merece ser presidido pela desonra e pela estupidez.

Condenado

O governo Bolsonaro foi condenado pela Justiça Federal de São Paulo a pagar R$15 milhões – entre financiamento de campanhas e indenização por dano moral coletivo – em razão de declarações do presidente, ministros e de seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), contra as mulheres.

A condenação partiu após análise da Justiça de ação protocolada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão de São Paulo, do Ministério Público Federal (MPF), que apontou 14 falas “intoleráveis” com relação às mulheres feitas por Bolsonaro, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o ministro da Economia, Paulo Guedes e Eduardo Bolsonaro.

“É notório que os emissores não se pronunciaram na condição de cidadãos, valendo-se, isso sim, da função pública ocupada, dos contextos em que se encontravam e, particularmente no caso dos pronunciamentos do senhor presidente da República, da ênfase em expressões inadequadas e polêmicas, em evidente expectativa de proveito político da repercussão deflagrada”, diz um trecho da decisão judicial.

Pela sentença, o governo fica obrigado a investir R$10 milhões em campanhas publicitárias sobre direitos das mulheres e outros R$5 milhões de indenização por danos morais coletivos, totalizando R$15 milhões.

O presidente nervoso

Bolsonaro já demonstrou em diversas ocasiões seu profundo desapreço pela imprensa em geral, com exceção dos veículos bolsonaristas que o adulam.

A nova demonstração de irascibilidade de Bolsonaro talvez se explique pelo contexto: além da terrível marca de meio milhão de mortos, há o crescente cerco da CPI da Pandemia, há a novidade das manifestações de rua contra o governo, cuja afluência tem sido cada vez maior, e há uma queda significativa de sua popularidade – que deriva não somente da administração irresponsável da crise, mas da alta da inflação e do desemprego. A pergunta sobre a máscara, que o lembra de suas responsabilidades como governante, teria sido a gota d’água que fez transbordar o nervosismo de Bolsonaro com um cenário muito adverso.

Mas é bom que o presidente vá tomando chá de camomila, porque as perguntas incômodas apenas começaram. Bolsonaro terá que explicar, por exemplo, por que seu governo comprou a vacina indiana Covaxin por um preço 1.000% superior ao que o fabricante anunciava seis meses antes.

Segundo a reportagem, o laboratório indiano Bharat Biotech ofereceu seu imunizante por US$ 1,34 a dose, conforme telegrama secreto da Embaixada do Brasil em Nova Délhi. Em dezembro, outro telegrama dizia que a vacina custaria “menos do que uma garrafa de água”. Ao fazer a aquisição do imunizante, por ordem de Bolsonaro, o Ministério da Saúde aceitou pagar US$ 15 por unidade.

Ao contrário do que foi feito na negociação de outros imunizantes, a importação da Covaxin teve uma empresa intermediária, a Precisa Medicamentos, acusada de fraude com testes de covid e que tem como sócia uma empresa que é alvo de processo por não entregar remédios comprados pelo Ministério da Saúde. Por óbvio, a CPI da Pandemia quer saber por que, no caso da Covaxin, o governo recorreu a um intermediário – e um tão cheio de pendências judiciais.

Ademais, chamam a atenção a celeridade do governo para fechar negócio (foram 3 meses de negociação, contra 11 no caso da Pfizer), o alto preço pago (muito acima do inicialmente anunciado e bem superior ao da Pfizer, que vendeu por US$ 10 a dose) e o fato de que a Covaxin foi adquirida sem ter passado por todas as fases de testes e sem ter aval da Anvisa – condições que Bolsonaro havia imposto para comprar “qualquer vacina”. Em depoimento em poder da CPI, um servidor do Ministério da Saúde revelou ter havido “pressões anormais” para a compra da Covaxin.

É um escândalo, que se junta com destaque à extensa lista de delinquências do governo na gestão da pandemia e em outras searas. Bolsonaro pode continuar tentando intimidar jornalistas que se atrevem a lhe fazer perguntas, mas em algum momento, de um jeito ou de outro, terá que responder, mais do que às questões que lhe fazem, por seus atos.


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