Semana On

Terça-Feira 24.mai.2022

Ano X - Nº 488

Poder

Com desgaste de Bolsonaro na CPI, frentes antecipam manifestações para 3 de julho

‘Superpedido’ de impeachment de Bolsonaro, que une esquerda e direita, será apresentado dia 30

Postado em 25 de Junho de 2021 - Murilo Pajolla (Brasil de Fato), Ivan Longo (Fórum), Ricaro Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Manifestações contra Bolsonaro se espalharam pelo país em 19 de junho. Foto: Paulo Pinto/AFP Manifestações contra Bolsonaro se espalharam pelo país em 19 de junho. Foto: Paulo Pinto/AFP

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A Campanha Fora Bolsonaro definiu como nova data para novas manifestações pelo país o 3 de julho, sábado. O calendário deliberado também prevê mobilizações durante a entrega do pedido de impeachment unificado, definida para a quarta-feira (30) em Brasília. Na quinta-feira (1°) será realizada uma plenária nacional da campanha.

“A luta de massas é o elemento decisivo para que seja aberto o processo de impeachment do Bolsonaro. Com o ato do dia 3 de julho, queremos mandar um recado para o presidente da Câmara Arthur Lira, que está sustentando um governo sem condições políticas”, afirma João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Frente Brasil Popular.

O desgaste do presidente Jair Bolsonaro, com as últimas revelações feitas pela CPI da Covid, com denúncia de corrupção na compra da vacina indiana Covaxin, acelerou o processo de mobilização por sua saída e houve unidade entre as correntes para que a nova manifestação aconteça já no próximo sábado (3).

Os movimentos populares envolvidos Campanha Fora Bolsonaro mantiveram a mobilização para o 24 de julho. A plenária da “Campanha Fora Bolsonaro” tem relevância nacional na convocação dos protestos massivos deste ano. Ela é composta pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, que congregam os maiores partidos políticos e centrais sindicais. 

“A unidade desse conjunto é que tem sido capaz de apontar um caminho para a derrota de Bolsonaro”, afirma o membro da Frente Povo Sem Medo e secretário geral da Intersindical, Edson Carneiro Índio.

“É fundamental também lembrar da importância de dialogar nas periferias da cidade, com som, lembrar da carestia, do preço do botijão, da energia, do desemprego, da necessidade do auxílio de R$ 600 contra essa miséria desse auxilio de 250 que sequer compra um terço de uma cesta básica”, completa. 

‘Superpedido’ de impeachment

Lideranças políticas de esquerda, centro e direita, além de movimentos sociais, entidades e estudantes, marcaram para esta quarta (30) o protocolo do “superpedido” de impeachment de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. A apresentação do documento deve ainda ser acompanhada de ato político.

O pedido de impeachment é suprapartidário e vem sendo construído desde abril. A ideia é que a peça, ainda em elaboração, reúna mais de 20 crimes de responsabilidade, principalmente relacionados à sua forma de lidar com a pandemia do coronavírus, que já tinham sido citados nos mais de 100 pedidos de afastamento do atual presidente já protocolados na Câmara.

No primeiro encontro de políticos para discutir o ‘superpedido’ de impeachment, estiveram presentes, além de deputados de esquerda, ex-bolsonaristas e parlamentares de direita, como Joice Hasselmann (PSL-SP), Alexandre Frota (PSDB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP). Todos concordam com a unificação dos mais de 100 pedidos de impeachment para pressionar a Câmara a iniciar o procedimento de afastamento de Bolsonaro.

“Este será o pedido de impeachment das ruas, que será apresentado no calor e com apoio das grandes mobilizações de 29 de Maio e 19 de Junho”, afirmou o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP) – uma das signatárias da peça -, Raimundo Bonfim.

As lideranças partidárias e entidades que encabeçam o pedido esperam que sua apresentação dê força às manifestações contra Bolsonaro marcadas para o dia 29 de junho. Essa pressão pela saída do presidente vem ainda na esteira do avanço das investigações da CPI do Genocídio, da revelação de um provável caso de corrupção no governo envolvendo a vacina indiana Covaxin e também a disparada na desaprovação do titular do Planalto, que foi apontada nesta quinta-feira em pesquisa do Ipec.

Além das lideranças políticas e CMP, compõem o grupo do “superpedido” de impreachment a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), Movimento Brasil Livre (MBL), Federação Nacional de Estudantes de Direito (Fened), Coalização Negra por Direitos, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), Coletivo de Favelas, União Nacional dos Estudantes (UNE), Coletivo de Advogados e Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outras.

Para Arthur Lira, melhor do que dependente é um presidente refém

Fosse Arthur Lira (PP-AL) um político à altura do cargo de presidente da Câmara dos Deputados, ele já teria aceitado uma das centenas de pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro que guarda no armário do seu gabinete.

Mas a cadeira de presidente da Câmara é muito larga para Lira, como foi para a geração recente dos que o ali o antecederam, assim como a de presidente da República é demasiadamente grande para Bolsonaro, mas não foi para Fernando Henrique e Lula.

A Constituição confere ao presidente da Câmara, e unicamente a ele, o poder de aceitar um pedido de impeachment. Mas não lhe cabe decidir se o processo de impeachment será aberto. Isso cabe primeiro a uma comissão, e depois ao plenário.

Mesmo diante dos sucessivos crimes de responsabilidade cometidos por Bolsonaro até aqui, Lira recusa-se a aceitar qualquer pedido sob a alegação de que seria prejudicial ao país. Quem disse que seria prejudicial? Somente ele?

Por que não aceita e deixa que o plenário da Câmara decida a respeito? Não foi o que se fez quando Fernando Collor e Dilma Rousseff presidiam a República? Não foi o plenário que decidiu negar dois pedidos do Supremo para processar Michel Temer?

Quantos outros crimes Bolsonaro precisa ainda cometer para que uma Câmara formada por 513 deputados seja chamada a deliberar coletivamente, e não mais pelo voto de uma só pessoa? Sem falar que é o Senado que cassa mandato de presidente, a Câmara não.

Lira foi eleito presidente da Câmara com o apoio de Bolsonaro. Deve-lhe parte dos votos que teve. É um dos líderes do Centrão, grupo dos partidos mais fisiológicos do Congresso que sustenta governos em troca de vantagens, entre elas as inconfessáveis.

Melhor do que ter um presidente dependente para aprovar projetos, só ter um presidente refém com medo de não conseguir governar até o fim.

Monstro está solto, mas o impeachment de Bolsonaro depende do imponderável

Bolsonaro vai terminar o mandato? Eis a pergunta que flutua na atmosfera junto com o vírus que infecta manifestantes pró e contra o presidente da República. As manifestações do último sábado deixaram claro que o monstro, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek se referia à opinião pública, está solto. Dizia-se que Bolsonaro não sofreria impeachment porque as ruas estavam em silêncio. Não estão mais. Em 23 dias, o asfalto roncou duas vezes. E o barulho foi bem maior do que o ronco das motocicletas que desfilaram três vezes por Bolsonaro. A despeito disso, o presidente ainda dispõe da blindagem do centrão. Os chefões do centrão regem o sistema político em Brasília como maestros de orquestra, de costas para a plateia. Significa dizer que o impeachment depende do imponderável.


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