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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

A gente se acostuma com tudo, mas não devia

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá...

Postado em 23 de Junho de 2021 - Theresa Hilcar

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Semana de aniversário para mim é sempre época de reflexões. Para quem já passou dos sessenta, cada ano ganha novo significado. Ou seja, deixamos algumas coisas para trás e vamos tocando em frente com o que temos e com o que aprendemos.

Nos últimos dias andei refletindo sobre muitas coisas, inclusive as perdas. Não aquelas desoladoras, irremediáveis. Que, aliás, foram muitas no ano que passou. Um ano tão estranho que parece não ter existido. Por convicção, e também por conveniência, resolvi até fazer de conta que ele não existiu. Ou seja, terei hoje a mesma idade que tinha em 2020.

Mas no limiar da nova idade, hoje quero falar de outras perdas. Ou seria das faltas? Que não são poucas: de paciência, da memória, das vontades, das ilusões. Mas isto é assunto para uma próxima crônica. Melhor ater-me agora às pequenas coisas, às coisas ínfimas que ficam nos cantos da alma sem nenhuma utilidade, e que mesmo nos incomodando adiamos o seu descarte. Há quem chame isto de apego ou perdas necessárias.  .

Não sei explicar bem o motivo, mas o tema levou ao poema de Marina Colasanti cujo título é “Coisas que a gente se acostuma, mas não devia”. Por isto resolvi fazer dele meu presente. Não sem antes reverenciar a autora, agradecê-la de mãos juntas e pedir licença para soltar aqui algumas pérolas, trechos deste belo texto que hoje, mais que nunca, continua atual e comovente. Como a própria a autora. 

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não sejam as janelas ao redor. E, porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma anão abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer filas para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. 

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá...

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. “A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma”.  Ave! Marina.


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