Semana On

Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Poder

Jair será Robin Hood às avessas se tirar do pobre CLT para dar ao informal

Ministro Paulo Guedes sugere dar sobras de comida aos mais pobres

Postado em 18 de Junho de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Jair Bolsonaro analisa acabar com o abono de um salário mínimo pago anualmente a trabalhadores com carteira assinada com renda de até dois salários para bancar o aumento do valor médio do Bolsa Família de R$ 190 para R$ 300. A informação foi revelada por Antonio Temóteo, do UOL, na quinta (17).

A proposta não é nova. Tanto que o presidente já havia reclamado, em 26 de agosto do ano passado, da forma que o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia encontrado para bancar o Renda Brasil, como o bolsonarismo queria, na época, renomear o Bolsa Família.

Para respeitar o teto de gastos, o dinheiro viria do abono salarial, do salário-família, do seguro defeso, do Farmácia Popular. Na época, o presidente disse com todas as letras que isso seria "tirar do pobre para dar ao paupérrimo". Na verdade, seria dificultar a vida do pobre CLT para remediar o pobre da informalidade.

O que mudou desde então? A eleição de 2022 ficou mais perto e a aprovação de Bolsonaro nunca esteve tão baixa, com 24% segundo a pesquisa Datafolha.

Entre as justificativas dadas no ano passado, estavam a de que o abono salarial era palco de fraudes e o fato de ele beneficiar pessoas que, por estarem protegidas por direitos trabalhistas, seriam menos vulneráveis em relação aos que recebem o Bolsa. Bem, se há fraudes, que sejam combatidas - também há rachadinhas em gabinetes de deputados e, nem por isso, alguém pensa em acabar com os assessores. E o argumento de que os pobres com carteira são privilegiados é uma aberração brasileira.

Pois há um sujeito oculto nessa discussão, protegido por uma proposta como essa: os super-ricos. Hoje, a classe média paga mais impostos em relação à sua renda do que multimilionários e bilionários devido à não taxação de dividendos, à baixa taxação de Imposto de Renda de Pessoa Física, entre outras manobras.

Outras democracias vêm discutindo aprofundar a cobrança de impostos sobre os abastados para bancar os mais pobres na crise e depois dela. No Brasil, há uma série de iniciativas nesse sentido tramitando no Congresso. O próprio Guedes já se mostrou a favor de taxar dividendos recebidos de empresas, coisa que só o Brasil e a Estônia não fazem. Bolsonaro é que não quer.

Mas, até aí, ele também já havia xingado o Bolsa Família e hoje o abraça como se fosse fã desde pequeno, pois entendeu os efeitos eleitoralmente terapêuticos da transferência de renda.

Relembrar é viver: o então deputado federal Jair disse, em entrevista ao jornalista Carlos Juliano Barros, em 2015, que quem recebe o Bolsa Família não faz nada da vida, só produz filhos para o Estado custear.

"Uma política de planejamento familiar, acho que só eu falo aqui nessa casa [Câmara dos Deputados]. O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada", afirmou.

Hoje presidente, Bolsonaro percebe que não pode simplesmente acabar com o auxílio emergencial, por mais que os valores de R$ 150, R$ 250 e R$ 375 pagos atualmente sejam apenas uma sombra dos R$ 600/R$ 1.200 do primeiro semestre do ano passado, se quiser ter chances de reeleição. Decidiu anabolizar o Bolsa. Só está com um problema para saber de onde sairia o dinheiro.

Tributar os super-ricos no Brasil pode arrecadar cerca de R$ 290 bilhões anuais, que poderiam ser usados na reconstrução pós-pandemia. É o que defendem a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), os Auditores Fiscais pela Democracia (AFD), o Instituto Justiça Fiscal (IJF), entre outras instituições.

Atenção, classe média: Super-rico não é você que financiou o Renegade em 24 parcelas, talkey?

Como já disse aqui antes, esse debate, claro, passaria pela revisão do teto de gastos, pois não é possível fazer mais gastos, mesmo como novas fontes de receita. Para isso, teria que comprar uma briga com o mercado e com o bolsonarismo-raiz - que acha que taxar bilionário é pecado e Bolsa Família é voto de cabresto.

Pelo menos, evitaria ser um Robin Hood às avessas.

Ministro Paulo Guedes sugere dar sobras de comida aos mais pobres

Paulo Guedes, ministro da Economia, deveria ou não ir outra vez para o paredão depois do que disse a respeito de oferecer aos brasileiros pobres sobras de comida das mesas dos ricos e de restaurantes?

Ao participar de um fórum da Associação Brasileira dos Supermercados, Guedes comparou o tamanho do prato de um brasileiro de classe média ao de um europeu para ilustrar o problema do desperdício de alimentos no país.

Uma alternativa que sugeriu foi a distribuição das sobras de alimentos de restaurantes aos mais pobres e vulneráveis.

“Você vê um prato de um classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui, nós fazemos o almoço onde às vezes há uma sobra enorme, e isso vai até o final, que é a refeição da classe média alta, até lá há excesso.”

E foi adiante, empolgado com a ideia:

“Com a alimentação que não foi utilizada durante o dia no restaurante, dá para alimentar pessoas fragilizadas, mendigos, desamparados. É melhor do que deixar estragar essa comida, que estraga diariamente na mesa das classes mais altas brasileiras, e também o desperdício ao longo de toda a cadeia produtiva”.

Seduzido pela própria voz, o ministro é useiro e vezeiro em fazer declarações polêmicas que acabam se voltando contra ele. Quando isso acontece, ele diz que foi mal interpretado, ou que tiraram suas palavras do contexto, ou simplesmente culpa a imprensa.

Algumas coisas que ele já disse:

“O chinês inventou o vírus e a vacina dele é menos efetiva que a do americano. O americano tem cem anos de investimento em pesquisa. Então os caras falam: ‘qual o vírus? É esse? tá bom’. Decodifica, tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras.” (27/4/2021)

“Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses [de auxílio emergencial], aí ninguém trabalha. Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo. E aí vamos morrer de fome do outro lado. É o meu pavor, a prateleira vazia.” (20/5/2020)

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. (Era) todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada.” (12/2/2020)

O funcionalismo teve aumento de 50% acima da inflação, além de ter estabilidade na carreira e aposentadoria generosa. O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita.” (7/2/2020)

“As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer. Você não tem um meio ambiente limpo porque as soluções não são simples. São complexas.” (21/1/2020)

“Sejam responsáveis, pratiquem a democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com 10 meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5.” (21/11/2019)

“Desde quando o Brasil, para crescer, precisou da Argentina?” (15/8/2019)

“O Macron (presidente da França) falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente (Bolsonaro) devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo.” (5/9/2019)

Guedes e Bolsonaro foram feitos um para o outro.


Voltar


Comente sobre essa publicação...