Semana On

Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Poder

Sem chance de ‘terceira via’, disputa em 2022 ficará entre Lula e Bolsonaro

Bolsonaro não corre o risco de derrota em 2022, pode no máximo receber alta

Postado em 18 de Junho de 2021 - Ricardo Kotscho e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Veja) – Edição Semana On

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Com as desistências de Huck, Moro e Amoedo, oficializadas esta semana, a frenética busca de uma "terceira via" para 2022 foi para o espaço. Dos 15 nomes de pré-candidatos que pipocaram nos últimos meses para ocupar o lugar de "nem-nem" (nem Lula nem Bolsonaro, para evitar a polarização), nenhum emplacou. Os motivos foram variados, mas o principal acabou sendo só um: a falta de votos.

Huck, aquele que foi sem nunca ter sido candidato, achou mais seguro renovar rapidamente o contrato com a Globo por mais cinco anos, para ficar com a vaga do Faustão, antes que surgisse outro concorrente (Thiago Leifert foi muito elogiado ao substituir o titular no último domingo).

Moro comunicou aos seus patrões nos Estados Unidos, onde está morando, que não será mais candidato a presidente, algo que, na verdade, nunca chegou a ser.

Amoedo tirou o time porque seu partido, o Novo, está dividido entre apoiar ou não o governo.

Desta forma, restaram apenas dois outros pré-candidatos, que nunca passaram de um digito nas pesquisas: Ciro Gomes (6%) e João Doria (3%), de acordo com o último Datafolha.

Doria ainda precisa enfrentar as prévias do PSDB, marcadas só para novembro, mas ainda não é certo que o partido terá candidato (se depender de Aécio Neves, seu principal inimigo, não terá).

Ciro ainda não sabe se bate em Bolsonaro ou em Lula para ser a "terceira via", em aliança com partidos mais à direita, que estão sem candidato até o momento.

Mais provável é que ele dispute o terceiro lugar com Doria, que deve crescer nas pesquisas a bordo das vacinas, e ele fique mais uma vez fora do segundo turno.

A um ano e meio das eleições, o que no Brasil é uma eternidade, o cenário para 2022 parece cada vez mais reduzido aos mesmos favoritos de 2018, se Moro e o general Villas Boas, com o STF, não tivessem tirado Lula da disputa e deixado o caminho livre para Bolsonaro.

Segundo o último Datafolha, de 11 e 12 de maio, Lula (43%) e Bolsonaro (21%) têm mais intenções de votos no primeiro turno do que os outros todos somados, deixando pouco espaço para o surgimento da tal "terceira via".

No segundo turno, Lula (55%) venceria por larga margem o atual presidente, que tem 23% de intenções de voto e 54% de rejeição.

Lula está à frente de Bolsonaro em todas as regiões do país, faixas etárias e de renda, inclusive entre os evangélicos, em que, surpreendentemente, aparece em empate técnico, com 35%, contra 34% do capitão.

Diante desse quadro favorável, o ex-presidente joga parado, quase sem sair de casa, costurando na moita alianças à direita e à esquerda, e montando palanques estaduais, enquanto o seu principal concorrente corre de um lado para outro do país, inaugurando trechos de obras e promovendo motoceatas.

Para usar uma imagem de futebol, tão cara aos dois candidatos, o petista toca a bola de lado e joga no erro do adversário, que se vê obrigado a ir ao ataque, deixando a retaguarda desprotegida.

Para acelerar a campanha à reeleição, depois de entregar a administração do governo aos cuidados dos generais e do Centrão, o maior problema de Bolsonaro, fora todos os outros, é encontrar um partido, qualquer um, capaz de manter unida a sua base aliada.

Acossado pela CPI da Pandemia, com índices crescentes de inflação e de desemprego, o presidente vive o momento mais difícil dos seus dois anos e meio de mandato, agora correndo atrás de vacinas da Pfizer, que ele desdenhou, e de uma nova Bolsa Família, para chamar de sua.

Agora que a campanha antecipada já está indo para as ruas, com protestos a favor e contra o governo, o grande desafio do PT é encontrar uma forma de enfrentar o adversário no campo dele, onde é mais forte: o das redes sociais.

Foi-se o tempo dos comícios, dos debates e dos programas de TV produzidos por grandes marqueteiros.

A disputa agora é decidida no jogo pesado das plataformas de internet, onde não há regras nem controles, e impera o vale-tudo das fake news, uma batalha que já começou no submundo digital, e poucos se dão conta. Basta ver a área de comentários aqui na coluna.

É isso que explica a resiliência do bolsonarismo e a sobrevivência do antipetismo militante em parcelas da população.

Sem a bandeira do combate à corrupção e à velha política, agora que Moro foi embora e o Centrão entrou no governo, Bolsonaro já desfraldou novamente a do perigo comunista, da volta dos vermelhos, que ameaçam a tradição, a família e a propriedade.

O medo de perder a eleição e de ser julgado pelos atos que cometeu no governo faz o presidente radicalizar cada vez mais, e investir no voto impresso e na denúncia de fraudes na urna eletrônica, que ainda nem foram abertas.

Em contraposição, o ex-presidente investe novamente no figurino do "Lulinha, paz e amor", como candidato da conciliação nacional, mas uma coisa é certa: vai ser uma guerra, não um passeio.

Na eleição de 1994, devemos lembrar, Lula também parecia eleito em maio, quando tinha o dobro das intenções de votos de FHC - e aí veio o Plano Real para inverter as curvas das pesquisas.

A diferença é que agora não se vislumbra como inventar um novo Plano Real para vender um sonho ao alcance das mãos.

Ao contrário, a dura realidade da vida é uma tragédia que já deixou quase 500 mil mortos e parece não ter fim.

Acabou a ilusão da "terceira via", do "nem-nem".

Queiramos ou não, a disputa se dará mesmo entre um ou outro, Lula ou Bolsonaro.

Com rejeições altas, Bolsonaro e Lula estão empatados para 2022

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estão tecnicamente empatados na corrida presidencial para 2022, segundo levantamento feito pelo instituto Paraná Pesquisas entre os dias 11 e 15 de junho.

A pesquisa foi contratada pelo PSL e tem como um dos objetivos testar o nome do apresentador José Luiz Datena como presidenciável. Ele estava filiado ao MDB até abril deste ano, mas agora está sem partido. As fundações do MDB e PSL vêm discutindo a elaboração de um plano conjunto de governo para o país, embora isso não signifique que planejem o lançamento de candidatura única.

No principal cenário pesquisado, Bolsonaro tem 34,3% das intenções de voto, seguido por Lula, que tem 32,5% — a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Neste cenário, Datena aparece com 7,5%, seguido por Ciro Gomes, do PDT (5,8%); João Doria, do PSDB (3,4%); Luiz Henrique Mandetta, do DEM (3,2%); e a senadora Simone Tebet, do MDB (1,1%). Entre os entrevistados, 8,6% afirmaram que irão votar em branco, nenhum ou anular o voto e 3,6% não souberam responder.

A pesquisa já não traz o nome de outro apresentador de TV, Luciano Huck, que também era cotado para a disputa presidencial, mas anunciou no início da semana, durante entrevista ao programa Conversa com Bial, que renovou com a Globo e irá substituir o Faustão aos domingos.

No segundo turno, Lula tem 40,2% das intenções de voto e Bolsonaro, 40%, em novo empate, desta vez quase numérico. Entre os entrevistados, 15,3% afirmaram que irão votar em branco, em nenhum ou anular o voto e 4,4% não souberam responder.

Rejeição

Lula e Bolsonaro lideram, mas também apresentam altos índices de rejeição do eleitorado. Entre os entrevistados, 50,4% afirmaram que não votariam no presidente de jeito nenhum, enquanto 49,7% disseram o mesmo em relação ao petista. O mais rejeitado nesse quesito é João Doria, com 57,2% — o menos é Datena, com 42%.

Bolsonaro e Lula têm, por outro lado, os percentuais de eleitores mais decididos: 27,4% afirmaram que com certeza votariam no atual presidente, enquanto 26,4% disseram o mesmo em relação ao petista. Nesse quesito, eles estão longe dos concorrentes – o terceiro é Ciro Gomes, com 3,4%.

Em relação ao seu governo, Bolsonaro também tem problemas: 53,8% desaprovam a sua gestão contra 42% que a aprovam –4,3% não souberam ou não quiseram opinar. Quando questionados de que forma avaliam o governo, 31,6% o classificaram como ótimo ou bom, enquanto 45,6% o taxaram de ruim ou péssimo – para 21,5%, ele é regular.

A pesquisa foi feita por meio de abordagens pessoais em domicílios de 156 municípios de todos os estados e do Distrito Federal.

Alta

Bolsonaro seria um político admirável se descobrisse o valor do silêncio. Perceberia que, não tendo nada a dizer, seria melhor que se abstivesse de demonstrar com palavras a sua falta de assunto. Como ainda não aprendeu a calar, o presidente exibe às quintas-feiras nas redes sociais, em transmissões ao vivo, toda a sua inexpressividade mental. Nessas lives semanais, Bolsonaro costuma se deparar com certos achados que o deixam inteiramente perdido. Sempre que isso ocorre, ele se dispõe a resolver problemas que o país não sabe que tem. A vulnerabilidade da urna eletrônica é um desses problemas que o Brasil desconhece, mas que Bolsonaro promete resolver.

No momento, submetido a um recrudescimento da pandemia, o brasileiro médio acha que sua prioridade é a falta de vacina. Isso é um engano, informa Bolsonaro. O problema do país é o risco de "convulsão social". A grande revolta não será provocada pela escassez de vacinas ou pelo excesso de mortos. A falta de vacinas o presidente já resolveu com a oferta de cloroquina. A pilha de cadáveres Bolsonaro já reduziu com a ajuda da falsa auditoria do TCU. A convulsão virá porque o Brasil, embora ainda não tenha se dado conta, considera as urnas eletrônicas uma porcaria, coisa inconfiável. E o país não vai tolerar a eventual vitória de Lula.

Por sorte, Bolsonaro se dispõe a fazer o favor de pressionar o Congresso pela aprovação do projeto de sua aliada Bia Kicis, instituindo o voto impresso —ou "voto auditável", como ele passou a dizer. Bolsonaro jura que as urnas eletrônicas roubaram a Presidência de Aécio Neves em 2014. Em 2018, as urnas surrupiaram a vitória que ele teria já no primeiro turno. O PSDB de Aécio já auditou as urnas que Bolsonaro acha que não se pode auditar. Os tucanos se deram por satisfeitos. Bolsonaro declarou várias vezes que tem provas materiais da fraude que o impediu de se eleger no primeiro turno. Por enquanto, são provas de gogó, jamais exibidas.

Com seus pitis semanais, Bolsonaro consolida-se como primeiro presidente da história que considera fraudulentas uma eleição que ele venceu e outra que ele ainda nem disputou. Se as convicções do presidente servem para alguma coisa é para revelar que ele não corre o risco de ser derrotado na disputa presidencial de 2022. Bolsonaro pode, no máximo, receber alta do eleitor.


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