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Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Cultura e Entretenimento

Longe dos palcos

Há mais de um ano, trabalhadores da arte tentam driblar as mudanças e incertezas provocadas pela pandemia

Postado em 17 de Junho de 2021 - Moniqui Frazão – Radis

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As temporadas estavam planejadas e as agendas comprometidas. Projetos haviam acabado de estrear, depois de estudo e preparação. Essa era a realidade de muitos trabalhadores das artes e da cultura no Brasil, até que, em março de 2020, eles receberam as notícias de cancelamento. O motivo: as medidas sanitárias e as restrições necessárias para conter o espalhamento do vírus causador da covid-19. Sem a proximidade com o público e as aglomerações, comuns em muitas das profissões que compõem o setor da arte e da cultura, esses trabalhadores — provavelmente os últimos a retomarem às suas atividades — viram sua renda diminuir e suas rotinas de trabalho mudarem e, ao que parece, sem data para retornar.

A artista autônoma maranhense Camila Reis já vinha, há alguns anos, trabalhando para ter estabilidade, com planejamento mensal, pequenos contratos com empresas e novas atividades. “Como diversos outros artistas, quando a gente sobrevive só da arte, busca ao máximo ter o mínimo de estabilidade, porque o campo do autônomo é instável”, explica a cantora, compositora e contadora de histórias. Ela atuava como contadora de histórias em livrarias e escolas particulares, entre outras atividades.

Na contação de histórias, tinha a agenda quase sempre cheia durante toda a semana; como cantora, Camila se apresentava em bares, quando havia uma folga em sua agenda. Seu foco estava na produção de seu trabalho independente. As atividades davam a ela certa estabilidade tanto para investir no trabalho quanto no dia a dia. “Quando chega a pandemia, dá uma bagunçada geral. Porque eu trabalhava muito com escola e com eventos que eram todos presenciais, ligados à educação e a crianças, e aí todos os eventos foram cancelados”, narra.
Assim também aconteceu com Aldrey Rocha, ator e palhaço. Ao lado de Aline Campelo, ele lidera o K’Os Coletivo [lê-se Caos], coletivo de palhaçaria, comédia e improvisação teatral de Fortaleza, no Ceará. O grupo estava com uma temporada grande para fazer de março para abril de 2020, quando, de repente, ainda em março, os contratantes ligaram e disseram: “Está tudo cancelado”. “Foi um baque para a gente”, relembra. As apresentações mais para a metade do ano, conta, não foram canceladas, mas adiadas.

Palco online

Quando começaram os primeiros casos em Fortaleza, já se sentia o medo das pessoas e a correria nos supermercados. Aldrey estava na sede do K’Os Coletivo e pegou tudo o que podia. “Eu peguei tudo o que eu podia pegar na área de palhaço e maquiagem, não sei se foi consciente ou inconsciente. Peguei tudo, muito figurino, joguei dentro do carro e fui para casa”, descreve.

Depois de duas semanas com o medo de não estar trabalhando e o pavor em torno do próprio vírus, vieram as mudanças. “O contratante com quem a gente tinha as apresentações marcadas liga para a gente e diz que elas poderiam ser feitas, mas de forma online”, lembra. “A gente recriou muita coisa, porque não tínhamos cenário e figurino em casa. Não tínhamos tudo o que precisávamos. Então a gente reformulou muito os espetáculos. Alguns, não apresentamos, porque é impossível realizar de forma online ou remota”, acrescenta.

Estreias canceladas

No começo das mudanças, a produtora cultural Aline Mohamad estava no Rio de Janeiro para estrear uma peça. “Então, a gente teve um ensaio aberto, a estreia e mais um dia de peça e aí foi quando a gente recebeu um telefonema tipo ‘não venham, a gente vai fechar’”, relembra. “Com a pandemia, é aquilo que já é bem sabido. Nós fomos os primeiros a parar e vamos ser os últimos a voltar. E eu acho que é muito importante que sejamos, sim, os últimos a voltar, porque a gente sabe de todo o problema que é colocar as pessoas dentro de um teatro”, avalia. Aline explica que no Centro Cultural São Paulo, onde também trabalha, houve a volta de um espetáculo de dança, de forma presencial, com a capacidade reduzida. “Isso foi em um momento de tentar reabrir teatros e viu-se que não dava certo e acabou. É assim que funciona. A gente precisa ter consciência de que estamos em um momento muito difícil”, afirma.

Já Camila lembra que, no início da crise, o governo do Maranhão lançou um pequeno edital de apoio aos artistas. Desde a primeira seleção, ela vem buscando participar, além do auxílio emergencial que recebia. “Comparado ao que a gente conseguia levantar antes com o nosso trabalho, é tudo muito menor, mas enfim, a gente vai se adaptando”. A dificuldade gerada pela pandemia não atingiu somente a vida financeira da artista autônoma. A rotina de trabalho também faz falta. “A arte em si e o próprio trabalho, para quem trabalha com o que gosta, alimentam a gente. Então foi criada uma espécie de vazio”, reflete.

Impacto em números

Como noticiou o Nexo Jornal (9/12), 48,88% dos agentes culturais perderam sua receita entre maio e julho de 2020. Os dados são da pesquisa “Percepção dos impactos da covid-19 nos setores cultural e criativo do Brasil”, divulgada em dezembro. A pesquisa, realizada entre junho e setembro de 2020, obteve 2.667 respostas, sendo 69,4% de indivíduos (pessoas físicas e trabalhadores) e 30,6% de coletivos (pessoas jurídicas). Entre março e abril de 2020, 41,06% deles perderam totalmente suas receitas. A pesquisa também avaliou os impactos na cadeia produtiva. As contratações de serviços de terceiros registraram redução total em 43,16% da amostra, no período de março e abril, percentual que subiu para 49,16% entre maio e julho.
Entre as necessidades mencionadas pelos participantes para a saída da crise, além do auxílio financeiro, 18,69% dos respondentes gostariam de obter acesso a informações direcionadas ao setor. A segunda necessidade apontada foi a de participação em redes/networking (17,53%); a terceira, acesso a informações sobre o que fazer no processo de reabertura (16,71%). Os participantes também mencionaram a necessidade de apoio psicológico, suporte de consultoria e treinamento.
Na pesquisa, os participantes responderam sobre os impactos do isolamento social nas suas receitas, durante os meses de março e julho de 2020 e sobre as expectativas para o segundo semestre. O estudo foi coordenado pelos pesquisadores Pedro Affonso, André Lira e Rodrigo Amaral, com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), da Universidade de São Paulo (USP), do Serviço Social do Comércio (Sesc) e do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura.

Apoio emergencial à cultura

Com os impactos vividos pelo setor, foi aprovada, em 2020, a lei nº 14.017, mais conhecida como Lei Aldir Blanc [em homenagem ao poeta e compositor, morto em 2020 pela covid-19], de ações emergenciais para o setor da cultura, a serem adotadas durante o estado de calamidade pública provocado pelo coronavírus. Com a lei, o setor da cultura teve direito ao pagamento de um auxílio emergencial específico para aqueles afetados pela pandemia. O benefício foi pensado para trabalhadores e trabalhadoras, empresas, instituições e espaços de cultura, determinando que R$ 3 bilhões fossem destinados à área da cultura, o que aconteceria pelo repasse do governo federal para estados e municípios, que fariam o gerenciamento dos recursos.

Aldrey acredita que a Lei Aldir Blanc foi “de extrema importância” nesse momento. “Em diálogo com outros artistas, a gente pode dizer: se um investimento como esse existisse sempre, o Brasil seria outro em relação à arte”, aponta. Ele explica que a lei conseguiu alcançar muitos artistas, por ser descentralizada. Os editais vieram também de setores privados, que passaram a lançá-los para manter vivo o trabalho dos artistas. “Passado tudo isso, eu acredito que algo possa permanecer”, reflete Aldrey.

Apesar das adaptações e da possibilidade de se apresentar online, o número de espetáculos e apresentações diminuiu. E como consequência, também houve impacto na renda. “Por mais que a gente estivesse expondo o trabalho na internet, o retorno financeiro é muito lento ou quase nada para o que nós tínhamos antes”. O grupo conseguiu realizar projetos por meio da Lei Aldir Blanc. “Por meio desse recurso que a gente recebeu, começamos a realizar projetos que também incluíam outros artistas, que não tinham muito acesso. Isso ajudou não só a gente como também outros amigos que trabalham com arte”, avalia.

Camila já trabalhava com editais e projetos, por isso não teve muita dificuldade em se adaptar à lei. “Eu consegui dialogar fácil, mas para quem é artista e não tinha essa prática, é algo que acaba tendo certa dificuldade para se adaptar do dia para a noite”, pondera. Além de editais do estado e de outras entidades, ela considera a lei como a maior oportunidade para obter recursos no Maranhão.

Já Aline Mohamad define a Lei Aldir Blanc como “uma conquista do povo da cultura”. “É um dinheiro que já era nosso, que a gente tinha direito, mas não tinha acesso. Precisou vir uma pandemia e de muito barulho para que a gente tivesse direito a esses recursos”, ressalta. Segundo a produtora, as execuções da Lei Aldir Blanc foram “um respiro” para que os artistas pudessem receber pelo trabalho. “Artista não para, artista sempre se reinventa e se redescobre. Viver de bilheteria virtual estava muito difícil. Alguns conseguiram uma boa bilheteria virtual, mas nem sempre”, pontua.

Entretanto, a produtora ressalta que é preciso pensar na continuidade do setor, agora que as medidas foram executadas. “Como é que vai ser daqui para frente? É uma questão que a gente precisa pensar e repensar, porque a pandemia não acabou e nem vai acabar agora. Esse retorno vai ser demorado”, avalia. Atrasos fizeram com que parte do dinheiro da lei — 773,9 milhões de reais — não fossem executados. Em março, a Câmara dos Deputados aprovou um Projeto de Lei do Senado que reformula a Aldir Blanc. Com isso, prorroga os prazos para a aplicação dessa parte dos recursos, possibilitando que municípios reabram editais e chamadas públicas, além da compra de bens e serviços até o primeiro semestre de 2022. Até o fechamento desta edição, o projeto dependia de sanção presidencial.

Adaptar é preciso

“A gente foi aprendendo a se reinventar”, diz Aline. Entre as adaptações, ela lembra que o Circuito Paralelo de Artes de São Paulo, a Faroffa, teve outra edição, agora online, com a exibição de mais de 170 espetáculos. Ela também conseguiu fazer um monólogo presencial e com transmissão ao vivo, com a lei de apoio à cultura durante a pandemia. Já outra peça não pode ser adaptada. “A gente não conseguiu adaptar para a forma online ainda ou talvez ela não seja adaptada, porque eram 15 mulheres pretas em cena. É uma peça que, voltando, vai ser uma das últimas”, afirma, em referência ao número de integrantes.

Em 2020, a forma de trabalhar do K’Os Coletivo também mudou. Já em março do ano passado, foram obrigados a transformar seu trabalho para ser apresentado de forma online, seja gravado ou ao vivo. Organizaram lives, com tempo máximo de uma hora de apresentação. Com isso, foi preciso adaptar o formato do espetáculo, a estrutura e o tempo. Acostumados a lidar com criação e improvisação, o K’Os Coletivo encontrou dificuldade maior na falta de todos os equipamentos, como cenário e figurino. A equipe também fez outros tipos de apresentações de forma gravada e, poucas vezes, de maneira presencial, seguindo as regras para a pandemia.

Apesar dos editais a que eles têm acesso e dos auxílios, o número de apresentações não chega a 20% do que tinham antes. Mesmo com os impactos em sua vida, Aldrey reforça que compreende as medidas de restrição. “A gente sabe que se tem diminuição dos casos, a gente volta a trabalhar. A gente é bem consciente em relação a isso”, reforça. Já Camila conta que a estabilidade foi “totalmente impactada”. “Eu estava buscando ter sempre uma agenda de trabalho organizada para que eu me mantivesse como artista independente”, relata. Esse sonho da independência teve de esperar um pouco.

Impactos em cadeia

Aldrey conta que o início da pandemia foi desafiador. Com os 15 anos do K’Os coletivo, o grupo conseguia ter uma reserva, o que possibilitou que se mantivessem, ainda que de forma preocupante. “E ainda é preocupante”. Mas essa não é a mesma realidade de todos os seus amigos. “A gente tem muitos amigos do circo e do teatro — principalmente do circo — que são pessoas que não tem acesso ao que a gente tem, à internet, com um celular que dá para filmar”, reflete. “Acho que essa foi a maior preocupação, porque a gente teve que se fortalecer mais ainda como artistas”, afirma.

A pandemia não afetou só aqueles que trabalhavam nos palcos. Na enorme cadeia da arte e da cultura no Brasil, diversos profissionais sentiram igualmente o impacto em suas rotinas. Foi assim para Aline. Trabalhadora da cultura há mais de 20 anos, ela lembra de todos os empregos direitos que o setor gera. “Um monólogo, que é uma pessoa em cena, precisa de pelo menos 15 pessoas por trás. Então são 15 pessoas que conseguem um emprego direto naquele projeto”, argumenta.
Ela exemplifica sobre as mudanças geradas pela pandemia em outros profissionais envolvidos com o seu trabalho. “Quando eu vou ao Rio, eu vejo um banner da estreia que eu fiz dois dias antes de parar. A gente ensaiou por três meses para fazer a peça por dois dias. O cara que fez o banner, fez aquele e acabou e, por um ano, ele está sem receber”, reflete.

Os impactos da crise não atingiram só a rotina e a renda dos trabalhadores, mas também geraram um cenário de incertezas. Segundo Aline, no meio artístico, espera-se muito que a produção tenha resposta e solução para tudo. Desta vez, ela não tinha. “Com a pandemia, entendi que tudo bem eu não ter resposta imediata para tudo, e que eu não sou menos profissional por isso”, ressalta.

“Para o setor das artes em geral, penso que a pandemia botou a gente do avesso”, diz Camila. Ela lembra que, no seu caso, ainda tinha uma rede e já contava com eventos como pré-venda de livros online, além do trabalho com divulgação de músicas no Spotify e Youtube. “Agora, é uma nova dinâmica e que muita gente teve que se adaptar. Foi muito impactante para o setor artístico. Aliás, tem sido. Penso tanto no impacto econômico como no sentido do que é esse nosso fazer artístico distante do público”, conclui.


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