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Sexta-Feira 30.jul.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Uma bússola desgovernada

A rejeição à máscara de proteção contra a Covid 19 é a mesma que sentimos com a obrigação do cinto de segurança

Postado em 16 de Junho de 2021 - Theresa Hilcar

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Eu vi. Ninguém me contou – é bom que se esclareça. Até porque, a bem da verdade, se tivesse apenas ouvido a história talvez ficasse meio na dúvida. Afinal, estamos vivendo tempos em que os fatos mudam facilmente de versão.  

Era um domingo de manhã, por volta de 09h, horário que me pareceu mais tranquilo e adequado para descer até a mercearia bem na esquina do prédio. Normalmente neste horário não há mesmo ninguém fazendo compras. No centro da cidade esta é uma hora reservada para os fiéis irem à missa.

Portanto, não havia realmente nenhum cliente à vista - respirei aliviada. Mesmo vacinada e munida de duas máscaras (pois é, sou prevenida) evito entrar em locais onde há muita gente. Mas o alívio, no entanto, durou pouco.  

No instante eu que escolhia algumas frutas, indecisa entre ameixas frescas e peras suculentas, percebi a chegada de três pessoas a uma gôndola de distância. Era um casal de meia idade e, logo atrás, mais uma senhora aparentando uns 70 anos.  

Observadora, quase uma fiscal de máscaras pode-se dizer assim, logo notei que dos três recém-chegados apenas uma pessoa usava máscara no lugar adequado. Um deles trazia a dita no queixo e a senhora desacompanhada talvez a trouxesse na bolsa, ou em casa. No rosto, nem pensar!

Como é de lei entrar nos lugares usando o acessório que nos protege da terrível Covid 19, percebi quando um funcionário abordou discretamente a mulher que usava roupas domingueiras, óculos de grife e bolsa idem.  

A discrição, no entanto, não foi recíproca. Logo ouvi os grunhidos raivosos seguidos de declarações tipicamente negacionistas: “Não uso, não preciso e ponto final”. O funcionário tentava explicar que era a lei, corria o risco de o estabelecimento ser multado. “Pode mandar a multa que eu pago”, esbravejou com dedo em riste.

Confesso que meu nível de tolerância anda meio baixo. Uma cena dessas teria me tirado do sério, não fosse o efeito da meditação feita meia hora antes. Mas se as palavras se calaram, o coração ficou amargurado. E tive sim, vontade de conversar com a mulher e explicar algumas coisas que talvez ela não saiba. Ou ignore por autoproteção ou simplesmente por arrogância, vai saber.

Mas devo admitir que a raiva me intimidou. O olhar de certeza, a voz cortante, a postura agressiva, tudo isto me desconcertou. Aliás, sempre me deixam desconfortáveis os embates, sejam apenas expressivos ou verbais. Desde a infância tenho medo de gente brava. Aliás, corro delas. Nem os anos todos de terapia me deramcoragem para enfrentamentos emotivos.

Melhor assim. Pois contando a história aos colegas da redação, alguém me lembrou do tempo em que as pessoas se recusavam a usar o cinto de segurança. Logo que a lei foi instaurada no País, houve até quem dissesse que o cinto aumentava o risco de morte.

Lembro que o programa de TV “Fantástico”, à época a grande bússola dos brasileiros, fez uma reportagem imensa sobre os prós e – pasmem – os contras do uso do cinto de segurança. Feita a comparação, fica mais fácil entender o comportamento insano de quem se recusa usar a máscara correta pelos motivos mais justos.

Eles certamente estão seguindo uma bússola estragada, equivocada. E, claro, nunca vão admitir o erro. Nem os estragos que um simples gesto pode fazer na vida de milhões de pessoas. Só por Deus!


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