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Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Coluna

O Futuro está órfão

A tragédia de crianças e adolescente na Pandemia

Postado em 16 de Junho de 2021 - Túlio Franco

Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

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Zaíta, Di Lixão, Lumbiá, Kimbá, Ardoca, são os meninos e meninas da Conceição Evaristo[1], personagens do seu livro “Olhos D’Água”. Eles têm a vida vivida em histórias que se repetem no dia a dia de milhares de jovens, morando nas periferias das grandes cidades. E que lidam diariamente com a violência batendo à porta, cercando os becos, no grito alto na festa. Violência que é bala perdia que acha, sangue que transborda da veia, lágrima de mãe, criança no asfalto, fome que não cala, arma na cara, filho caído. Amarildo sequestrado, torturado e morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora. Repito: Pacificadora.

A mortalidade de jovens no Brasil tem dados assustadores, conforme demonstra o IPEA no Mapa da Violência publicado em 2020:  os homicídios são a principal causa de mortalidade de jovens (pessoas entre 15 a 29 anos). Foram 30.873 jovens vítimas de homicídios no ano de 2018, o que significa uma taxa de 60,4 homicídios a cada 100 mil jovens e 53,3% do total de homicídios do país. É o assassinato de futuros que vai produzindo escombros em torno de uma geração que cresce, acuada pelo medo, abandonada à sorte de uma polícia racista, “multifóbica” e violenta. Estas crianças vivem ainda cercadas pelo assédio de grupos do narcotráfico; e sob a ameaça de milícias que controlam extensos territórios por exemplo no Rio de Janeiro.

Na pandemia os cenários de abandono às crianças e adolescentes se amplificou. A resposta à transmissibilidade do vírus e ameaça da doença de Covid-19 no setor da educação foi o fechamento de escolas. Isto colocou milhões de meninos e meninas da rede pública de ensino a viverem sem o necessário e fundamental apoio da educação, que, como sabemos, é também importante para a segurança alimentar, orientação para enfrentar a vida, suporte para o conhecimento, defesas contra um mundo hostil à sua volta. O efeito do abandono das crianças na pandemia é devastador para a saúde mental, e a produção da sua vida no cotidiano, prejudicando estruturalmente o desenvolvimento de uma geração inteira, atormentada e manifestando estados de ansiedade, medo e depressão como sinais da grave tragédia a que estão expostos[2].

Diante do abandono a que as crianças estão submetidas no contexto da pandemia, um contingente importante delas aderiram ao trabalho infantil, aprofundando a tragédia sobre uma geração de meninas e meninos, soterrando possibilidades para o seu futuro. Pesquisa realizada em São Paulo pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), entre abril e julho de 2020, entrevistou 52.744 famílias assistidas pela entidade. Foi identificado aumento de 26% do trabalho infantil entre as famílias entrevistadas, comparados os dados de maio de 2020, com aqueles obtidos em julho do mesmo ano. O mesmo se repete em outros lugares no país, como por exemplo, na cidade de Santos-SP houve aumento de 26,5% de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil nas ruas da cidade, em relação ao mesmo período do ano passado (2020), segundo relatório da Secretaria de Desenvolvimento Social da cidade.

Há uma grande exposição das crianças à violência, assédio, trabalho infantil, fome, e às mazelas de uma vida aflita, no pior cenário que se poderia prever para o enfrentamento da pandemia no Brasil. O morticínio de jovens negras e negros, pobres, são as imagens devastadoras que chegam às salas de televisão de todas as casas completando o cenário de desamparo a que a infância e juventude se encontram.

No dia 9 de dezembro de 2020 o El País publica foto com crianças de 4 anos fazendo uma manifestação contra o assassinato a que são acometidas. A foto estampa bonecas pintadas de vermelho simulando o sangue na cabeça e na face, e o cartaz que grita para o mundo: “Parem de Matar Nossas Crianças. Amamos vocês”, coraçõezinhos ilustrando.

Emilly, Rebecca, João Pedro, Ágatha, Kauan, Marcos Vinícius, tinham entre 4 e 16 anos, atingidas por armas de fogo, e deixaram famílias devastadas com suas mortes.  Milhares como elas estão nas ruas desse Brasil que teima em não desaparecer, resistir, mas que tem um futuro órfão, sem as milhares de crianças e adolescentes que são barbaramente assassinadas por balas que buscam o alvo e encontram. Não existe “bala perdida”.

 

 

[1] Conceição Evaristo é romancista, poeta e contista, homenageada como Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti 2019 e vencedora do Prêmio Jabuti 2015. Além disso, Conceição Evaristo também é pesquisadora na área de literatura comparada.

[2] Quase metade do total de 50 milhões de matrículas da educação básica está nas redes municipais (48%), as redes estaduais atendem a um terço (32%) e o setor privado recebe 20%. Há 180 mil estabelecimentos de ensino de educação básica e nas redes municipais, responsáveis por 60% deles, menos da metade conta com salas de leitura ou biblioteca, apenas 20% dispõem de internet para estudantes, e somente 1/3 oferece computador. Fonte: INEP. Resumo Técnico do Censo da Educação Básica 2019. Brasília, 2019.


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