Semana On

Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Saúde

CPI investiga negócios firmados sob a obsessão de Bolsonaro pela cloroquina

Presidente põe em dúvida a eficácia das vacinas que ele comprou

Postado em 11 de Junho de 2021 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

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A CPI da Covid mudou de patamar. Até aqui, a comissão seguia as pistas deixadas por Bolsonaro para confirmar a inépcia administrativa do governo na gestão da pandemia. Nas próximas semanas, a investigação ganhará uma face financeira. Sem alarde, os senadores do G7, grupo majoritário da CPI, inauguraram a nova etapa ao incluir no rol de convocações aprovadas nesta quarta-feira o nome do empresário bolsonarista Renato Spallicci.

Spallicci é presidente da Apsen Farmacêutica. Vem a ser o maior fabricante de hidroxicloroquina do país. Em notícia veiculada em março, a Folha informou que a empresa assinou em 2020 dois empréstimos com o BNDES, o banco estatal presidido por Gustavo Montezano, amigo de infância dos filhos de Bolsonaro. Juntos, os financiamentos do BNDES à Apsen somam R$ 153 milhões, dos quais R$ 20 milhões já foram liberados.

Documentos oficiais obtidos pela CPI vinculam Bolsonaro à intermediação do fornecimento de insumos a um par de empresas para a fabricação de hidroxicloroquina. A Apsen Farmacêutica é uma delas, A outra é a EMS, vistosa logomarca do mercado de remédios. São esses fios da meada sanitária que os senadores do grupo majoritário da CPI desejam puxar nas próximas semanas.

Bolsonaro põe em dúvida a eficácia das vacinas que ele comprou

Falta a CPI da Covid-19 provar que o presidente Jair Bolsonaro boicotou o quanto pode a compra de vacinas? Se faltar, não falta mais depois do que ele repetiu, ontem, ao desautorizar o que havia dito seu ministro da Saúde a menos de 24 horas.

À CPI, Marcelo Queiroga, médico, disse que a cloroquina e outras drogas não têm eficácia comprovada contra o vírus. O mundo sabe disso há muito mais de um ano, mas ainda assim agradece. Queiroga, que não é censor de Bolsonaro, ouviu de volta:

“O tratamento precoce não tem comprovação científica… E eu pergunto: a vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda? Está em estado experimental”.

Foi o que disse Bolsonaro durante um evento com igrejas evangélicas em Anápolis, cidade goiana próxima a Brasília. O mundo não agradeceu porque cansou de se horrorizar com as falas do presidente da República do Brasil.

Quer dizer que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgão da Saúde, liberou vacinas ainda em estágio experimental? O governo, com atraso, comprou milhões de doses de vacina sem saber se elas funcionam? E os demais países, também?

É nisso que Bolsonaro quer que os brasileiros acreditem. Seus devotos irracionais até poderão acreditar. Parte dos racionais, idem, porque conseguem achar graça do que consideram apenas exageros do presidente. Quem for minimamente informado, não.

A eficácia das vacinas ora em uso foi comprovada em escala planetária. Milhões de testes aplicados confirmam que elas reduzem o número de mortos. Não é questão de fé, mas de ciência. Nada tem a ver com direito à livre manifestação de pensamento.

A terra é plana? Não é. Quem diz que é, mente. No início dos anos 1970, milhões de pessoas duvidavam que o homem tivesse pisado na lua. Hoje, não cabe mais dúvida. Passou o tempo dos ermitões que, isolados do mundo, ignoravam os acontecimentos.

Então, Bolsonaro só pode dizer muitas das coisas que diz com o propósito de enganar e de tirar proveito disso. O Tribunal de Contas da União desmentiu a autoria de um documento sobre a supernotificação do número de mortos pela Covid.

Foi Bolsonaro que espalhou que quase 50% dos pacientes que tiveram sua morte atribuída ao vírus foram a óbito por outras causas. Apócrifo, o documento foi escrito por um auditor bolsonarista do tribunal, Alexandre Marques. Quem vem a ser…

Não só amigo dos três filhos zero do presidente, mas filho de Ricardo Silva Marques, coronel do Exército reformado, da mesma turma de Bolsonaro que se formou em 1977 na Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro.

Marques, pai, antes da reforma, ganhou de presente de Bolsonaro um cargo na gerência de inteligência da Petrobras. Marques, filho, enviou para ele o falso documento. Marques, pai, transmitiu-o a Bolsonaro, que o pôs a circular na internet.

Apesar do desmentido do tribunal que abriu processo administrativo e disciplinar contra Marques, filho, afastando-o do trabalho por 60 dias, Bolsonaro voltou a falar de fraude no número de mortos pela Covid. Afirmou em Anápolis:

“Se retirarmos as possíveis fraudes, em 2020 o país teve o menor número de mortos [na pandemia] por um milhão de habitantes. Que milagre foi esse? O tratamento precoce”.

Em três frases, mentiu três vezes. Insistiu com “possíveis fraudes” que não ocorreram; ofereceu a conta falsa do número de mortos por um milhão de habitantes; e atribuiu o resultado ao “milagre” do “tratamento precoce” com drogas ineficazes.

Bolsonaro fez lobby junto ao governo da Índia para que liberasse o insumo necessário à fabricação de cloroquina por duas empresas no Brasil. As duas empresas são de empresários bolsonaristas. A CPI tem documento oficial com a transcrição das conversas.

O que ele ganhou com isso? Uma parte é perfeitamente dedutível: ganhou a desculpa para recomendar a droga e deixar que morressem os que tivessem de morrer, economizando dinheiro. A outra parte… Só o futuro dirá, mas dá para imaginar.

Novo surto torna Bolsonaro dirigente paralelo presidido pelo coronavírus

Num culto evangélico na cidade goiana de Anápolis, Bolsonaro atingiu a perfeição da insensatez. Roçou o mais alto nível na escala da demência verbal. Falou durante insuportáveis minutos sem tropeçar numa única expressão lúcida. O capitão conseguiu o inimaginável: superou a si mesmo.

Num único discurso, Bolsonaro desinformou a plateia ao equiparar as vacinas à cloroquina e ao "chá de casca de árvore" dos índios da Amazônia, disse que o tratamento precoce é que salva vidas, reiterou que governadores supernotificam o número de mortos por covid, repetiu a insinuação de que o coronavírus foi fabricado num laboratório chinês...

Como se tudo isso fosse pouco, Bolsonaro voltou a dizer que tem "provas materiais" de que houve fraude nas urnas de 2018, que consagraram a sua vitória. Declarou que, sem a mutreta, teria sido eleito no primeiro turno. Deveria levar o caso às últimas consequências, exigindo a realização de nova eleição. Seria ovacionado.

No ponto em que equiparou a ciência ao charlatanismo, Bolsonaro indagou: "A vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda?" Ele mesmo respondeu: "Está experimental." Enxergou vantagens no seu remédio de estimação: "Nunca vi ninguém morrer por tomar hidroxicloroquina..."

Tratou a hipotética supernotificação de mortos não mais como indício, mas como "uma constatação". Ironizou a própria loucura como se não sofresse de insanidade. Aproveita cada segundo dela. "Talvez eu seja o único chefe de Estado do mundo que fala isso", constatou. "Será o único certo, capitão?"

Bolsonaro comparou sua aposta na fraude funerária a um prêmio da mega-sena. "Alguns acertam sozinhos, acontece. Se nós retirarmos as possíveis fraudes, teremos em 2020 o nosso país, o Brasil, como aquele com menor número de mortos por covid. E aí vem o importante: que milagre é esse? O tratamento precoce."

Já estava entendido que Bolsonaro escolhera viver num país alternativo, aconselhando-se com a turma do "gabinete paralelo" da saúde e escorando sua retórica tóxica numa auditoria paralela do TCU. O discurso de Anápolis revelou que Bolsonaro tornou-se, ele próprio, um dirigente paralelo presidido pelo coronavírus.


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