Semana On

Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Poder

Brasil passa de 480 mil mortos por covid-19 enquanto Bolsonaro segue campanha contra máscaras

Por que especialistas são contra dispensar máscaras no Brasil?

Postado em 11 de Junho de 2021 - Josias de Souza, Leonardo Sakamoto (UOL), DW - Edição Semana On

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O Brasil se aproxima paulatinamente das 500 mil mortes causadas pelo Covid-19. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro segue agindo contra o combate ao vírus.

O Brasil é o segundo país com o maior número de mortos por covid-19 no mundo. Mesmo assim, a postura de Bolsonaro foi, desde o início do surto, de ignorar a ciência, promover aglomerações, tentar impedir medidas de isolamento social e de proteção pessoal, sabotar a aquisição de vacinas e esconder mentirosamente a gravidade da covid-19.

No último dia 10, contrariando as indicações da ciência, Bolsonaro anunciou que deu ordem para que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, suspenda a obrigatoriedade do uso de máscaras por quem já tiver sido vacinado ou contaminado. “Queiroga vai ultimar parecer visando desobrigar uso de máscara de quem estiver vacinado ou já tenha sido contaminado”, disse, durante um evento do setor do turismo.

A decisão de Bolsonaro contraria recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Primeiramente, “ignora” que pessoas que já foram infectadas pela covid-19 podem ser reinfectadas. Já sobre as vacinadas, “esquece” que os imunizantes não impedem a transmissão do vírus. Além disso, o Brasil tem baixo índice de vacinação, são pouco mais de 10% os vacinados com duas doses. Ou seja, ainda é grande a vulnerabilidade da população brasileira ao coronavírus.

A biomédica e neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19, demonstrou espanto com a postura do presidente.

“Temos uma lei federal sancionada para o uso de máscaras. Sério, não há possibilidade de isso ser cogitado nesse momento. Nós não somos os EUA, que estão vacinando em massa e com um cenário bem diferente do nosso. Nós não somos Israel ou outros países europeus que já estão em outro cenário da pandemia”, disse.

Ela fez referência a dois países que já vacinaram mais de 50% da população, e apenas os vacinados não precisam usar mais máscaras.

Ao contrário do que prega Bolsonaro, o caminho é inverso. O fim do uso de máscaras em um cenário de descontrole da pandemia com tendência de crescimento de casos e mortes, como é o caso atual, pode até mesmo desencadear mutações virais.

Isso significa risco sanitário para todo o mundo, já que o Brasil pode intensificar sua posição de “celeiro” de novas cepas e variantes – mais agressivas e mais transmissíveis – do vírus Sars-Cov-2.

“Certamente temos um caminho até lá (superar a crise), e para que a gente o trilhe da forma mais segura e estratégica possível, precisamos que, além da vacinação, medidas como uso de máscaras e distanciamento físico sejam adotadas por todos”, reforça a Rede Análise Covid-19, em comunicado expresso horas antes do anúncio negacionista de Bolsonaro.

Ataque de Bolsonaro à máscara reforça mentira de que STF não o deixa agir

Após atuar como um Jim Jones pandêmico, o presidente afirmou, um dia depois, que "quem decide na ponta da linha é governador e prefeito".

Bolsonaro é tosco, mas não politicamente burro. Ele sabe que os decretos estaduais e municipais tornariam sem efeito qualquer parecer, recomendação ou decreto federal que queira tornar desnecessário o uso de máscaras. Mesmo assim, agiu como se a decisão só dependesse dele.

Em abril do ano passado, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a competência concorrente de estados, Distrito Federal, municípios e União no combate à covid-19. Traduzindo: todos podem e devem participar da elaboração de execução da política contra a pandemia.

Desde então, Bolsonaro, que desejava do STF a autorização para impedir quarentenas e lockdowns, vem espalhando a mentira de que a corte decidiu que o combate ao coronavírus cabe apenas a governadores e prefeitos. E a ele teria restado apenas o repasse de recursos para as ações.

Com isso, ele vem terceirizando a responsabilidade por mortos e desempregados. E, buscando a estratégia de imunidade de rebanho, negou-se a comprar vacinas no ano passado, defende remédios sem eficácia, promove aglomerações e tem atacado, como ontem, o uso da máscara.

Falando para os seus fãs em frente ao Palácio do Alvorada, o presidente reforçou esse entendimento nesta sexta: "Eu não apito nada, né? Segundo o Supremo, quem manda são eles. Mas nada como você estar em paz com a sua consciência".

Não tenham dúvidas que ele usará reações tanto à sua declaração quanto à tentativa de desobrigar o uso de máscaras para reforçar a mentira de que o STF o alijou do processo decisório sobre a pandemia. De olhos na montanha de mortos, que deve alcançar meio milhão nos próximo dias, ele precisa reforçar justificativas para tirar o corpo fora.

Além dessa dimensão, a declaração estapafúrdia e criminosa de quinta (10) teve múltipla serventia. Ajudou a sabotar os esforços de quem combate a pandemia, empoderou o naco negacionista de seus seguidores, colocou a população em risco ao atacar uma das únicas formas de se proteger, uma vez que metade do país já estaria completamente vacinada, neste momento, se ele tivesse aceitado a oferta da Pfizer e do Instituto Butantan para o fornecimento de doses ainda no ano passado.

Mas também serviu para cutucar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que reconheceu que a cloroquina não tem eficácia contra a covid-19 em sua segunda visita à CPI da Covid.

E para jogar uma cortina de fumaça sobre o avanço das investigações da comissão sobre as relações incestuosas entre o presidente e os empresários que produzem cloroquina. A fase de "seguir o dinheiro" da CPI pode ser bastante comprometedora para Bolsonaro.

Pipocam pelo Brasil casos de pessoas que se negam a usar máscara em ambientes públicos e privados. Algumas até fazem ameaças com armas de fogo, que se tornaram facilmente acessíveis durante o mandato de Bolsonaro. A necropolítica escorre pela sociedade, chegando à sua base eleitoral, que, fortalecida pelo presidente, mostra que o capricho pessoal vale mais que a saúde coletiva.

Não há, entre todas as consequências possíveis das declarações da quinta, nenhuma que proteja a vida e a economia. Em nome de seus ganhos políticos, Bolsonaro aceita de bom grado o país se tornar um cemitério.

Queiroga revela-se mais inútil do que Pazuello

Ao anunciar a intenção de afrouxar o uso de máscaras, Bolsonaro informou ao país que o presidente da República continua do lado do vírus, não dos brasileiros. Ao declarar que vai "estudar" o tema, o ministro Marcelo Queiroga esclareceu que o Brasil, além de não poder contar com o seu presidente, não dispõe de um ministro da Saúde. Queiroga revela-se mais inútil do que Eduardo Pazuello. O general podia invocar a hierarquia militar para se submeter ao capitão. Mas o cardiologista não tem como explicar por que joga trinta anos de exercício da medicina pela janela para terminar como marionete de um presidente sem escrúpulos. Queiroga incorpora-se à paisagem de Brasília como atração turística, não como médico.

O Brasil deixou de ser um país. Virou zona de guerra. A nação está sendo atacada pelo capitão que ocupa o Planalto camuflado de presidente. Cada novo discurso de Bolsonaro é uma bomba sanitária disparada contra os brasileiros. A ofensiva tem efeito devastador.

Vinte em cada dez infectologistas avaliam que o abandono da máscara num país em que apenas 11% da sociedade foi premiada com duas doses de vacina produzirá mais morte. O "tal de Queiroga", suposto ministro da Saúde, não ignora o potencial de letalidade da providência. Mas declarou que vai "estudar" a matéria. Não se sente pressionado. "O presidente não me pressiona. Trabalhamos em absoluta sintonia. [...] O presidente sempre nos aconselha de maneira muito própria..."

Queiroga abriu a semana declarando na CPI da Covid o seguinte: "A maior oportunidade da minha vida quem me deu foi o presidente Bolsonaro." Nos dias subsequentes, o hipotético ministro da Saúde assistiu em silêncio ao bombardeio do capitão contra o Brasil. Rasgando a máscara, o presidente equiparou vacinas à cloroquina, disse que a contagem de mortos por covid está superfaturada em mais de 50%. E proclamou: o que salva vidas é o tratamento precoce.

Bolsonaro não destrói apenas a saúde. Ele ataca frontalmente a inteligência brasileira. Queiroga não se limita a obedecer. Soando como um sub-Pazuello, o doutor diz estar "em sintonia" com o chefe, de quem recebe orientação "muito própria."

O "tal de Queiroga" se diz defensor da ciência. Mas não se constrange de fazer pose de médico ingênuo sendo usado, vendo o que resta de sua reputação explorada por um espertalhão negacionista. O presidente não tem comprovação científica, mas o "tal de Queiroga" leva a cara à TV para dar verniz técnico à mortandade.

O general Eduardo Pazuello ainda podia invocar em sua defesa a hierarquia militar. Mas o cardiologista não tem como explicar por que joga trinta anos de medicina pela janela para terminar como marionete. Não uma marionete qualquer. Uma marionete encantada com a humilhação.

Quando assumiu o Ministério da Saúde, o "tal de Queiroga" disse que veio para produzir luz, não calor. O doutor ainda encontrou a luz. Mas ajuda Bolsonaro a normalizar o pus que conduz à morte de quase 500 mil pessoas.

Por que especialistas são contra dispensar máscaras no Brasil

Depois da fala do presidente, Queiroga confirmou que será feito um estudo sobre o assunto e afirmou que o ministério quer que o uso de máscara seja descartado o mais rápido possível, mas que, para isso, a vacinação no país precisa avançar. Especialistas criticaram duramente a proposta do presidente, afirmando que este não é o momento de suspender o uso da proteção no Brasil.

O infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), classificou a proposta de Bolsonaro de absurda. "Infelizmente uma declaração como essa é um incentivo para que as pessoas se infectem mais", afirmou à Folha de S.Paulo, destacando que não se pode garantir que quem já teve covid-19 não será reinfectado e que pessoas vacinadas também correm risco de contrair o vírus.

Ele ressaltou que, em países onde já se retirou a obrigação do uso de máscara para vacinados, como os EUA, o número de imunizados é maior, e mesmo assim a decisão causou polêmica.

Munir Ayub, membro do Comitê de Imunização da SBI e professor de Infectologia da Faculdade de Medicina do ABC, afirmou ao portal G1 que suspender o uso da máscara no estágio atual da epidemia no Brasil seria temerário. "Mesmo a pessoa que já teve ou que já foi vacinada não está livre de se reinfectar. Enquanto estiver circulando o vírus neste nível alto, não existe essa possibilidade [de abolir o uso de máscaras]. É uma orientação apenas política, porque não tem nenhuma justificativa médica para isso", disse.

A médica infectologista Luciana Becker, no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, de São Paulo, ressaltou, em entrevista à Folha, que as vacinas protegem de casos graves e, "mesmo que o imunizado tenha uma chance enorme de ter desfecho positivo se pegar a doença, pode passar o vírus a outras pessoas".

O médico Renato Kfouri, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), aponta que, a tendência é que a imunidade se perca com o tempo e que, à medida que a pandemia avança, a probabilidade de reinfecção pelo coronavírus aumenta.

A disseminação de variantes com capacidade de driblar a imunidade induzida por uma infecção anterior, como a detectada pela primeira vez em Manaus, também aumenta a chance de reinfecção, ressaltou em entrevista ao portal Poder360.

Comparação com os EUA

A médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), comparou a situação brasileira com a dos Estados Unidos.

O governo americano anunciou em meados de maio o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção na maioria das situações para pessoas que já foram completamente vacinadas contra a covid-19, numa tentativa de estimular a vacinação. Vacinados, porém, devem continuar usando máscaras em determinados ambientes fechados, como ônibus, aviões, aeroportos, consultórios médicos e hospitais.

As principais diferenças, ressaltou Dalcolmo ao G1, estão na taxa de transmissão, significativamente mais baixa nos EUA do que no Brasil, e na cobertura vacinal.

Segundo levantamento do Imperial College de Londres atualizado nesta terça-feira, a taxa de transmissão (Rt) da covid-19 no Brasil estava em 0,99 – ou seja, 100 pessoas infectadas transmitem o vírus para outras 99. Quando a taxa ultrapassa a marca de 1, a situação é considerada particularmente grave. Nos EUA, a taxa estava em 0,81.

De acordo com levantamento da imprensa brasileira, 25% da população do Brasil recebeu ao menos uma dose de vacinas contra a covid-19, enquanto somente 11% estão completamente vacinados, tendo recebido duas doses. Nos EUA, 43% da população já foi totalmente imunizada. 

"Enquanto não interviermos diminuindo a transmissão na comunidade no Brasil e não obtivermos uma taxa de vacinação que, eu diria, não pode ser menor que 70%, sem dúvida nenhuma ainda estamos sob risco", afirmou Dalcolmo.

O vice-presidente da SBI, Alberto Chebabo, afirmou que além da baixa cobertura vacinal, alta taxa de infecção e circulação viral, outra diferença entre a situação epidemiológica do Brasil e dos EUA é a estação do ano. "Estamos no inverno, quando as infecções respiratórias aumentam. Exatamente o contrário dos EUA", disse o infectologista ao G1.

Para justificar a flexibilização da obrigatoriedade de máscaras para vacinados, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirmou que dados recentes haviam apontado alta eficácia de vacinas para evitar infecções. No entanto, a proteção contra contágios varia de acordo com a vacina.

Os principais imunizantes usados nos Estados Unidos, são os da Pfizer-BioNTech e da Moderna, ambos com tecnologia de mRNA mensageiro. Dados preliminares coletados em Israel apontaram que a vacina da Pfizer é 89,4% eficaz na prevenção de infecções. O imunizante, no entanto, começou a ser aplicado no Brasil apenas no início de maio. 

Proteção individual e coletiva

Assim como outros especialistas, Dalcolmo também ressaltou que mesmo quem já foi infectado ou vacinado pode contrair o coronavírus, e, portanto, transmiti-lo. "Nenhuma das vacinas tem 100% de efetividade. As vacinas não fazem milagre quando a transmissão na comunidade está muito alta", afirmou. "Então, por favor, usem máscaras, que vão proteger a nós mesmos e àqueles com quem convivemos.”

O epidemiologista Pedro Hallal também enfatizou que a vacinação serve tanto para a proteção individual quanto para a proteção coletiva. "O uso de máscara pelos já vacinados mira na proteção coletiva, porque as vacinas previnem contra infecção e casos graves. Mas não, na mesma medida, contra a transmissão. Então, se os vacinados não usarem máscara, eles podem contribuir para a disseminação do vírus. Essa é a questão central", disse ao Estado de S.Paulo.

Ele também afirmou que as máscaras podem ser deixadas de lado somente quando a população estiver perto de alcançar a chamada imunidade de rebanho ou coletiva, ou seja, quando cerca de 70% da população tiver anticorpos. "Aqui, no Brasil, a estimativa é que nós não tenhamos nem 30% com anticorpos. Então, estamos muito longe ainda", disse.

Cientistas estrangeiros também já ressaltaram a importância do uso de máscaras mesmo após a vacinação e infecção.Em artigo publicado em março no site da Universidade Johns Hopkins, dos EUA, referência global sobre covid-19, pesquisadores destacaram que não se sabe ainda se pessoas completamente vacinadas podem transmitir o coronavírus, apesar de o risco ser "certamente menor do que no caso de não imunizados".

"Para limitar a transmissão o máximo possível, usar máscaras continua sendo algo crítico, mesmo para aqueles que estão completamente vacinados até que a transmissão comunitária diminua para níveis baixos e uma elevada parcela da população esteja vacinada", afirmaram.


Voltar


Comente sobre essa publicação...