Semana On

Quinta-Feira 24.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Tudo por um milagre

Nossas esquisitices consumistas na pandemia

Postado em 09 de Junho de 2021 - Theresa Hilcar

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Todas às vezes que vejo dona Maria a minha porta trazendo um pacote eu me pergunto: o que será desta vez? Dona Maria trabalha no meu prédio há anos, é uma senhorinha muito simpática que, num gesto de delicadeza, traz minhas encomendas da portaria até o apartamento.

Antes eram quase raras, mas de uns tempos para cá elas estão cada vez mais assíduas. Chego a ficar um tanto constrangida ao receber o pacote das suas mãos calejadas pelo trabalho da faxina.  

Não tem nada a ver com o peso. Normalmente os pacotes são pequenos ou alguns médios. A maioria é bem leve. O constrangimento é pelo visível consumismo que me acometeu nestes tempos pandêmicos. Tudo bem que eu sempre tive umas esquisitices consumistas. Como, por exemplo, estou sempre fazendo estoque de guardanapo de papel e de xampu. Não importa se os itens estão em falta ou não. Ao vê-los acabo comprando.

Também costumo comprar muito gengibre. E ovo caipira/orgânico também. Sou atraída por estes itens mesmo não os vendo presencialmente, pois as compras são feitas pelo site. Esqueci de falar da água sanitária, outro item recorrente na minha lista de compras. E isto começou muito antes da Pandemia. Há anos, para ser mais precisa.  

Cada louco com sua mania, vão dizer. Mas os tais pacotes que recentemente começaram a entrar na minha rotina não tem nada a ver com limpeza ou alimentação. São parte do processo de ansiedade do isolamento. O consumo como remédio. Que, vamos deixar bem claro, não funciona. Mas o capitalismo descobriu que cada vez que entro numa rede social (que nem falo mais o nome), ele tenta me seduzir com alguma balinha, às vezes um canhão.  

Já contei aqui dos tais cliques de compras. Inúmeros. Pois agora estou colhendo os frutos de tamanha indulgência. E pior, nunca sei o que vou encontrar dentro do tal pacote. É quase um Tinder Ovo: sempre uma surpresa. E devo confessar: tenho medo de conferir os e-mails e recibos das compras.

Esta semana recebi um equipamento de borracha para fazer abdominais que, sinceramente, não me lembro de ter comprado. Também recebi um medicamento homeopático que conheci através do filme O Contágio. A compra foi exaustiva. Tive que pesquisar muito para encontrar o remédio que tem nome chinês e é feito com a planta que só cresce em alguns lugares da Europa e na Ásia. Não custa tentar.

Também do Oriente recebi um emplastro para purificar o organismo eliminando toxinas. É só colar na sola do pé na hora de dormir.  Dia seguinte você retira o tal emplastro e percebe que ele fica escuro e pegajoso. Já usei a caixa inteira (com apenas três), mas não sei dizer se funciona. Não custa tentar.

Ontem resolvi enfrentar o medo e consultar minha caixa de e-mails. Quase tive um troço ao ver que nas próximas semanas devo receber uma cerca flexível feita de plantas artificiais para a varanda; uma bolha mágica para o meu neto que fará dois anos; um sapatinho tipo tênis também para o mesmo aniversariante (devo ter achado pouco só o brinquedinho); e por último (tomara!) Virá um aparelho ultra dental, que ajuda na remoção do tártaro.

Diante de tamanha insanidade, resolvi colocar um fim neste desvario consumista: sai da rede social. Nada de ficar de bobeira vendo anúncios fofinhos e soluções milagrosas, tudo para aplacar a ansiedade de não saber como será o amanhã.  

Sim, já comprei livros a respeito e fiz uma meia dúzia de cursos terapêuticos online. Atualmente estou praticando a meditação da Cabala. Faço parte de um grupo que medita pelo whats as manhãs. A prática não exige nenhum cartão de crédito. É covidfree. Ufa! Não custa tentar!


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