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Segunda-Feira 25.out.2021

Ano X - Nº 464

Coluna

Expectativa de vida de latino-americanos com HIV aumentou desde 2003

Pesquisa publicada no ‘The Lancet HIV’ mostra que a expectativa de vida de soropositivos subiu para 61,2 anos no Haiti e para 69,5 anos em países da América Latina

Postado em 09 de Junho de 2021 - Galileu

Expectativa de vida de latino-americanos com HIV e que tomam medicamentos antirretrovirais sobe. Foto: Anna Shvets/Pexels Expectativa de vida de latino-americanos com HIV e que tomam medicamentos antirretrovirais sobe. Foto: Anna Shvets/Pexels

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Um estudo publicado na revista científica The Lancet HIV traz boas notícias: a expectativa de vida entre adultos que vivem com HIV e recebem medicamentos antirretrovirais (ARV) na América Latina e no Caribe aumentou expressivamente. O avanço, de acordo com os pesquisadores, está ligado à ampliação do acesso a testes e serviços de tratamento para a aids.

Com dados coletados nas duas últimas décadas, os países contemplados pela pesquisa foram Argentina, Brasil, Chile, Haiti, Honduras, México e Peru. O estudo teve a participação de 30 mil adultos com HIV, dos quais 17 mil (57%) eram do Haiti e os outros 13 mil (43%) pertenciam aos demais países. Todos faziam uso de terapia antirretroviral e, durante o período do estudo, cerca de 2 mil morreram.

A expectativa de vida aos 20 anos foi calculada para três intervalos de tempo (2003-2008, 2009-2012 e 2013-2017) e levando em consideração fatores demográficos e clínicos. A análise das informações revelou que de 2003-2008 a 2013-2017, houve um aumento de 13,9 anos no Haiti e de 31 anos para os outros países. Assim, a expectativa de vida dos soropositivos subiu para 61,2 anos no país caribenho e para 69,5 anos na América Latina.

Os pesquisadores observam que, seguindo uma tendência já detectada em países de maior renda (como no caso do Canadá, dos Estados Unidos e de nações europeias), as pessoas com HIV que tomam medicamentos antirretrovirais das regiões analisadas estão mais próximas das não portadoras do vírus em termos de longevidade — que vivem, em média, 69,9 anos no Haiti e 78 na América Latina.

Ação da OMS

O estudo, que é o maior do tipo já feito, indica ainda que esse aumento na expectativa de vida está ligado ao lançamento da campanha Treat All, da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2016. Com o objetivo de erradicar a aids até 2030, as diretrizes recomendam o tratamento com o auxílio de medicamentos antirretrovirais.

Introduzidas na América Latina na década de 1990, as drogas ARV foram disponibilizadas em maior escala nos anos 2000. Elas têm a capacidade de inibir a multiplicação do HIV e, por isso, conseguem evitar o enfraquecimento do sistema imunológico. A pesquisa observou que, em 2016, apenas 40% dos países de baixa e média renda seguiram a Treat All. Já no fim de 2020, esse número passou para 96%.

“Na nossa análise, os maiores ganhos na expectativa de vida coincidiram com o período depois do lançamento do Treat All”, afirma, em nota, Clauda Cortes, da Universidade do Chile. “Desde o fim do período de estudo em 2017, mais países de rendas baixa e média passaram a adotar as recomendações, então estamos esperançosos de que análises futuras mostrem que o Treat All continua ajudando a transformar a vida de pessoas com HIV”, complementa.

As desigualdades persistem

Apesar das boas notícias, os pesquisadores também chamam a atenção para o fato de que existem disparidades conforme algumas características das populações. De acordo com a pesquisadora Jessica Castilho, da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, é necessário realizar mais pesquisas para que os resultados dos grupos mais vulneráveis possam melhorar.

Uma das desigualdades está relacionada ao número de células CD4, que são responsáveis por combater infecções e representam um marcador importante no grau de severidade da aids. No Haiti, espera-se que pacientes com baixo nível de células CD4 vivam até 48.5 anos contra 71 anos daqueles com alto índice. Nos demais países, os números mudam, respectivamente, para 52,7 e 84,8 anos.

Além disso, a tuberculose — uma das principais causas de morte entre pessoas que vivem com HIV — também interferiu na expectativa de vida. Pacientes com histórico da doença no Haiti apresentaram menor expectativa de vida (44,1 anos) do que aqueles sem o mesmo histórico (66,6 anos). Nos outros países, a diferença também foi registrada: 48 anos e 74,1 anos, respectivamente.

A educação escolar foi outro fator que interferiu na expectativa de vida. No Haiti, estima-se que pessoas soropositivas com instrução acima da educação secundária vivam por 77,7 anos. No caso daquelas que têm instrução abaixo desse patamar, o número cai para 53.3 anos. Nos demais países analisados, os números são 75,5 e 57 anos, respectivamente.

Diante desse cenário, duas pesquisadoras brasileiras que não estavam envolvidas no estudo observam que, no contexto da pandemia de Covid-19, esses ganhos na expectativa de vida de pessoas com HIV podem retroceder.

"No final de 2020, a estimativa era de que a pobreza atingisse 231 milhões de pessoas na América Latina — nível que foi visto pela última vez há 15 anos", observam Lara Coelho e Paula Luz, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas. "Prevemos que os efeitos da pandemia na região terão um impacto desproporcional nos grupos mais vulneráveis, incluindo pessoas com HIV", concluem.


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