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Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Coluna

Ayahuasca e os desafios dos conhecimentos indígenas diante da globalização

É preciso aprender a viver juntos, respeitando a diversidade

Postado em 09 de Junho de 2021 - Daiara Tukano

Elza Fiuza / Agência Brasil Elza Fiuza / Agência Brasil

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O nascimento do Kahpi para o povo Tukano marca o surgimento das línguas e da divisão dos povos antes da humanidade navegar e se espalhar pelo mundo.

Kahpi ou Missipen é o nome dado pelo povo Yepá Mahsã ao cipó da ayahuasca, batizado cientificamente como banisteriopsis caapi em referência à língua do povo Tukano que foi um dos primeiros a ter esse tipo de contato de sua medicina com a ciência e cultura ocidental. Ainda que hoje muito se fale sobre ayahuasca poucos conhecem as histórias de como ela foi sendo tomada pelo mundo.

Nascimento do kahpi. Hidrocor sobre papel, arte de Daiara Tukano 2020

O conhecimento milenar do kahpi é presente em mais de cem povos indígenas da bacia amazônica entre Brasil, Colômbia, Equador, Bolívia, Guiana e Venezuela. No Brasil seu uso tradicional é conhecido entre os Apolima-arara, Arapaço, Asháninka, Avá Guarani, Baniwa, Barasana, Bora, Desana , Guarani Mbyá, Guarani Nhandeva, Huni Kuin (Caxinawa), Hupda, Juruna, Kambeba, Kanamari, Kokama, Katuquina (Nokekoi), Kubeo, Kuntanawa, Kulina-Madihá, Makuna, Manchinery, Matis, Matsés, Marubo, Nukini, Omagua, Piratapuyo, Puyanawa, Shanenawa, Shawandawa, Tariano, Tatuyo, Tikuna, Tukano (Yepá-Mahsã), Tuyuka, Wanano (kotiria), Witoto, Yekuana, Yaminawa e Yawanawá, além de provavelmente alguns povos isolados.

As trocas antigas entre esses povos dos troncos linguísticos Tukano, Pano e Arawak podem ser notadas através das histórias e cantos cerimoniais: o kahpi sempre esteve no centro de nossas organizações sociais e diplomacia antigas muito antes dos europeus pisarem nesta terra. Evidências arqueológicas apontam o uso entre povos indígenas superior a cinco mil anos e até oito mil anos.

Também conhecido como Jagube, Mariri, Yagé ou Caapi, o cipó nativo da região amazônica é matéria-prima na produção de uma bebida conhecida por pelo menos, oitenta nomes diferentes, como, por exemplo, Uni, Yagé, Kamarampi, Caapi, Natema, Pindé, Kahi, Mihi, Dápa, Nixi pae, mais recentemente como Cipó dos espíritos, Santo Daime, Vegetal, Hoasca ou Oaska.

O Banisteriopsis caapi foi, descrito e classificado como membro da família das Malpighiaceae pelo botânico inglês Richard Spruce, que, entre 1849 a 1864, viajou intensamente através da Amazônia brasileira, venezuelana e equatoriana, para montar um inventário da variedade de espécies de plantas lá encontradas na companhia de Alfred Russel Wallace e Henry Walter Bates. Ele conduziu um trabalho que reuniu mais de 30 000 espécimes vegetais da Amazônia e dos Andes, incluindo além do caapi os gêneros da seringueira ( Hevea ) e cinchona, da qual o quinino é derivado.

É importante lembrar o contexto histórico das viagens de Spruce durante o “Império da Borracha", em plena revolução industrial, em que a exploração da seringa passou a ser um importante comodity mundial para a fabricação de pneus e outros emborrachados necessários aos avanços tecnológicos da época. Spruce foi financiado em suas missões para reconhecer as melhores espécies de seringa, de forma a atender produção em larga escala, adaptar a espécie na Ásia e romper o monopólio amazônico da borracha que incomodava a economia europeia.

Para muitas comunidades indígenas, o período da borracha coincidiu com os primeiros contatos ou tempo das correrias, uma vez que a extração da borracha era amplamente realizada pelo trabalho de mão de obra escrava. Barões da borracha chegavam a marcar a ferro os indígenas sequestrados e torturados por eles, também era comum deslocar pessoas de suas regiões de origem para lugares distantes dentro da floresta de maneira a deixá-los sob de escravidão, à mercê de pouco alimento e muitas ameaças.

Irmã da jiboia. Hidrocor sobre papel, arte de Daiara Tukano 2020

Concomitantemente à chegada do Império da Borracha e ao interesse econômico sobre a Amazônia durante o século dezenove, missionários católicos encarregados pelos Estados e pela Santa Sé em diversos países, protagonizaram o início do que pode ser entendido como genocídio das culturas indígenas ayahuasqueiras.

As missões católicas de Capucinos e Salesianos enviadas para as regiões do Rio Negro, Vaupés e Putumayo entre Colômbia e Brasil marcaram o início da derrubada das grandes casas tradicionais dos povos do Jurupari. As malokas, casas comunitárias onde se realizavam as antigas cerimônias de kahpi foram derrubadas e substituídas por igrejas, os clãs divididos em aldeamentos de famílias nucleares e as crianças levadas a internatos de ensino religioso que proibiam as línguas maternas. Fomos batizados com nomes cristãos aleatórios, e o jurupari, figura sagrada central de nossos rituais mais importantes comparado ao demônio. Nossas mais belas músicas das flautas do dabucuri e do jurupari foram registradas num álbum nomeado de “inferno verde", pois nossa cultura fora demonizada e proibida em nome de “Deus”, do “progresso" e da assimilação à vida “civilizada".

Foi também durante o período de exploração da borracha no início do século vinte no estado do Acre que se iniciou uma troca inusitada entre indígenas e retirantes nos seringais, que deu início ao surgimento do Santo Daime, e das primeiras igrejas ayahuasqueiras.

O processo de cristianização da ayahuasca, e o surgimento de sincretismo diversos dentro de cultos religiosos e “neoshamanicos" é um fenômeno que não cansa de surpreender os povos indígenas que detém conhecimento milenar sobre essa medicina. As histórias das origens da ayahuasca até o atual momento de globalização nos colocam diante de contrastes interessantes e nos interpelar a refletir sobre os encontros de mundos, paradigmas de conhecimentos, culturas e ciências.

Irmã do Gavião Real. Hidrocor sobre papel, arte de Daiara Tukano 2020

É importante salientar que povos indígenas somos civilizações tão antigas e complexas como qualquer outra, e enquanto civilizações temos sistemas de conhecimentos próprios, o que inclui medicina como saber científico desenvolvido milenarmente. O conhecimento de nossos especialistas chamados comumente de pajés ou shamans pede uma formação, estudo e dedicação de anos, muitas vezes superior a de um PHD dentro da academia ocidental. Estes especialistas têm denominação próprias dentro de cada povo e seus conhecimentos costumam ser passados de forma prática, por pedagogia oral e cerimonial dentro de famílias, linhagens e clãs, incluindo várias etapas de formação que incluem dietas e provas específicas a cada povo.

Dentro das práticas tradicionais é possível reconhecer uma ampla gama de estudo, ensino e pesquisa que resultam no conhecimento fino dos saber científico indígena sobre o kahpi ainda incompreendido pela ciência ocidental. A dificuldade de compreensão e diálogo entre esses dois conhecimentos muitas vezes é marcada pelo inegável racismo estrutural presente na cultura colonial ocidental que tende a inferiorizar, mistificar, superficializar e desumanizar tudo o que não é de referência europeia. Assim, não indígenas adoram dizer que “descobriram" coisas novas, da mesma forma que Spruce é considerado o “descobridor da ayahuasca", ou arqueólogos “descobrem" sítios sagrados criados e conhecidos por nós há milênios. A síndrome da “descoberta da América” e de todo território e território de conhecimento indígena já dura mais de quinhentos anos e ficou démodé e de mal tom, refletindo apenas a insistência por poder, ganância e domínio sobre os patrimônios indígenas sejam eles materiais ou imateriais. É necessário refletir sobre esses paradigmas para construir relações de respeito e colaboração entre culturas distintas.

Ao mesmo tempo que as religiões ayahuasqueiras foram se edificando em seus dogmas ao longo da ditadura militar entre as décadas de 1940 a 1980, as populações indígenas continuaram sofrendo o impacto das políticas do estado brasileiro, muitas vezes implementadas sob a responsabilidade de missões religiosas católicas e evangélicas, a exemplo da “Missão novas tribos do Brasil” conhecida por traduzir a Bíblia em diversas línguas indígenas para promover a evangelização na floresta. Durante o período da ditadura militar aconteceram grandes massacres, tortura e verdadeiras chacinas em nome do “progresso". Foi apontada a morte de mais de 8500 indígenas apenas em dez povos durante o período da ditadura, além da existência de campos de concentração e prisões indígenas que foram cenário de tortura.

Na atualidade as práticas de evangelização neopentecostal continuam sendo fortemente agressivas, promovendo mutirões de “conversão evangélica", adentrando territórios indígenas sem autorização do estado e usando o direito à liberdade religiosa como pretexto para praticar uma verdadeira caça às bruxas contra conhecedores tradicionais. Em pleno século vinte um anciãs ainda são acusadas de bruxaria e casas de Rezo são incendiadas no Brasil.

O modelo religioso norte americano neopentecostal chegou ao Brasil nas terras indígenas e nas favelas desde o início da década de 1980 e cresceu a ponto de ocupar hoje lugares importantes nos cargos políticos brasileiros, com representantes aliados às pautas do agronegócio que defendem a “exploração" da Amazônia considerada como “improdutiva", a redução das áreas de preservação ambiental e dos territórios indígenas e o fim do reconhecimento das terras indígenas ainda em andamento. Desde 1500 até hoje as alianças entre colonizadores e religiosos continua resultando no genocídio dos povos indígenas.

Mãe da onça. Hidrocor sobre papel, arte de Daiara Tukano 2020

Não é de se espantar que ao longo dessas histórias de violência nossos povos tenhamos nossas populações extremamente reduzidas, e sigamos sofrendo com falta sistêmica de acesso a políticas básicas de saúde e educação, assim como continuamos enfrentando a marginalização e racismo de uma cultura brasileira que nos condena à invisibilidade. Os territórios indígenas da Amazônia continuam sendo invadidos por garimpeiros, madeireiros, traficantes, colonos e falsos profetas que renegam nossas culturas e conhecimentos. As populações indígenas sofrem com altos níveis de suicídio, depressão e violência intrafamiliar decorrentes dessa dinâmica histórica de extermínio que chamamos de genocídio.

Hoje os conhecedores tradicionais da ayahuasca são muito reduzidos inclusive dentro de nossos próprios povos: os que ainda mantém os saberes tradicionais são sinônimo de resistência e fé nas nossas culturas. Aqueles que pertencemos à famílias onde ainda respira um pouco do conhecimento ancestral, conhecemos as histórias de luta e sofrimento de nossos antepassados, e hoje enfrentamos o desafio de dar sequência à seu legado para não deixar nossas culturas terminar de ser engolidas pelo mundo.

Com o acontecimento da “revolução psicodélica" e o crescimento das igrejas ayahuasqueiras que ganharam notoriedade internacional durante a década de 1980 e 90, o surgimento dos “neoshamanismos" marcou uma nova etapa da história da ayahuasca. Não indígenas e “descendentes à procura da memória ancestral" começaram a tecer uma série de sincretismos misturando de maneira superficial diversos conhecimentos de origem indígena e filosofias não ocidentais, construindo para si a ideia de “shamanismo universal". Foi principalmente no seio desses grupos que surgiu a ideia de um “mercado" das medicinas, colocando um processo de capitalização do sagrado que não existia antes, criando modas, tendências e produtos avidamente consumidos pelos entusiastas. Dentro desse processo de globalização e capitalização das medicinas também começou a existir o conceito de “uso recreativo" em festas e afins fora do contexto ritualístico ou religioso presente nos povos indígenas e nas igrejas ayahuasqueiras.

Aos poucos, mas talvez não tão devagar, vem aumentando a descontextualização cultural indígena do uso da ayahuasca, o crescimento do uso religioso e do interesse da pesquisa científica pelo mercado farmacêutico. De fato o kahpi tem bons resultados no tratamento à depressão, dependência química e traumas quando tem acompanhamento terapêutico, seja no âmbito tradicional, religioso ou psicológico. Existem pessoas que acham que a ayahuasca pode salvar o mundo ou a humanidade de seus próprios males, e há uma infinidade de “revelações” que dão origens a novos “líderes", “cultos religiosos" e “pesquisas científicas”. Atualmente enquanto se debate a legislação sobre a regulamentação do uso religioso da ayahuasca no Brasil, nos Estados Unidos também se discute a medicalizaçao da ayahuasca, a “padronização” da medicina e o “abastecimento" do “mercado global".

Mulher com aturá. Hidrocor sobre papel, arte de Daiara Tukano 2020

Como ficam os povos indígenas em meio a isso tudo? No Brasil os povos ayahuasqueiros mais conhecidos são os do estado do Acre, mesmo lugar onde surgiram as primeiras igrejas ayahuasqueiras. Os povos desta região tem vivido uma verdadeira revolução cultural nos últimos anos após a redemocratização do Brasil. Vários destes povos iniciaram um diálogo e trocas com as comunidades ayahuasqueiras não indígenas para criar estratégias de fortalecimento cultural junto às novas gerações.

Assim, aos poucos, conhecimentos que antigamente eram reservados a poucos pajés, na sua maioria homens, hoje começam a ser amplamente difundidos entre as juventudes indígenas, incluindo as mulheres que foram por tempo demais afastadas desse tipo de saber. Assim podemos considerar que paradoxalmente além do extermínio, a globalização da ayahuasca também promove uma certa democratização inédita do uso no seio de alguns povos indígenas.

Essa abertura para uma renovação do uso indígena da ayahuasca dentro das novas gerações também é defendida como uma estratégia para não deixar o conhecimento tradicional se perder, afinal restam poucos professores e precisamos ter mais aprendizes dentro de nossos povos, que consigam ter a disciplina e discernimento para não deixar que nossas culturas sejam alteradas demais inclusive pelos neoshamanisnos.

Sem dúvida outro fator que chama a atenção de muitos jovens a se interessar pelo conhecimento tradicional da ayahuasca é a capitalização da medicina. Com um mundo sedento por cerimônias, indígenas e não indígenas estão viajando o mundo, recebendo valores significativos pela troca de seus conhecimentos raros e passando por outros tipos de assédios inéditos para as culturas tradicionais. Antigamente os pajés não tinham tantas ofertas por fama e dinheiro, mas seria superficial julgar o reconhecimento e valorização dos rituais indígenas de ayahuasca, pois estes além de serem mestres de cerimônia também incorporam outras funções e responsabilidades dentro de suas coletividades. Os festivais e vivências de ayahuasca dentro de certos povos indígenas também têm sido estratégias de fortalecimento cultural, construção de alianças e colaboração para projetos de desenvolvimento dentro de algumas comunidades.

Essas transformações também tem aproximado povos indígenas para troca de experiência e debates sobre a globalização da ayahuasca e aos pouco o kahpi está voltando a fazer parte de nossas solenidades diplomáticas.

Os povos indígenas originários do kahpi representam uma grande diversidade cultural, mas também uma grande diversidade de contextos: existem aqueles mais próximos à dinâmica da globalização, outros mais fechados, outros em que a prática está quase extinta e outros que estão até hoje sem contato com o mundo ocidental. Mais um motivo para não se generalizar ideias a respeito dos povos indígenas, de seus conhecimentos e histórias.

No entanto hoje ao redor do mundo existem mais não indígenas do que indígenas que consomem ayahuasca. A globalização é uma realidade que continua ignorando as realidades e desafios enfrentados pelos povos que deram origem a este conhecimento. Enquanto milionários curam sua depressão com ayahuasca, os índices de suicídio e depressão entre indígenas continuam os mesmos.

Existem poucos estudos sobre o estado atual dos povos ayahuasqueiros: quantos povos somos? qual nossa população? quantos pajés resistem? quantos netos aprendem? Qual o estado o êxodo da floresta para a cidade? Quantos de nós temos territórios reconhecidos? Que violências enfrentamos em nossas terras? Quantos fomos expulsos de nossos territórios? Quantos fomos ou somos considerados extintos? Como está nossa auto estima e saúde mental? Seria o kahpi uma medicina para tratar o adoecimento causado pela colonização, usando nosso próprio conhecimento médico, científico, tradicional e ancestral?

Existe muita gente que pesquisa ayahuasca dentro da academia, nas áreas da medicina, farmácia, bioquímica, antropologia; muitos religiosos e líderes de culto que defendem o reconhecimento de suas “novas tradições", e muitos entusiastas à procura de uma “conexão ancestral" que possa “salvar a humanidade". Poucos deles têm ciência da complexidade do desafio vivido pelos povos indígenas. Várias vezes escutei que a medicina tinha ganhado o mundo como se ela não nos dissesse mais respeito, mas nossos povos nasceram junto com o kahpi.

Talvez mais importante que decifrar a química do kahpi, como funciona no cérebro e quem pode comprar mais ou vender melhor seja aprender a respeitar e celebrar nossa diversidade.

Quando kahpi nasceu, também nasceram as línguas e os diferentes povos, nos tornamos primos e cunhados, e juntos seguimos remando na cobra canoa de transformação. Seguimos até hoje na mesma canoa, com a missão de aprender a viver juntos respeitando a diversidade e que nunca compreenderemos totalmente a língua um do outro, que nenhuma ciência, cultura ou religião é superior, nem inferior e que a cura ao esquecimento de si está em honrar a memória ancestral viva para aprender a ser juntos sem impedir o outro de ser ele mesmo.

 

Daiara Tukano - Ourilândia, Pará, 27 de maio de 2021

Publicado originalmente em:  https://www.daiaratukano.com


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