Semana On

Terça-Feira 07.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Diretor do Butantan reforça que Bolsonaro sabotou vacinação no Brasil

Butantan e Pfizer compõem um cenário politicamente corrosivo para o presidente

Postado em 28 de Maio de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

 Edilson Rodrigues/Agência Senado Edilson Rodrigues/Agência Senado

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O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, confirmou na quinta (27), na CPI da Covid, que as declarações de Jair Bolsonaro não eram apenas bravata política de internet, como afirmou à comissão o general Eduardo Pazuello, mas que as intervenções públicas do presidente da República descreviam com exatidão as decisões que ele tomou para sabotar a aquisição de vacinas que poderiam evitar mortes.

"A [vacina] da China nós não compraremos, é decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente para a população. Esse é o pensamento nosso. Tenho certeza que outras vacinas que estão em estudo poderão ser comprovadas cientificamente, não sei quando, pode durar anos. A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá."

A declaração de Bolsonaro, em entrevista à rádio Jovem Pan, data de outubro do ano passado. Foi dita após ele ter desautorizado Pazuello, então ministro da Saúde, de comprar 46 milhões de doses da CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida pelo Instituto Butantan.

"Já mandei cancelar, se ele assinou. Já mandei cancelar. O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade, até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado por ela, a não ser nós", disse Bolsonaro na época.

Se já estava claro no depoimento de Carlos Murillo, gerente geral da Pfizer para a América Latina, que o presidente atrasou o processo de imunização dos brasileiros ao negar a oferta de 70 milhões de doses da farmacêutica em 26 de agosto, isso foi mais do que reforçado com a participação de Dimas Covas na CPI da Covid.

A Pfizer prometia a entrega de 1,5 milhão de doses ainda em 2020, o Instituto Butantan, bem mais. Covas alertou que ofertou ao governo federal, no dia 30 de julho, 60 milhões de doses da vacina que poderiam ser entregues até dezembro do ano passado. A turma de Jair ignorou.

Em outubro, após negociações, o então ministro Eduardo Pazuello chegou a anunciar a contratação das tais 46 milhões de doses, mas foi desautorizado naquele episódio que terminou com a patética cena de humilhação pública do general dizendo "um manda, outro obedece".

"Isso impediu a vacinação de milhões de pessoas em um prazo anterior do que [efetivamente] começou. Infelizmente nós temos a segunda posição do mundo em número de óbitos. Poderia ser amenizada", afirmou o diretor do Butantan. Segundo ele, o Brasil poderia ter sido o primeiro país a começar a imunizar sua população.

Bolsonaro não viria a mudar de comportamento em 2020. Em 17 de dezembro, ele defendeu a ineficaz cloroquina e falou a célebre frase "Se tomar e virar um jacaré é problema seu. Se virar um super-homem, se nascer barba em mulher ou homem falar fino, ela [Pfizer] não tem nada com isso", um desincentivo à vacina. Dois dias depois, afirmou que "a pressa pela vacina não se justifica", ecoando a ironia feita por Pazuello, dias antes, ao comentar a cobrança por um plano de vacinação: "Para que essa ansiedade, essa angústia?"

Quando percebeu, em janeiro, que o governador João Doria (PSDB) largaria na frente porque tinha CoronaVac na mão enquanto o governo federal não havia recebido as doses da Oxford/AstraZeneca, Jair correu atrás de abraçar a "vacina chinesa".

Em 4 de março, o discurso era outro. Cobrado por mais vacinas, disse: "Tem idiota que a gente vê nas mídias sociais, na imprensa, [dizendo] 'vai comprar vacina'. Só se for na casa da tua mãe. Não tem para vender no mundo", em visita a Uberlândia (MG). Mentira: ainda tinha, tanto que acabou comprando. E tinha ainda mais, contudo ele não quis comprar na época, como o depoimento de Covas reforça.

Se o país tivesse feito sua lição de casa, contratado antecipadamente milhões de doses de uma cesta de vacinas ao invés de apostar apenas na da Universidade de Oxford/AstraZeneca e se o país não tivesse gastado um tempo precioso atacando o laboratório chinês Sinovac e o governo do Estado de São Paulo, poderíamos estar retornando às atividades normais, como outros países. Com menos mortos e uma retomada sólida dos empregos e da economia.

Mas Bolsonaro rifou a saúde pública em nome da estratégia de promover um contágio rápido da população em busca de uma imunidade de rebanho, mas também de uma disputa eleitoral com o governador João Doria. A vacina não é garantia absoluta de que tudo ficará bem, mas é um passo fundamental. Sem ela, continuaremos nos afogando em ondas de covid.

"A pressa pela vacina não se justifica", segundo o presidente, porque, para ele, ela coloca em risco a saúde da população. Bolsonaro inferiu que as vacinas podem não ser seguras, mesmo tendo passado em todos os testes. Talvez se esses testes tivessem sido revisados pela Universidade do WhatsApp e não pela comunidade científica, ele confiaria. Ou se fossem feitas de cloroquina.

O problema é que ele já causou um estrago, em vidas e empregos, difícil de ser mensurado. E fez isso após ter neutralizado parte de instituições, como a Procuradoria-Geral da República e o Congresso Nacional, que, em uma situação de normalidade democrática, permitiriam que ele fosse interrompido antes que o estrago acontecesse. Nesse sentido, a CPI chega tarde. Mas ainda a tempo de expor o descalabro para tentar evitar que a catástrofe seja ainda maior.

Tudo isso indica que o país tem duas enfermidades. Para uma delas, a vacina chegou desnecessariamente atrasada. Para outra, a vacina só estará à disposição em outubro de 2022.

Cenário corrosivo

Tomados em conjunto, os depoimentos de Dimas Covas (Butantan) e de Carlos Murillo (Pfizer) à CPI da Covid são devastadores para a imagem do governo, corrosivos para os planos políticos de Bolsonaro e desoladores para os brasileiros em dia com a Receita Federal. A dupla revelou, em essência, que o governo gastou mais tempo fabricando problemas do que enfrentando a pandemia. Bolsonaro emergiu dos relatos não como presidente, mas como estorvo. Retardou deliberadamente a vacinação da sociedade brasileira.

Agosto de 2020 é um marco nos dois relatos. Nesse mês, o Butantan esmiuçou com o Ministério da Saúde oferta que fizera no final de julho para o fornecimento de 60 milhões de doses da CoronaVac até dezembro do ano passado. Também em agosto, a Pfizer oferecera à equipe do então ministro Eduardo Pazuello 70 milhões de doses da sua vacina, dos quais 1,5 milhão seriam entregues em dezembro. As propostas foram refugadas.

Quer dizer: na largada da corrida mundial por vacinas, o governo brasileiro deu de ombros para 130 milhões de doses. Segundo Dimas Covas, o Brasil poderia ter sido o primeiro país a vacinar contra a covid no mundo. No dizer de Carlos Murillo, o país perdeu a oportunidade de ser uma vitrine mundial de vacinação. Naquele mês de agosto, enquanto a Saúde cozinhava fornecedores de vacinas em banho-maria, Bolsonaro deflagrava uma campanha pela liberdade do brasileiro de não se vacinar.

Hoje, Bolsonaro e seus devotos alegam que o governo não poderia ter adquirido vacinas sem o aval da Anvisa. Conversa fiada. Dimas Covas relembrou que a Saúde desembolsou em agosto de 2020 R$ 1,9 bilhão para a aquisição de vacinas da logomarca Oxford-AstraZeneca. Foi um investimento de risco, sem o selo da Anvisa. O Butantan solicitara ao Ministério da Saúde ajuda monetária para o desenvolvimento da CoronaVac. Não obteve um mísero centavo.

De acordo com Covas, o Butantan fez uma segunda oferta de vacinas ao governo: 100 milhões de doses. Seriam entregues até este mês de maio. Se o negócio tivesse sido fechado, o Brasil já teria levado duas doses de CoronaVac aos braços de 50 milhões de brasileiros. Entretanto, o Ministério da Saúde optou por adquirir apenas 46 milhões de doses.

O compromisso de compra foi assinado em outubro de 2020. Pazuello exibiu-o com pompa numa reunião com governadores e líderes do Congresso em 20 de outubro. Na manhã seguinte, porém, Bolsonaro mandou rasgar o documento. Disse que não compraria a vacina chinesa. Foi nessa época que Pazuello pronunciou a célebre frase ao lado do chefe: "É simples assim, um manda e o outro obedece."

Pazuello dissera à CPI que o desdém de Bolsonaro e sua exibição de subserviência não alteraram as negociações com o Butantan. Conversa mole, esclareceu Dimas Covas. A partir desse instante, declarou Covas, on relacionamento do Butantan com o Ministério da Saúde "foi absolutamente interrompido."

Foi como se os neurônios das autoridades de Brasília tivessem entrado em recesso, voltando a funcionar apenas em 7 de janeiro de 2021. Nesse dia, o Ministério da Saúde comprou, finalmente a CoronaVac: 46 milhões de doses, com opção de compra de mais 54 milhões —que foram adquiridas posteriormente, sob forte pressão. Muito a contragosto.

O governo federal fez "uma tentativa de trazer vacina da Índia, que não foi bem sucedida", recordou Dimas Covas. "Houve a dificuldade da própria AstraZeneca [parceria firmada com a Fiocruz]. Naquele momento, a única vacina disponível era a do Butantan".

Hoje, oito em cada dez vacinas aplicadas no Brasil contra a covid são fornecidas pelo Butantan. As vacinas da Pfizer foram adquiridas em 14 de março: 100 milhões de doses. O atraso aproximou o cronograma de entregas do final do ano, retardando o encontro dos brasileiros com a vacina.

Atrasando-se o relógio, verifica-se que Bolsonaro percorreu a conjuntura na contramão. Em outubro de 2020, mês em que desautorizou o negócio firmado por Pazuello com o Butantan, o presidente afirmou que vacina obrigatória só seria aplicada no Faísca, o cachorro da família Bolsonaro.

Em novembro, quando a Pfizer enviou carta encarecendo por uma resposta sobre a proposta que fizera em agosto, Bolsonaro festejava nas redes sociais como vitória pessoal a morte de um voluntário dos testes conduzidos pelo Butantan. Era um suicídio, sem nenhuma vinculação com a vacina.

Enquanto a pandemia se espraiava, Bolsonaro sugeria o tratamento da covid com cloroquina e afins. Insinuava que o brasileiro deveria desafiar o vírus, pois o Brasil precisava "deixar de ser um país de maricas".

A ficha de Bolsonaro começaria a cair apenas em dezembro de 2020. Sob o impacto do início da vacinação no exterior, o brasileiro passou a pressionar os governos estaduais, o Congresso e o Judiciário. Cobrou atitudes diante da inação do governo federal.

A conjuntura mudou tão rapidamente que Bolsonaro foi apresentado a uma obviedade: aquele que inventa pretextos para que alguma coisa não seja feita acaba sendo desmoralizado por alguém que está fazendo a coisa. Ainda assim, o presidente brasileiro não dá o braço a torcer. Seu pelotão na CPI da Covid continua pegando em lanças pela cloroquina.


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