Semana On

Terça-Feira 03.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Poder

No AM, Bolsonaro faz exortação golpista diante do comandante do Exército

Não são os militares que em qualquer país do mundo decidem como o povo deve viver. Só decidem onde não há liberdade, e eles mandam. É o que Bolsonaro gostaria que acontecesse por aqui

Postado em 28 de Maio de 2021 - Reinaldo Azevedo (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

Foto: BNC Foto: BNC

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O presidente Jair Bolsonaro foi ao Amazonas fazer, acreditem, campanha eleitoral. Aproveitou para inaugurar uma ponte de madeira de... 18 metros! Bateu um papinho golpista, depois, com os militares.

Na presença do ministro da Defesa, Braga Netto, e do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, afirmou: "O que queremos é paz, progresso e, acima de tudo, liberdade. A gente sabe que esse último desejo passa por vocês. Vocês é que decidem, em qualquer país do mundo, como aquele povo vai viver".

E mais adiante: "Mais do que obrigação, tenho certeza que vocês agirão dentro das quatro linhas da Constituição, se necessário for. Espero que não seja necessário, e a gente parta para normalidade. Não estamos nela. Estamos longe dela".

Não! Não são os militares que decidem como o povo vai viver. Não na democracia. A decisão é desse próprio povo, que a expressa por intermédio da Constituição.

Não foram os militares que tiraram o uniforme dos civis; foram os civis que puseram um uniforme nos militares. E lhes deram o monopólio do uso da força, segundo regras.

Nem os miliares da ditadura ousaram afirmar tamanha estupidez. Ocorre que o presidente está sonhando com a intervenção militar.

Releiam a afirmação sobre "as quatro linhas da Constituição". Nem sentido faz. Seu superior no Exército, quando ainda era um tenente, apontou o seu esforço para ser um líder e a sua incapacidade para atingir esse objetivo em razão do excesso de ambição e da falta de pensamento lógico.

Vejam ali. Ora, tudo o que queremos, não é mesmo?, é que militares ajam "dentro das quatro linhas da Constituição" — e isso implica, pois, que não haverá nenhuma ameaça aos civis. Mas aí Bolsonaro emenda: "Espero que não seja necessário".

Opa! Ele espera que não seja necessário exatamente o quê? Agir dentro das quatro linhas?

Ocorre que aquilo que pretende dizer é o exato oposto daquilo que disse. Ele está convocando os militares a fazer uma intervenção, sob a sua liderança, rompendo as quatro linhas da Constituição.

Como não pode chamar golpe de "golpe", então sustenta que uma suposta intervenção armada estaria de acordo com a Constituição.

Atenção! Enquanto ele fazia esse discurso, André Mendonça, advogado-geral da União, redigia a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra medidas restritivas em curso no Rio Grande do Norte, no Paraná e em Pernambuco. Pretende, na verdade, cassar de governadores e prefeitos a competência, que está na Constituição e que já foi reafirmada pelo Supremo, para implementá-las.

A fala aos militares vale como uma ameaça ao Supremo. Caso o tribunal resolva não lhe dar o que quer — e não vai —, então diz: "Quem manda são esses caras aqui".

Eis aí o nosso paladino da liberdade.

Golpes e golpistas

É tamanho o empenho do presidente Jair Bolsonaro em tentar agradar seus ex-companheiros de farda que ele não se conteve e reconheceu ao discursar: “Tem mais ministros oriundos das Forças Armadas no meu governo do que teve durante os governos da revolução de 1964”.

Revolução não houve em 1964, golpe militar, sim. O governo Bolsonaro, de fato, tem mais militares empregados do que qualquer outro governo da ditadura que durou 21 anos. Só ministros de Estado são sete. E mais de 6 mil militares ocupam cargos nos diversos escalões da administração pública.

Repita-se: Não são os militares que em qualquer país do mundo decidem como o povo deve viver. Só decidem onde não há liberdade, e eles mandam. É o que Bolsonaro gostaria que acontecesse por aqui.

Paciência de general Mourão disfarça o seu incômodo

Você viu por aí o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República? Ele é sempre visto por aí, e não se nega a comentar as notícias do dia. Onde Mourão não é visto é na companhia do presidente Jair Bolsonaro, que prefere mantê-lo longe.

Bolsonaro voou ao norte da Amazônia para a inauguração de uma ponte de madeira construída pelo Exército. Levou com ele o ministro da Defesa, um general, o comandante do Exército, outro, e quem mais convocou a acompanhá-lo. Mourão ficou de fora.

Embora gaúcho de nascimento, o general Mourão tem fortes ligações com a Amazônia, onde serviu durante muitos anos. Diz ter ascendência indígena. De fato, parece índio, e se orgulha da paciência de índio que aprendeu a cultivar.

Só por isso, e também pelo cargo que ocupa, ainda não rompeu relações com Bolsonaro. Perdeu a confiança nele, se é que confiou um dia. E a recíproca é verdadeira. Apenas se toleram nas cerimônias oficiais que são obrigados a comparecer juntos.

Reuniões para tratar de assuntos importantes do governo? Mourão não é mais convidado. Discutir problemas que afetam o meio ambiente? Embora formalmente responda pelo Conselho Nacional da Amazônia, Mourão não é chamado para discutir.

Foi destratado recentemente por Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, suspeito de envolvimento com contrabando internacional de madeira. Salles deveria ter-se reunido com Mourão, esta semana. Nem foi e nem mandou representante.

Michel Temer, à época vice da presidente Dilma Rousseff, queixava-se de não passar de uma peça decorativa do governo. Mourão não se queixa, mas é o que ele é.


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