Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Brasil

Apoiadores de Bolsonaro seguem hostilizando jornalistas

Ao agredir jornalistas, bolsonarismo celebra a República Miliciana do Brasil

Postado em 27 de Maio de 2021 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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Irá para a coleção de fatos a serem relatados no próximo relatório da Federação Nacional dos Jornalistas as hostilidades sofridas, no Rio de Janeiro, pelo repórter Pedro Duran, da CNN Brasil, que cobria a manifestação de motociclistas encomendada pelo presidente Jair Bolsonaro e liderada por ele.

Por pouco, Duran não foi agredido. Só conseguiu ir embora num camburão da polícia. “A intimidação de repórteres por militantes ligados a Bolsonaro tem como objetivo impedir a cobertura de fatos públicos. É uma violação à liberdade de imprensa”, disse a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo”.

Ao longo de 2020, casos de agressões físicas, ofensas e intimidações a jornalistas aumentaram 168% em comparação a 2019. Foram 150 casos registrados, envolvendo pelo menos 189 profissionais e veículos de comunicação, além do assassinato de um profissional.

As ofensas foram a forma de violência mais frequente, com 59 casos contra 68 jornalistas, um aumento de 637% em comparação a 2019. Bolsonaro e seus apoiadores foram autores de mais da metade dessas ofensas, que tiveram profissionais de jornais e TV como principais alvos.

Esses dados fazem parte do relatório “Violações à Liberdade de Expressão”, divulgado anualmente pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão.

República Miliciana do Brasil

Outros jornalistas que cobriam a aglomeração também foram xingados e ameaçados. Em meio ao início da terceira onda da pandemia, ela contou com a presença do próprio Bolsonaro e do general Eduardo Pazuello, ex- ministro da Saúde. Ambos estavam sem máscara, provavelmente em louvor ao coronavírus.

Cenas como estas, de bolsonaristas atacando jornalistas, se tornaram recorrentes na República Miliciana do Brasil - onde pessoas acertam suas divergências na base do justiçamento e do linchamento, após decidirem quem tem direitos e quem tem só deveres. E onde grupos de seguidores atuam do presidente para silenciar e punir, nas redes e fora delas, aqueles que fiscalizam seu líder e denunciam as irregularidades que ele comete.

A situação lembra outra aglomeração, de 3 de maio do ano passado, em frente ao Palácio do Planalto, quando outra turba de fãs de Bolsonaro chutou e esmurrou o fotógrafo Dida Sampaio e atacou o motorista Marcos Pereira, ambos do jornal O Estado de S. Paulo. Outros profissionais de imprensa também foram empurrados e xingados.

Enquanto isso, da rampa da sede do governo, o ocupante da Presidência sorria e acenava para uma multidão que pedia o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional e o fim das medidas de isolamento social. Celebrava-se, a propósito, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Bolsonaro é o responsável pela violência contra jornalistas cometida em seu nome. Não é necessário que ele demande uma ação. Suas postagens e discursos, acusando a imprensa de mentir quando a narração dos fatos lhe desagradava, alimentam naturalmente as milícias que agem para defendê-lo, tornando a vida de outros um inferno.

Para muitos de seus seguidores, um ataque à imprensa em nome de Bolsonaro é uma missão civilizatória, quase divina.

O Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), aponta que 2020 foi o pior ano para a nossa profissão desde que a entidade começou o levantamento no início da década de 1990. Foram 428 ataques, um aumento de quase 106% em relação ao ano anterior. Desse total, Jair Bolsonaro respondeu sozinho por 175 registros - ou seja 41%.

É claro, como já disse aqui mais de uma vez, que há outros políticos, da esquerda à direita, que ostentam militâncias intolerantes, que já chegaram às vias de fato contra jornalistas. Esses casos também merecem repúdio. Mas inspirados por um presidente que usa o ódio como instrumento diário de política, estamos atolados até o pescoço de lama.

A imprensa erra? O tempo todo. Há posicionamento ideológico de empresas? Claro, basta ver os editoriais. Mas quando erros e falhas acontecem, a Justiça existe para obter reparações. O que esse pessoal quer é outra coisa. Em meio à derrocada das instituições, buscam justiçamento, querendo algo que não está na lei.

Seria leviano comparar o que acontece hoje com os Camisas Negras do fascismo italiano, que atacavam jornalistas que desagradavam seus líderes. Até porque, a Itália da primeira metade do século 20 não contava com nossa tecnologia de comunicação, que garante que ações de justiçamento sejam promovidas de forma imediata e massiva.

Diante de quase 450 mil mortos, 14,4 milhões de desempregados, 14,5 milhões de miseráveis, 19,1 milhões de famintos e uma CPI da Covid mostrando que o presidente deliberadamente adotou a estratégia de contaminar a população para que o vírus parasse de circular, Bolsonaro deve ir para o ataque cada vez mais. Pois é isso o que ele faz quando está fragilizado.

Daqui até outubro do ano que vem, veremos mais aglomerações de pré-campanha eleitoral como as que ele organizou em Brasília, em Açailândia (MA) e no Rio de Janeiro. Vai excitar seus seguidores para defende-lo e ajudar em sua reeleição.

Se o terreno estava ruim para a imprensa, principalmente as jornalistas mulheres, que ele elege como alvos preferenciais, a situação deve piorar.

Cabe à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa por Bolsonaro: substituir a pluralidade por uma "Verdade" ditada por ele em lives no Facebook ou em posts no Twitter.

Uma verdade rasa que esconde um desprezo pela vida e um profundo vazio de políticas para o Brasil e que serve como cortina de fumaça para encobrir os casos de corrupção de sua família. Uma verdade fabricada, que agride quando questionada e que não aceita o contraditório.


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