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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Especial

Mitômanos

Pazuello, Ernesto e Wajngarten mentem na CPI para proteger o chefe

Postado em 21 de Maio de 2021 - Eliane Cantanhêde (O Estado de S.Paulo), Josias de Souza e Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On

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Eduardo Pazuello, Ernesto Araújo e Fabio Wajngarten cumpriram o mesmo papel na CPI da Covid: mentir, para negar o negacionismo e acobertar os erros óbvios do presidente Jair Bolsonaro no combate a uma epidemia que já custou a vida de mais de 440 mil brasileiros. A célebre frase de Pazuello, “um manda, outro obedece”, virou “um não manda e não sabe de nada, todos os outros fazem tudo como bem entendem”.

É para rir ou para chorar? O general Pazuello jura que nunca foi desautorizado pelo presidente, o diplomata Araújo garante que não causou atritos com a China, Wajngarten esqueceu que acusara o Ministério da Saúde da era Pazuello de “incompetência”. Há, porém, vídeos, áudios, textos e reportagens nas várias mídias provando o oposto. De celulares em punho, os senadores exibem áudios que trituram as mentiras.

No caso de Pazuello: num dia, ele anunciou, para governadores, a compra de 46 milhões de doses da Coronavac; no dia seguinte, Bolsonaro disse que ele é quem manda, não abre mão da sua autoridade e não compraria “vachina” nenhuma; no terceiro dia, os dois confraternizaram: “um manda, outro obedece”.

No caso de Ernesto Araújo: está documentada, antes e durante sua passagem no Itamaraty, a enxurrada de desaforos e delírios contra a China, que, não bastasse ser o nosso maior parceiro comercial, é o maior produtor de vacinas do mundo – e das únicas vacinas usadas no Brasil até 29 de abril deste ano. Para ele, a China quer destruir os valores cristãos e o próprio Ocidente.

E, no caso de Wajngarten, que ocupava a Secretaria de Comunicação quando se envolveu – sem sucesso, aliás – na negociação das vacinas da Pfizer: para azar dele e sorte da verdade, sua entrevista à revista Veja está gravada e a acusação de “incompetência da Saúde” é bem audível.

Só precisa mentir quem não pode dizer a verdade. Logo, o festival de mentiras na CPI é para tentar salvar Bolsonaro, que está comprometido até a medula por atos, omissões e falas sobre vacinas, isolamento, máscaras, cloroquina. O papel da comissão é consolidar, divulgar e amplificar o que só não viu e não sabe quem não quis e não quer.

As mentiras de Pazuello não são novidade, mas continuam chocantes. No primeiro dia, ele mostrou-se muito bem treinado e os senadores pareciam despreparados, o que bastou para uma onda de alívio no Planalto e no Exército. Ontem, a estratégia da cúpula e da oposição e dos independentes mudou: os senadores falaram muito, apontando os erros do governo e do presidente, dando pouca chance para Pazuello falar e mentir.

Ele, porém, já começou dizendo que é “um oficial-general “e oficial-general não mente”. Imagine se mentisse... E, ao insistir em negar que a Saúde tivesse criado e usado o aplicativo TrateCov, para massificar a cloroquina, saiu-se com essa: “Foi um hacker que postou”. Nem o presidente da comissão, o equilibrado Omar Aziz, aguentou: “Muito competente esse hacker, botou até na TV Brasil!”

Não dá ainda para prever o desfecho da CPI, mas ela já cumpre o seu primeiro objetivo: consolidar e jogar luzes nos erros de Bolsonaro e seu governo na pandemia. A comissão é, assim, educativa, mobilizadora, e já está sendo apelidada de “novo BBB”, ao cativar milhões de atentos brasileiros na TV, rádio, internet.

E, se Pazuello, Ernesto Araújo e Wajngarten, que também faziam tudo o que ele mandava, já foram demitidos, Bolsonaro perdeu o timing para se livrar do queridinho Ricardo Salles, do Meio Ambiente, outra área crítica do governo e alvo da PF. Com isso, e com o “tratoraço”, ele perdeu também o discurso de que não há escândalos no seu governo (noves fora as rachadinhas anteriores...). A situação de Bolsonaro, portanto, não é nada, nada confortável.

CPI falha gravemente ao não contrapor documentos às mentiras de Pazuello

Pazuello falou à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid por mais de 16 horas. O general saiu-se mal no interrogatório. A CPI saiu-se muito pior.

O ex-ministro da Saúde teve desempenho precário porque exagerou na mentira. Seus inquiridores decepcionaram porque deixaram de contrapor documentos às inverdades do general, desmontando-as. E não foi por falta de material.

Reportagem veiculada nesta sexta-feira 921) pela Folha revela que a CPI dispõe de uma dezena de e-mails enviados pela Pfizer para cobrar do Ministério da Saúde respostas à sua proposta sobre a venda de até 70 milhões de doses de vacinas ao Brasil, em agosto do ano passado, com entregas a partir de dezembro.

"Respondemos inúmeras vezes. De agosto a dezembro", declarou Pazuello em seu depoimento. "Eu tenho todas as comunicações da Pfizer." E Renan Calheiros, relator da comissão: "O presidente da Pfizer disse que não houve resposta. Ele mentiu?"

Comprometendo-se a enviar a documentação à CPI, Pazuello repisou: "Foram respondidas em negociação intensa e direta." Diante da insistência de Renan, o general soou categórico: "Não houve decisão de não responder a Pfizer. Pela quinta vez."

É incompreensível que, dispondo das mensagens que a Pfizer entregou sigilosamente à CPI, Renan não tenha esfregado as peças, por assim dizer, na cara de Pazuello.

Ao final do segundo dia de inquirição, o relator divulgou uma relação com 14 "mentiras" de Pazuello. A Pfizer consta da lista. Mas Renan se absteve de reinquirir o general, que ainda estava na bancada.

O governo só comprou a vacina da Pfizer em março deste ano —100 milhões de doses. Um dos motivos da demora, disse Pazuello, foi a falta de autorização legislativa. Nesse ponto, o depoente foi contestado à altura.

Num dos raros momentos em que a inquirição ganhou densidade, o senador Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, exibiu uma minuta de medida provisória que autorizaria a compra de vacinas. Leu um artigo que cobria as exigências da Pfizer.

Randolfe informou que, na versão enviada pelo Planalto ao Congresso no final de 2020, o artigo que abriria caminho para a aquisição da vacina da Pfizer foi apagado.

Randolfe realçou outra diferença entre a minuta e a versão final da medida provisória. O primeiro documento trazia a assinatura de vários ministros, mas não tinha a rubrica de Bolsonaro, que subscreveu apenas a segunda peça.

Seguiu-se um diálogo entre o senador e o general:

Randolfe: "Qual é a diferença da minuta para a medida provisória editada?"

Pazuello: "A diferença..."

Randolfe: "É que a minuta não tem a assinatura do presidente da República. A medida provisória editada tem. E a medida provisória editada não tem o dispositivo."

Pazuello: "A minuta pode ser alterada. Isso foi uma minuta."

Randolfe: "Claro, e foi alterada pelo presidente da República."

Pazuello: "Ela foi alterada no governo."

Randolfe: "Pelo presidente da República."

Pazuello: "Não pelo presidente, mas pelo governo."

Randolfe: "Ah, ótimo."

Pazuello: "Pelos ministros."

Randolfe: "O senhor já esclareceu. Relator, pronto! Já está esclarecido. Foi alterado pelo governo."

O Congresso teve de resolver o problema que o Planalto não quis solucionar. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, apresentou um projeto de lei no último mês de fevereiro. Foi aprovado a toque de caixa. Em março, com sete meses de atraso, o governo adquiriu vacinas da Pfizer, que já estavam sendo aplicadas no exterior desde dezembro de 2020.

Em 28 de dezembro, Bolsonaro declarou que não era atribuição do governo procurar os laboratórios. "O Brasil tem 210 milhões de habitantes, um mercado consumidor de qualquer coisa enorme", declarou, no cercadinho do Alvorada. "Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente?"

A correspondência da Pfizer demonstra que o problema não estava nos laboratórios, mas no gabinete presidencial. Pazuello declarou à CPI que jamais recebeu ordem de Bolsonaro sobre coisa nenhuma. Só a exibição de documentos será capaz de demonstrar aos mentirosos que eles não devem dizer nenhuma mentira que não possam provar.

Governo entra em processo de autofagia na CPI

O processo de decomposição do governo Bolsonaro na CPI da Covid evoluiu para o estágio da autofagia. Nele, os membros da seita do negacionismo comem suas próprias entranhas.

Na prática, Araújo confessou sua inépcia. Sob seu comando, o Itamaraty comportou-se como se não houvesse pandemia. Culpou a pasta de Pazuello pela imprevidência de comprar a cota mínima de vacinas ofertadas pelo consórcio Covax Facility, da OMS. Jurou que partiu da Saúde também a ordem para a aquisição de cloroquina na Índia. Nesse ponto, quando apertado, Araújo reconheceu a participação de Bolsonaro, que falou por telefone com o primeiro-ministro indiano.

"Não houve plano único, uma política" para o gerenciamento da crise sanitária, declarou o ex-chanceler, sem se dar conta de que mordia a língua de Bolsonaro. Como "o Itamaraty não age de maneira autônoma", submeteu-se às demandas do ministério de Pazuello, comandado na base do "um manda e o outro obedece."

Na negociação sobre a vacina de Oxford-AstraZeneca, o Itamaraty apenas deu "apoio secundário, logístico, operacional." No colapso hospitalar de Manaus, enquanto o time de Pazuello receitava cloroquina a quem precisava respirar, a diplomacia brasileira fingiu não ver a doação de cilindros de oxigênio feita pela Venezuela. Araújo não pediu nem agradeceu o socorro. Estava envenenado pela "ideologia", acusou o presidente da CPI, Omar Aziz, eleito pelo Amazonas.

Enquanto triturava Pazuello, submetendo-o a uma forma de canibalismo típica dos caetés, que comeram o bispo Sardinha, Araújo atingiu uma espécie de cume do cinismo. Declarou várias vezes que nunca fez declarações ofensivas à China, que fornece o insumo usado pelo Butantan e pela Fiocruz na fabricação de vacinas.

Pior do que a presunção de Araújo de que ninguém se lembraria da sua insanidade retórica é a conclusão e que não havia razão para preocupação. Mesmo sabendo que todos conhecem seus ataques ao maior parceiro comercial do Brasil, o ex-chanceler acha que pode dizer o que bem entender no vácuo sanitário a que chegou o Brasil. Tudo, afinal, pode ser dito e feito quando ninguém se incomoda de ser chamado de "mentiroso" na frente das crianças.

"Eu imagino que o senhor tenha uma memória seletiva, para não dizer uma memória leviana", bateu a senadora Kátia Abreu. "O senhor não se lembra de nada do que importa e do que ocorreu efetivamente; e se lembra de questões mínimas, supérfluas e até mesmo não verdadeiras, como o senhor vem fazendo aqui todo esse momento. A impressão que se tem é que existe um Ernesto que fala conosco, de que nós ouvimos a voz, e um outro Ernesto que eu não sei onde fica, nas redes, na internet, nos artigos, nos blogs, falando coisas totalmente diferentes."

Kátia prosseguiu: "O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor no MRE [Ministério das Relações Exteriores] foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira. Foi isso o que o senhor fez."

Governo usa a mentira como instrumento de política pública e poder

De fato, ao longo dos últimos dias, a CPI revelou o real funcionamento da gestão do governo brasileiro. Ela inclui um arsenal formado por armas como o engano, falsidade, fraude, embuste, embustice, impostura, enredo, farsa, trapaça, lorota, balela, peta, burla, lenda, história, logro, invencionice, invenção, imaginário, irreal, inverdade, novela, patranha, calúnia e pulha.

Há também a pala, mendacidade, maranhão, encravação, moca, pomada, pretexto, carapetão, patacoada, patarata, intrujice, endrômina, caraminhola, embromação, pataratice, potoca, lampana.

Também fica claro o uso de fábula, fabulação, ficção, fantasia, ludíbrio, quimera e ilusão, além do irrealismo e de aldrabão.

Nas aglomerações que são promovidas, pede-se orações para líderes que prometem exterminar o contraditório. Fatos não são tolerados. Deus e ódio se misturam nas mesmas frases.

Nas ruas, nas praças, no mundo virtual ou na violência diária, todos esses personagens na gestão do país têm algo em comum: o desprezo pela democracia.

O ruído causado pelos seguidores, instigados por seus líderes, certamente é maior que seu número real de apoiadores. Mas ainda assim tal massa é relevante no cenário em que vivemos. Uma massa que mistura classes sociais sob uma única ideologia, com um comportamento fanático capaz criar uma surdez crônica.

Instrumentalizada, ela cumpre justamente um objetivo, online e offline: o de dar pinceladas de legitimidade popular a um movimento que não tem compromisso com a verdade.

O que a CPI revelou nesta semana é que a base dessa gestão e desse projeto de poder é a mentira.

Nada disso é novo. Nenhum regime autoritário foi instalado sem uma manipulação prévia de uma parcela da sociedade. Hannah Arendt aponta como, anos antes da chegada ao poder de tais forças na Europa, sociedades de classes foram dissolvidas em massas. Já os partidos foram destruídos e substituídos apenas por ideologias.

Em Brasília, caravanas bolsonaristas são distopias de um sonho de uma cidade erguida para ser a capital de um novo século, democrático. Nas sombras dos traços do arquiteto estão os reflexos de um governo que mobiliza tropas cegas pela ignorância para se defender, aprofundar seu desprezo pela verdade e levar um país ao limite de sua coesão nacional.

Todos os sinais da CPI apontam na mesma direção: a república está ameaçada e seu desmonte alimentado pela mentira crônica ocorre em plena luz do dia, transmita ao vivo. Uma mentira que mata seres humanos. Uma mentira que, pelo poder, sacrifica a democracia.


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