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Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Saúde

Fiocruz para, e produção de vacinas contra Covid no Brasil fica suspensa por falta de insumo

No ritmo atual, vacinação no Brasil só acabará em 610 dias, afirmam pesquisadores

Postado em 21 de Maio de 2021 - G1, Galileu – Edição Semana On

Foto: Benoit Tessier/Reuters Foto: Benoit Tessier/Reuters

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A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) interrompeu na quinta-feira (20) a produção da vacina Oxford/AstraZeneca por falta de insumos. A previsão é que um carregamento de IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) chegue neste sábado (22), e a produção recomece na terça-feira (25).

A AstraZeneca e a CoronaVac são as duas únicas vacinas do Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, produzidas no Brasil. A vacina da Pfizer é importada dos Estados Unidos.

Nesta sexta (21), a Fiocruz deve entregar mais 5,3 milhões de doses da vacina contra a Covid ao Ministério da Saúde. Com estra remessa a fundação vai bater a marca de 40 milhões de doses entregues.

No último dia 14, o Instituto Butantan já havia suspendido completamente a produção da vacina CoronaVac por falta de matéria-prima.  O instituto aguarda a liberação pelo governo chinês de um lote com 10 mil litros de IFA, o equivalente a 18 milhões de doses, para retomar a produção.

Produção Fiocruz

Atualmente, a capacidade de produção da fundação atinge cerca de 1 milhão de doses por dia.

Segundo comunicado da instituição, não há ainda previsão de que a interrupção temporária possa impactar entregas futuras.

"O cronograma de entregas permanece semanal, sempre às sextas-feiras, conforme pactuado com o Ministério da Saúde, seguindo a logística de distribuição definida pela pasta".

Balanço de vacinados

Após quatro meses de vacinação contra a Covid-19 no Brasil, apenas 39% dos idosos acima de 60 anos foram vacinados com as duas doses no Brasil, considerando todas as vacinas.

Os dados foram tabulados pelo G1 a partir da base de vacinados do OpendataSUS, sistema do Ministério da Saúde em que estão registradas todas as doses aplicadas.

Ao ampliar a análise para todo o grupo prioritário, que totaliza pouco mais de 78 milhões de pessoas segundo a última atualização do Plano Nacional de Vacinação, vê-se que 45% receberam a 1ª dose e somente 20% podem ser consideradas imunizadas, pois receberam também a 2ª dose.

Entende-se como grupo prioritário os profissionais de saúde, os idosos acima de 60 anos, as grávidas, os indígenas, entre outras categorias incluídas recentemente.

A vacinação eficiente é a principal arma para evitar uma terceira onda de casos e mortes causadas pelo coronavírus. A possibilidade de uma nova onda foi levantada pela Fiocruz, em um boletim extraordinário do Observatório da Covid-19 da fundação.

"A observada manutenção de um alto patamar, apesar da ligeira redução nos indicadores de criticidade da pandemia, exige que sejam mantidos todos os cuidados, pois uma terceira onda agora, com taxas ainda tão elevadas, pode representar uma crise sanitária ainda mais grave", afirma o documento.

Ritmo lento

Pesquisadores de todo o Brasil, que fazem parte do grupo ModCovid19, conduziram um estudo que resultou em um modelo matemático com previsões de quando a vacinação contra a Covid-19 será concluída nos estados e municípios do país. A iniciativa é uma parceria com o Instituto Serrapilheira e contou com estrutura do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI).

O sistema conta com dados do Governo Federal, devidamente corrigidos, e considera o ritmo de vacinação dos últimos 30 dias para projetar quando a imunização será finalizada no País. Segundo a plataforma, já foram aplicadas no Brasil 46,2 milhões de doses das vacinas da Astrazeneca, CoronaVac e Pfizer.

No atual ritmo de aplicação, com uma média de 294,8 mil primeiras doses e 248,6 mil segundas doses sendo administradas diariamente, o Brasil só irá concluir a vacinação em 610,3 dias, ou seja, daqui a cerca de 1 ano e 8 meses.

Previsões por estado 

No estado de São Paulo, onde já foram administradas 10,2 milhões de doses, o ritmo é de 63,3 mil aplicações de primeira dose e 42,5 mil de segunda dose ao dia. Se continuar assim, o estado só terá terminado de vacinar seus habitantes em aproximadamente 801 dias, o que equivale a 2 anos e 2 meses.

Já no Rio de Janeiro, foram mais de 4 milhões de aplicações em todo o estado. Diariamente, são dadas em média 26,6 mil primeiras doses e 22,5 mil segundas doses. Nesse ritmo, a imunização será concluída em cerca de 573 dias, portanto, em 1 ano e 6 meses. 

No Distrito Federal foram 578,9 mil aplicações, em um ritmo diário de cerca de 4 mil primeiras doses e 3,8 mil segundas doses. Dessa forma, a região terá finalizado a imunização em 570 dias — também cerca de 1 ano e meio. 

Na Bahia, que totaliza 3,2 milhões de doses aplicadas, são administradas diariamente cerca de 20,1 mil primeiras doses e 17,8 mil segundas doses. A previsão é que a vacinação acabe em 590 dias, ou 1 ano e 7 meses. 

Ajuste nos dados oficiais 

As previsões preocupam por apresentarem a lentidão diante da urgente crise de saúde mundial. Vale lembrar que a plataforma é atualizada de acordo com a chegada de novas vacinas, o aumento ou a diminuição do ritmo de vacinação e outros vários critérios, segundo comunicado agência de notícias da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Possíveis inconsistências nos dados oficiais foram removidas pelos pesquisadores, de acordo com a agência. “Nós fazemos a limpeza desses dados, de modo que as informações sejam mais próximas da realidade”, explica o professor Krerley Oliveira, coordenador do Laboratório de Estatística e Ciência dos Dados da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

“Na base fornecida pelo governo existem milhões de dados com problemas. Há dados de vacinados que teriam nascido no século 19, recebido a segunda dose em uma data anterior à primeira, recebido mais de uma dose no mesmo dia, recebido apenas a segunda dose, recebido vacinas diferentes e recebido a vacina antes de 2021”, conta Oliveira.

Com informações mais precisas, o pesquisador acredita que a plataforma poderá ajudar na tomada de decisão em políticas públicas municipais e estaduais, alertando caso alguma localidade perceba que muitas pessoas não tomaram a segunda dose, por exemplo.

“Com essa informação em mãos, é possível realizar campanhas de conscientização. A ferramenta pode ser importante também para moradores de cidades pequenas, por exemplo, que não têm muitas informações sobre a vacinação”, diz Oliveira.

A tecnologia do sistema em si foi desenvolvida no Laboratório de Estatística e Ciência dos Dados da UFAL. O projeto é apoiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

Para acessar os dados, basta selecionar o Estado e a cidade desejados. É possível conferir informações como a projeção para o fim da vacinação, detalhes sobre doses aplicadas por dia, doses administradas com atraso, demanda diária por vacinas, vacinação precoce, abandono da vacinação etc. Confira a plataforma em: http://cemeai.icmc.usp.br


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