Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Nossa gaiola

Os canarinhos na gaiola e o nosso confinamento na Pandemia

Postado em 19 de Maio de 2021 - Theresa Hilcar

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Tenho a sorte de ter amigos que me emocionam. Com gestos ou palavras, eles conseguem tocar minha alma. Um deles é mineiro e jornalista como eu. E tem o dom de escrever com rara lucidez. Vez por outra me manda cartas, às vezes poemas, que chegam pelos Correios. 

Marcio, que nós os amigos chamamos de Marcinho, contrastando com seus quase 2 metros de altura, além de mandar cartas escritas à mão, de vez em quando envia uma ou outra mensagem pelo aplicativo. Outro dia, depois de um tempo sumido, mandou um textão. E pediu desculpas pelo monte de letras. Respondi que gosto dele com lonjuras de escrita, como diria Manoel de Barros. 

Por meio de mensagens, porque como eu ele também não gosta de telefone, conversamos sobre vacina – em nosso caso, a falta da segunda dose – e ele me disse que quando vai ao posto de saúde e lhe dizem que ainda não chegou a santa e justa dose, ele sente o quanto somos todos cidadãos de quinta categoria. 

E emendou sua indignação lembrando o sofrer do público LGBT; das mulheres que apanham dos parceiros; do negro que ao sair de casa passa a ser suspeito, pois a cultura escravocrata impera em preconceitos; do trabalhador dispensado em carteira e nos 30 milhões que sobrevivem na informalidade.

Marcinho é dessas raras pessoas que possuem consciência social. E tem um texto impecável. Mas como boa parte dos escribas da nossa geração, disse que anda com repertório esgotado junto ao grande público. Sente-se, segundo ele, totalmente fora do contexto.

Respondo dizendo que estamos no mesmo barco. Uma pequena embarcação que está à deriva e onde se juntaram aqueles que ainda insistem em fazer reflexões. E sob este ângulo, parece que o resto do mundo está na praia se divertindo.

O meu barco metafórico ele chama de microcosmo. Um espaço, segundo suas palavras “ainda existe delicadeza, afeto, carinho, amizade e solidariedade... assim mesmo com justificáveis concessões... até mesmo entre os familiares... caso contrário a discórdia se impõe”.

Tempos complicados, Marcinho. Às vezes penso que o silêncio é a melhor estratégia, senão a única. Talvez estejamos sendo exigentes demais, quem sabe? Não dá mesmo para esperar nenhuma profundidade em tempos rasos e obscuros. Para ilustrar sua frustração, conta que mandou carta para uma amiga pela passagem de seu aniversário e recebeu como única resposta a singela frase:  que fofo!  Diante do fato explícito ele confessa: “Desisti”.

Como bom mineiro, meu amigo diz que não gosta de “amolar” ninguém. Então vai ficando na dele. Os diálogos vão diminuindo, os amigos minguando, os contatos rareando. Será que é coisa de velho ou de quem é triste? - pergunto.

Triste ele está, me responde. Há pouco tempo perdeu o pai de 92 anos e o canário com 10 anos... “Ambos velhinhos”, destacou na mensagem. E para quem não entende essas mineirices, vale dizer que a morte de um canário é tão triste como a de um ente querido. Os que são criados em casa (prática comum em Minas), com todo cuidado e carinho durante anos a fio, tornam-se parte das famílias.

E diante desta cena, que imagino desoladora, acabo percebendo que muitos de nós estamos vivendo como canarinhos. Sem poder sair da nossa gaiola. A diferença é que eles cantam. E canto de passarinho, cá pra nós, muda tudo.


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