Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

O Chile em Marcha

Um vulcão constituinte

Postado em 19 de Maio de 2021 - Túlio Batista Franco

 Wikimedia Commons/Lucas Silva/Guia do Estudante/Reprodução Wikimedia Commons/Lucas Silva/Guia do Estudante/Reprodução

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Quando em 25 de outubro de 2019 a bandeira Mapuche[1] tremulou sob os céus de Santiago, sustentada por 1,2 milhão de pessoas, sabia-se que ela anunciava algo novo em pleno acontecimento. O ronco das ruas tinha a energia de um abalo sísmico, provocado pela força dos movimentos sociais. Entre os Andes e o Pacífico, o grito de esperança ressoava em todos os lugares, falado pelo povo em luta: _ “Chile desperto”.

O estopim das mobilizações foi a proposta de aumento no valor da tarifa para o metrô de Santiago, que encontrou um povo asfixiado por políticas neoliberais de restrição de direitos, arrocho financeiro e repressão política.

A reação popular foi como a de um vulcão em erupção, se somando aos 2.900 vulcões existentes no Chile, 95 deles ativos. Força, energia e beleza estética dão sentido às sucessivas manifestações que ocuparam por meses a Praça Itália em Santiago. As lavas vulcânicas deste movimento que aqueceram as ruas de Santiago, têm energia suficiente para forçar o governo a convocar um plebiscito, que ocorreu em 25 de outubro de 2020, para consultar à população sobre a realização de um processo constituinte que deveria escrever a nova constituição nacional. 80% das pessoas votaram favoravelmente à proposta, e finalmente em 15 e 16 de maio de 2021, 42 % da população compareceu para eleger seus representantes ao novo parlamento com função de elaborar a nova constituição. O edifício neoliberal, sustentado por sucessivos governos financistas e autocráticos, desde a ditatura de Pinochet em 1973, tem novos abalos.

O processo iniciado demonstra um potencial de mudança, para além de um texto legal a ser construído, como por exemplo instituiu-se a paridade de gênero entre parlamentares constituintes; foi possível aos movimentos sociais apresentarem candidatos independentes de filiação partidária, e estes vão ocupar 48 vagas, sendo a maior bancada da assembleia constituinte; os povos originários elegeram 17 indígenas, algo inusitado na história do parlamento chileno, e abre espaço para discutir suas reivindicações sobre seus territórios. Os grupos de esquerda e centro-esquerda somam 53 representantes. Isto garantiu maioria às forças democráticas, antineoliberais e progressistas. A direita tradicional vinculada ao atual presidente Sebastián Piñera, ficou isolada na sua chapa Chile Vamos, com 37 lugares, ou seja, menos de um terço dos representantes, e perdeu assim, o poder de veto sobre qualquer proposta a ser apresentada.

Em que pese a vitória no processo eleitoral das forças progressistas, este processo será sustentado realmente através da mobilização popular que deve continuar com o processo constituinte. No campo da saúde entidades vinculadas a Universidades e Movimentos Sociais da Saúde promoveram entre os meses de março de abril, dois pré-encontros e um encontro final que sistematizaram propostas para serem apresentadas à Constituinte chilena.

Movimentos como estes devem continuar no processo de discussão que segue junto à formulação da nova constituição. As forças vulcânicas despertadas com a energia das manifestações populares, precisam continuar ativas neste processo.

Na antropologia Mapuche o Toqui (aquele que possui o machado) é um título conferido àqueles que são escolhidos como seus líderes em tempos de guerra. Por sua força e simbologia de luta e resistência decolonial, os Mapuche são os Toqui nesta nova batalha do povo chileno, para mover o Chile a um novo e diferente futuro. Um processo de mudança necessariamente reaviva a memória de luta e afetos da resistência Mapuche, uma referência importante neste processo.

Em homenagem às vítimas da repressão nas recentes manifestações que conquistaram o direito a ter uma nova constituição no Chile, deixo abaixo uma estrofe da canção “El Pueblo Unido, jamás será vencido”, do compositor chileno Sergio Ortega, cantada pelo grupo Quilapayún, que virou um hino na defesa do governo Allende, contra o golpe militar de 1973, e voltou agora como a canção em embalou as recentes manifestações.

“E pie, cantar

Que vamos a triunfar

Avanzan ya

Banderas de unidad

Y tú vendrás

Marchando junto a mí

Y así verás

Tu canto y tu bandera florecer

La luz

De un rojo amanecer

Anuncia ya

La vida que vendrá”.

 

[1] Os Mapuche, povo originário do sul do Chile e Argentina, travam uma intensa luta contra a colonização do seu território, e tem nos seus signos as marcas de uma centenária resistência decolonial. São identificados como exemplo de resistência diante da opressão e violência do estado chileno.


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