Semana On

Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Poder

A ascensão da narcomilícia neopentecostal no Brasil

Religião, Justiça e milícias: Está tudo junto e misturado no bolsonarismo

Postado em 14 de Maio de 2021 - Kristina Hinz, Doriam Borges, Aline Coutinho e Thiago Cury Andries (Open Democracy), Ricardo Kotscho (UOL) – Edição Semana On

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À sombra da pandemia da Covid-19, grupos criminosos assumiram o controle de cinco favelas na periferia do Rio de Janeiro e estabeleceram o autoproclamado Complexo de Israel. Rivais históricos na disputa pelo controle territorial, narcotraficantes e paramilitares uniram forças para avançar seus negócios ilegais. O Complexo de Israel é liderado pelo chefe do tráfico Álvaro Rosa, conhecido sob o apelido de Arão – o irmão bíblico de Moisés – e ex-polícias ligados ao grupo paramilitar Escritório do Crime, um esquadrão da morte notório, considerado responsável por vários crimes, incluindo o assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018. Atualmente, o grupo exerce controle sobre pelo menos 130 mil residentes.

Os moradores da região relatam a perda da liberdade de movimento e religião, bem como a destruição de terreiros de candomblé. Pais e mães de santo foram expulsos do território. Além disso, os moradores foram proibidos de usar trajes brancos – a cor geralmente associada aos praticantes das religiões afro-brasileiras.

O estabelecimento do Complexo de Israel representa um fenômeno inédito, mesmo em um Rio de Janeiro acostumado à toda sorte de atividade criminosa: a unificação de facções de tráfico de droga, grupos paramilitares e igrejas neopentecostais, travando uma "guerra santa" não só contra grupos criminosos rivais, mas também contra as religiões afro-brasileiras.

O tráfico de drogas e as religiões afro-brasileiras

Caracterizadas pelo abandono do Estado e pela pobreza crônica, grupos armados se estabeleceram nas favelas e periferias urbanas do Rio desde a década de 1980, reivindicando a maior parte dos seus rendimentos através do narcotráfico. Controlando acima de 50% das áreas mais violentas da cidade em 2005, o Comando Vermelho representa há muito tempo o grupo com maior poder no narcotráfico do Rio de Janeiro.

Durante as décadas de 1980 e 1990, os traficantes se identificaram principalmente com as religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, cujos locais de culto eram amplamente disponíveis nos seus territórios ocupados. Muitas vezes, os traficantes expressaram sua fé através da construção de altares e grafites dedicados às divindades afro-brasileiras.

Desde os anos 1980, grandes operações policiais foram realizadas nas favelas ocupadas por grupos de tráfico. Dada a ligação bem estabelecida entre o narcotráfico e as religiosidade afro-brasileiras, muitas dessas operações policiais foram acompanhadas por uma conversão simbólica, substituindo os símbolos religiosos afro-brasileiros e os lugares de adoração com expressões de fé cristã-evangélicas. As igrejas evangélicas têm expandido significativamente sua influência desde o final dos anos 90, formando uma rede religiosa e que promove uma "guerra contra o mal", ancorado principalmente nas periferias. Apenas entre 2000 e 2010, o número de evangélicos aumentou mais de 60% no país.

O nascimento do narcopentecostalismo

Desde os anos 80, as igrejas evangélicas têm expandido suas atividades de missionários para prisões e outros estabelecimentos penitenciários. Atualmente, o número de reclusos convertidos ao neopentecostalismo nas prisões brasileiras é significativo.

As prisões sempre representaram um espaço chave para a formação de organizações criminosas. De fato, todas as grandes facções de narcotráfico, tais como o Comando Vermelho, Terceiro Comando e o Primeiro Comando da Capital, foram fundadas em prisões.

Ocasionalmente, a abundante presença evangélica em estabelecimentos penitenciários tem se traduzido na conversão de traficantes. Este foi especialmente o caso do Terceiro Comando Puro, o principal rival do Comando Vermelho. Enquanto cumpriam sentenças em prisões estaduais, vários líderes foram convertidos para a religião neopentecostal.

Pouco tempo depois, o primeiro grupo narcopentecostal conhecido foi fundado como uma subfacção do Terceiro Comando Puro: o Bonde de Jesus. Além de controlar o tráfico no bairro do Parque Paulista no Estado de Rio de Janeiro, os Soldados de Jesus atacaram e vandalizaram vários templos de Candomblé e de Umbanda, expulsando os sacerdotes dos seus territórios. Desde então, a perseguição não só das religiões afro-brasileiras, mas também de padres católicos, tem sido relatada em várias favelas dominadas pelo Terceiro Comando Puro.

A ascensão das milícias e novas alianças

Outra força importante no equilíbrio de poder no Rio de Janeiro são as chamadas "milícias". Desde a ditadura militar, os grupos de extermínio formados por forças paramilitares e parapoliciais assumiram o controle de bairros inteiros. Muitas vezes comparada à máfia italiana, a milícia obtém as suas principais receitas da “gestão da violência” nos territórios sob o seu controle, coagindo a população local ao pagamento de taxas de proteção para as suas residências ou empresas. Em alguns bairros, milicianos também controlam outros ramos de infraestrutura, tais como a distribuição de gás, TV por cabo e transporte alternativo.

Compreendendo a milícia como um aliado estratégico no combate ao narcotráfico, diversos representantes do Estado apoiaram abertamente esses grupos paramilitares. O atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, por exemplo, declarou no passado que as "forças de autodefesa" formadas por policiais e bombeiros coibiam os narcotraficantes e traziam paz para certos bairros. É comum também nas fileiras policiais a percepção da milícia como uma extensão das suas próprias corporações, uma vez que são formadas por uma grande parte de ex-policiais e soldados do exército.

Contrariando esta reputação, associações entre grupos de milicianos e traficantes ligados ao Terceiro Comando Puro foram expostas. Para fortalecer sua posição em relação ao seu inimigo comum, o Comando Vermelho, os grupos criminosos lançaram uma nova joint-venture: nos territórios recém-conquistados, o Terceiro Comando Puro é responsável pelo tráfico de drogas, enquanto a milícia continua administrando e cobrando pela TV a cabo e pelo gás. As igrejas evangélicas, por sua vez, não fornecem apenas a justificativa ideológica para a guerra contra o demoníaco Comando Vermelho, mas também têm sido utilizadas para a lavagem de dinheiro. Como as igrejas são isentas do pagamento de impostos, fundos ilegais são facilmente canalizados por meio delas, tornando impossível rastrear a origem desse dinheiro.

A narcomilícia neopentecostal

Apesar da abordagem perigosa, a tripla aliança entre os traficantes do Terceiro Comando Puro, a milícia e igrejas evangélicas parece funcionar bem. Em janeiro deste ano, o Complexo de Israel expandiu o seu território para outros bairros do Rio de Janeiro, a convite dos próprios traficantes locais. A Polícia Civil do Rio também está investigando uma suposta aproximação com criminosos de outras regiões.

Também fora do Complexo de Israel, o poder desta joint-venture está aumentando: O Terceiro Comando Puro conseguiu expandir significativamente o seu território, conquistando importantes bastiões do Comando Vermelho na cidade.

O maior vencedor, talvez, desta nova aliança poderá ser a milícia: no ano passado, ao menos 57% da área da cidade do Rio de Janeiro era dominada por grupos milicianos, colocando 5,7 milhões de habitantes da cidade sob a mercê de organizações paramilitares. As autoridades não são inocentes neste desenvolvimento. Territórios controlados pela milícia raramente são alvo de operações policiais: desde 2018, apenas 3% das operações militares e policiais foram lançadas em territórios ocupados pela milícia.

Apesar de algumas detenções ocasionais, estas organizações criminosas altamente lucrativas e profissionais não podem ser seriamente confrontadas sem visar suas estruturas políticas e fontes de financiamento. Isto inclui rever a estrutura de transporte público e distribuição de gás e de TV a cabo - a principais fontes de rendimento das milícias - bem como a atual legislação sobre drogas e impostos para igrejas, muitas vezes utilizadas para lavagem de dinheiro.

Embora isto possa parecer uma discussão difícil, o preço atualmente pago pela população do Rio, tomada como refém pela narcomilícia neopentecostal é muito mais elevado: ao terror propagado pelos grupos armados acrescenta-se a perda da liberdade de fé e a perseguição das religiões afro-brasileiras e dos seus praticantes.

Religião, Justiça e milícias

"Imaginem, no Supremo Tribunal Federal, as sessões começarem com uma oração por parte desse ministro que será indicado por mim", sugeriu Bolsonaro, na manhã deste domingo, a um grupo de evangélicos no cercadinho do Alvorada, de onde ele costume se comunicar com a nação.

"Amém", responderam em coro os devotos do negacionismo terraplanista.

Sim, dá para imaginar a confusão que vai dar misturar religião com Justiça num estado laico ocupado por militares em cargos civis.

Era só o que faltava: transformar o STF em mais um templo da seita bolsonarista, que mistura balas com orações no mesmo discurso fascistoide.

Em vídeo divulgado pelos devotos fiéis, na semana em que a polícia miliciana do Rio entrou matando na favela do Jacarezinho, o presidente da República voltou a falar na nomeação de um ministro "terrivelmente evangélico" para a próxima vaga no STF, como se isso tivesse alguma relevância para um país que chora pelos mais de 420 mil mortos na pandemia.

Pergunta-se se antes dos tiroteios da próxima chacina também haverá orações pelos favelados marcados para morrer.

Os Bolsonaros, como se sabe, sempre atuaram em seus mandatos na defesa dos milicianos, por eles condecorados como heróis, e não espanta que tenham chorado apenas a morte do policial, uma das 28 vítimas do massacre do Jacarezinho.

"Mataram foi pouco", escreveram seus seguidores nas redes sociais, expressando um sentimento pouco cristão para quem acha importante nomear um ministro evangélico, encarregado de puxar as orações no STF, o último reduto a ser aparelhado pela nova ordem bolsonarista.

Na disputa territorial que transformou o Rio de Janeiro numa permanente praça de guerra, está tudo junto e misturado, já não se sabe mais quem é quem.

Milicianos, devotos, traficantes, políticos e policiais, alguns acumulando papéis, tomaram conta de boa parte da cidade em que a população acuada já não sabe de quem correr quando as balas começam a pipocar.

Espalhadas por todo o país, as forças paramilitares que se multiplicaram nos últimos anos criaram um estado paralelo, armado até os dentes, em que manda quem pode e obedece quem tem juízo, acima de qualquer lei estabelecida.

Neste faroeste caboclo, o STF ainda era um anteparo para evitar os abusos do poder central, que já controla quase todos os órgãos de controle, colocados a serviço da defesa de familiares e amigos do rei.

Por isso, em todas as manifestações antidemocráticas "em defesa da liberdade" promovidas pelos devotos, os ministros do STF não alinhados são o principal alvo dos ataques que pedem o fechamento do tribunal.

Não por acaso, o desafio ao STF, que havia proibido as operações policiais nas favelas durante a pandemia, sem autorização prévia da Justiça, aconteceu na mesma semana em que o governo se viu acossado pela CPI do Senado que investiga a sua responsabilidade na mortandade provocada pela falta de vacinas, respiradores e oxigênio, e o uso indiscriminado do venenoso "kit-covid".

Também não por coincidência, no dia anterior ao massacre, o presidente Bolsonaro esteve com o governador do Rio, Cláudio de Castro, que autorizou a operação no Jacarezinho.

É tudo a mesma sopa, como costuma dizer o jornalista Mino Carta, está tudo dominado. Ou melhor, quase tudo. Só faltava um STF "terrivelmente evangélico", com orações e tudo, seja lá o que isso significa para as instituições.

Oremos, pois.


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