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Segunda-Feira 25.out.2021

Ano X - Nº 464

Coluna

Quando a pandemia de ódio é tão letal quanto o vírus

Ao menos por enquanto vou acreditar que o amor, em todas as suas formas, pode superar o medo que leva ao ódio

Postado em 13 de Maio de 2021 - Theresa Hilcar

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Na fotografia ele está deitado no meu ombro, tem os olhos semicerrados e os braços enroscados no meu corpo. É um retrato tão emblemático, tão meigo, que mesmo depois de tantos anos consigo vê-lo sem a necessidade de recorrer a imagem.

Mesmo com fundo indefinido, sei exatamente o local onde ela foi tirada. Pois é, faz tanto tempo que à época ainda dizíamos “tirar” foto. A máquina fotográfica devia ser bem ruinzinha ou talvez o suposto fotógrafo não fosse lá essas coisas, já que a imagem está bem desfocada.

São meros detalhes. Nada disto tira a beleza daquele momento que, pressinto, era de absoluto conforto. Sei que era noitinha, provavelmente eu acabara de chegar do trabalho e ele, saudoso com certeza, pediu um pouco de colo e nele acabou dormindo.

Ainda posso sentir aquela vontade ser protegido e a minha disposição para acolhê-lo. Consigo lembrar dos cabelos cacheados esparramados sobre meu ombro. Estavam recém lavados e ainda cheiravam a xampu.

Pensando bem, eu poderia morar naquela foto a vida inteira. Poderia congelar aquele instante de intimidade entre mãe e filho e viver nele para sempre. O gesto é tão singular que procuro imitá-lo com os netos. Fazê-los adormecer nos meus ombros é das coisas mais alegres e doces.

Infelizmente, em tempos pandêmicos tive que abandonar o hábito, por motivos óbvios. Por isto ando troncha de saudades. E saudades, por vezes nos levam a lugares dolorosos.

A cena da fotografia, que tanto me enternece, é exatamente a mesma captura de tela da câmera do elevador no prédio em que o garotinho Henri morava. Desnecessário preciso explicar quem é o Henri. As cenas do menino carioca de cinco anos, e parte da sua história, invadiram nossos corações. E com elas vieram a dor, a comoção, a revolta, a raiva. Como se uma espada atravessasse nosso corpo.

Talvez a mesma lâmina que atravessou o corpo de mais três crianças, desta vez em Santa Catarina. Não bastasse a perda diária de milhares de pessoas, pais, filhos, amigos, irmãos, tios e tias, parte do número escandaloso de baixas pelo vírus do descaso, somos obrigados a assistir impotentes, o ódio, a barbárie nua e crua imposta a inocentes criaturas que nem puderam lutar.

A bem da verdade, devo confessar: tudo isto, além da indignação, me deixa com raiva. Estes atos de tamanha covardia fizeram nascer em mim um sentimento contra o qual sempre lutei. Sempre fugi da raiva, principalmente daquela aristotélica, que além da dor, vem acompanhada do sentimento de vingança.

Mas o que fazer se o que vejo são monstros? Todo aquele que impõe sofrimento a crianças são monstros. São monstros os que machucam que matam e até aqueles que as fazem órfãs. Dalai Lama já disse que “Não existe um monstro mais perigoso do que a falta de compaixão”.

O Brasil se transformou num celeiro de ódio. Vai longe o tempo em que brasileiros eram considerados “cordiais”. Também não sei o que foi feito do daquele "país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza" como cantava Simonal. Hoje estamos literalmente cercados por armas, ódio e vírus.

A raiva e a indignação que carrego são legítimos. São direitos de quem é humanamente viável. Minimamente sensível. Não vou deixar que ela se cristalize, tampouco que me desespere. Ao menos por enquanto. Sim, ao menos por enquanto vou aguardar que a razão e a sensibilidade superem este incômodo sentimento.

Ao menos por enquanto vou acreditar que o amor, em todas as suas formas, pode superar o medo que leva ao ódio. Ao menos por hoje vou seguir acreditando que os anjos existem e que eles levaram no ombro cada uma dessas crianças.

 E eu gostaria muito de acreditar nesta imagem, porque o único retrato que nos impõem agora está rasgando nossa alma. E nossas caras pálidas.


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