Semana On

Terça-Feira 03.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Carrego sombras que sempre chegam na lua cheia

A única forma de resistência é nos manter vivos

Postado em 05 de Maio de 2021 - Theresa Hilcar

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Desconfio que o aparecimento da super lua esta semana, mudou meu humor. Ao contrário das centenas de pessoas que postavam fotos deslumbrantes do fenômeno, eu acordei sem nenhuma vontade de me levantar da cama. As fases da lua me afetam. 

Já ouvi explicações a respeito, mas esqueci. Acabei me acostumando com as mudanças que ela traz junto com a sua beleza. No século passado era comum usar a expressão: “acordou de lua”, referindo-se a alguém que estava de mau-humor. Faz sentido. 

A culpa, no entanto, não é só da lua. Quem tem uma sombra como fardo, sabe que ela reage a qualquer detalhe fora da rotina. A mudança, por menor que seja, desorganiza meus esquemas mentais, testa minha resiliência. E impede que eu usufrua o dia lindo que faz lá fora, o céu azul e a brisa fresca da manhã de outono penetrando na minha janela.

Com o tempo, e a necessidade de sobreviver as intempéries, descobrimos alguns truques para fugir das sombras. Aprende, por exemplo, que é melhor dormir com janelas escancaradas, sem cortinas, para deixar entrar a luz da manhã e acordar os sentidos. Mesmo que vez por outra isto também desperte as águas da noite. Mas entre soluços e gotas a gente medita, faz alguma prece, recita mantras. 

O ritual diário funciona como âncora. Sempre lembrando que é preciso ficar no aqui e no agora. A tecnologia também ajuda. Através do celular, todos os dias recebo âncoras em forma de “Luz pelo WhatsApp”. Um grupo que não troca mensagens, apenas compartilha uma pequena meditação diária com pessoas do mundo inteiro. 

No twitter leio um poema sob medida. “Em tempos difíceis, você avança em pequenos passos. Faça o que você tem que fazer, mas pouco a pouco. Não pense no futuro ou no que pode acontecer amanhã. Lave os pratos. Tire o pó. Escreva uma carta. Faça uma sopa”.

Uma simples sopa, pensei. Cortar os legumes, refogar a cebola, o alho, vigiar o cozimento. Faz todo o sentido para quem, como eu, só consegue pensar no que virá depois. E o depois, todos sabem, está cada dia mais incerto.

Sigo lendo os versos da escritora russa, Elena Mikhalkova, na tentativa de me animar. “Dê um passo e pare. Descanse um pouco. Elogie-se. Dê outro passo. Então outro. Você não notará, mas seus passos crescerão cada vez mais. E chegará o momento em que você poderá pensar no futuro sem chorar. Mas se quiser, chore”.

Aceito o conselho da poeta e vou para a cozinha, corto alguns legumes a esmo, sem muita convicção. Coloco tudo no forno e, enquanto espero que cozinhem, faço um ensopado de lágrimas e letras diante do computador. Hoje está muito difícil. E nem posso culpar a lua.

São 400 mil perdas, a demora da segunda dose da vacina, a saudade dos netos, a vontade de retornar ao trabalho, de sair na rua, andar no parque, saudade de tudo que havia antes desta tragédia. Que, a bem da verdade, foi amplamente anunciada.

O cheiro dos legumes chega até o escritório, mas não desperta o apetite. Mas me lembro das milhões de bocas famintas, então como mesmo sem fome. Engulo cenouras, inhames, cebolas e penso no amigo que diz: “A única forma de resistência é nos manter vivos”. Então façamos uma sopa, ou um refogado que seja. O importante é se manter de pé.


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